Descobertas Fontes Hidrotermais em Águas Oceânicas Surpreendentemente Pouco Profundas

Os cientistas descobriram novas fontes hidrotermais ao largo dos Açores, que podem acolher formas de vida únicas.Monday, July 9, 2018

Por Stephen Leahy
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Um novo campo de fontes hidrotermais foi descoberto nos Açores. As fontes hidrotermais são nascentes quentes que se localizam a grandes profundidades no leito dos oceanos, que formam estruturas únicas, assemelhando-se a chaminés. Estas fontes hidrotermais acolhem, frequentemente, estranhas formas de vida.   

“Esta é uma descoberta extraordinária, uma vez que o campo hidrotermal situa-se a menor profundidade do que todos os outros conhecidos na Dorsal Médio-Atlântica”, afirma Emanuel Gonçalves, coordenador de uma expedição ao fundo do mar, organizada pela Fundação Oceano Azul de Lisboa, em parceria com a Waitt Foundation e a National Geographic Pristine Seas.

“É como encontrar um ambiente alienígena na Terra”, afirma Enric Sala, um ecologista marinho e um explorador residente da National Geographic. “Estes são exemplos raros de ecossistemas que se alimentam da energia libertada pelo centro da Terra e não dependem da luz solar”, afirma.

Os Açores são um arquipélago português formado por nove ilhas vulcânicas, situadas na região norte do Oceano Atlântico, a cerca de 1360 quilómetros da costa ocidental de Portugal Continental. As fontes hidrotermais, descobertas recentemente, situam-se a apenas 97 quilómetros ao largo de uma das ilhas dos Açores e a tão somente 570 metros de profundidade. A maioria das fontes hidrotermais situa-se em regiões remotas e a maiores profundidades, como é o caso das primeiras fontes descobertas, que se localizam a 2440 metros de profundidade e a mais de 322 quilómetros de distância das ilhas Galápagos.

Com recurso a um submersível de grandes profundidades, batizado de Luso, operado remotamente, os cientistas, que integraram a expedição, descobriram múltiplas chaminés de diferentes alturas e evidências da presença de bactérias no campo hidrotermal recém-descoberto.

As fontes hidrotermais situam-se em zonas de convergência de placas tectónicas, formando cordilheiras montanhosas ou dorsais, com uma extensão de 64 373 quilómetros, que ziguezagueiam ora a subir, ora a descer pela região central do sistema global de bacias oceânicas, como um fecho de correr gigante. A Dorsal do Meio-Atlântico, que integra esta espécie de fecho, estende-se por 16 000 quilómetros ao longo de um caminho sinuoso a partir do Oceano Ártico, que atravessa o arquipélago dos Açores e desce ao extremo sul do continente africano. A água do mar infiltra-se nas fraturas e fissuras que surgem nas zonas de convergência das placas tectónicas. Quando a água do mar contacta com o magma derretido da Terra, sobreaquece e sobe através dos orifícios ou fontes existentes no leito oceânico, transportando minerais libertados pela crusta terrestre situada na profundidade.

Poucas pessoas acreditavam que pudesse existir vida na escuridão total e sob toneladas de pressão no oceano profundo, até à descoberta das primeiras fontes hidrotermais em 1977, afirma Stace Beaulieu, uma bióloga marinha do Instituto Oceanográfico de Woods Hole.

Mas sabe-se hoje que as fontes hidrotermais são uma espécie de oásis para formas de vida completamente inesperadas, capazes de prosperar numa sopa química tóxica, onde as temperaturas podem atingir os 350o Celsius. As bactérias e as archaea alimentam-se dos minerais que emergem borbulhantes destes orifícios na Terra, e que, por sua vez, vão servir de alimento a vermes, caranguejos e até mesmo peixes, que se adaptaram e não conseguem sobreviver noutro lugar.

Foram encontradas mais de 700 espécies únicas nas fontes hidrotermais, e é provável que novas espécies estejam à espera de ser encontradas nas recém-descobertas fontes hidrotermais dos Açores, diz Beaulieu.

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