A Tela Humana no Festival Mundial de Pintura Corporal

A pintura corporal tem sido uma forma de expressão desde os primeiros dias da existência humana e tem sido cada vez mais reconhecida com uma forma de artes plásticas à escala global.quarta-feira, 4 de julho de 2018

No final da década de 1990, o austríaco Alex Barendregt deparou-se com as fotografias de moda dos anos 70 de uma modelo alemã Veruschka, com o corpo despido pintado dos pés à cabeça. A expressão artística aguçou-lhe a curiosidade, mas, após alguma pesquisa, Barendregt verificou que não havia qualquer grande evento dedicado àquela forma de arte. Por isso, em 1998, Barendregt decidiu organizar aquilo que designa como o primeiro festival de pintura corporal.

Duas décadas mais tarde, artistas vindos de mais de 50 países preparam-se para se reunir na cidade de Klagenfurt no sul da Áustria, por ocasião do 21.o Festival Mundial de Pintura Corporal, que se realiza a 12 de julho. Este ano, os participantes competem em 12 categorias, que vão desde o pincel à esponja, do aerógrafo e da pintura corporal em equipa à maquilhagem com efeitos especiais e instalações artísticas. O evento inclui também um festival de música, um mercado alimentar e uma semana de workshops, na semana prévia ao evento principal, que decorrerá durante o fim de semana.

“Creio que a necessidade de transformação foi sempre um traço intrisecamente humano, a transformação do corpo e a ornamentação”, disse Barendregt à National Geographic. “Podemos expressar sentimentos verdadeiramente positivos, cores, emoções através de uma forma de arte, que se agita, grita e dança.”

Este ano, Barendregt está particularmente entusiasmado com a participação das comunidades indígenas.  Um grupo da ilha de Páscoa estará presente no festival de julho, para competir com as técnicas tradicionais de pintura corporal, que as comunidades usam para contar histórias ao longo de centenas de anos.

A pintura corporal tem sido uma forma de expressão, desde os primeiros tempos da Humanidade. Na era moderna, os artistas iniciaram-se nesta forma de arte, que tem vindo a despertar as atenções dos círculos restritos da moda.  Nos últimos tempos, a pintura corporal tem vindo a ganhar espaço na cultura dominante. Com a ajuda da atenção dos meios de comunicação centrada em festivais como o da Aústria, a pintura corporal foi o mote para a produção de um reality show, Skin Wars, e tem vindo a ser reconhecida por museus e galerias de renome no mundo inteiro como uma forma de artes plásticas.

Cheryl Ann Lipstreu, artista plástica com formação clássica, terceiro lugar no Festival Mundial de Pintura Corporal de 2017 e concorrente na segunda temporada de Skin Wars, diz que foi a pintura corporal a descobri-la. Quando conheceu esta forma de expressão artística, Lipstreu arriscou servir de modelo para outra artista, antes de se decidir a comprar as suas próprias tintas e se aventurar no corpo humano como uma tela para a expressão da sua arte.

“O corpo fala comigo, porque a tela tem um pulsar”, diz Lipstreu. “Adoro a conexão com as pessoas e adoro poder transmitir-lhes a alegria da minha arte. Por isso, quando se olham ao espelho e veem a sua imagem refletida na íntegra, com o corpo completamente pintado da cabeça aos pés, invade-as um sentimento de euforia. Eu conheço bem a sensação dos tempos em que servi de modelo.”

Após o 20.o aniversário do evento no ano passado, Barendregt afirma ter a noção de que o festival ajudou a criar um movimento artístico que não existia enquanto tal no passado. Mas os seus sonhos estão longe de estar completos.

“Eu gostaria de criar uma rede, não só no âmbito da indústria da pintura corporal, mas em colaboração com outros artistas e instituições dedicadas à arte”, diz Barendregt. “A minha visão seria criar uma Art Basel para os artistas de pintura corporal.”

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