Conheça o Guardião das Chaves do Vaticano

Todas as manhãs, Gianni Crea abre as portas que nos transportam pelos corredores da História.terça-feira, 17 de julho de 2018

Por Gulnaz Khan
Fotografias Por Alberto Bernasconi

Gianni Crea é profundamente conhecedor dos contornos da História. Quase todas as manhãs, durante os últimos seis anos, Crea abre as portas dos Museus do Vaticano. Ele sentiu a quietude da Capela Sistina ao amanhecer, estudou as sombras de Caravaggio e admirou as texturas do Antigo Egito.

“Sim, eu sou um guardião de chaves, o guardião-mor de chaves, mas continuo a ser o porteiro que abre os museus”, diz Crea, um católico devoto. “Mas eu abro as portas para a História da Arte e a História da Cristandade, e é a mais bela e longa história que existe no mundo.”

Crea trabalha no Vaticano há 20 anos e os últimos seis na qualidade de clavigero principal. “A partir do momento em que seguro nestas chaves, gastas pela passagem do tempo, tenho sobre mim a responsabilidade de algo muito maior do que apenas eu próprio”, afirma.

As manhãs de Crea começam às 5h30m num local seguro, que abriga 2797 chaves. Crea e a sua equipa de 10 clavigeri, cinco no turno da manhã e outros cinco no turno da noite, abrem e fecham 300 portas todos os dias, mobilizando consigo cerca de 700 funcionários. Eles percorrem uma extensão com 7,4 quilómetros de comprimento ao longo dos museus, que recebem, diariamente, cerca de 28 000 visitantes.

“Conheço o cheiro que me aguarda, quando abro a primeira porta. É o cheiro da História, o ar que outros homens respiraram antes de mim.” É o mesmo chão que pisaram, amaram e derramaram lágrimas, afirma.

PROGRAMADOS PARA A ARTE

Os Museus do Vaticano acolhem, protegem e restauram dezenas de milhares de obras inestimáveis, que vão desde a Antiguidade aos tempos modernos, mas talvez nenhuma seja tão icónica como o assento do conclave papal. Crea ainda se lembra de se sentir dominar pela emoção, quando abriu pela primeira vez a Capela Sistina em 1999, acompanhado por um velho guardião de chaves.

“Os corpos são representados com um tal detalhe: os movimentos, a torsão, a musculatura”, diz Crea. “Há algo ali, algo muito especial, mágico.”

Impressionante no seu conjunto, os frescos de Miguel Ângelo cobrem cerca de 1115 metros quadrados da área da capela. Cenas do Livro do Génesis e mais de 300 figuras revelam os pormenores da forma humana. Crea já viu pessoas de todos os credos emocionadas pela sua beleza.

Na verdade, alguns cientistas sugerem que nós estamos programados para nos deixarmos emocionar pela arte, um princípio que os filósofos se esforçaram por compreender ao longo dos séculos.

“A pintura tocará a alma da pessoa que a contempla, quando as figuras retratadas revelam cada uma a comoção da sua própria alma”, escreveu o artista florentino Leon Battista Alberti em 1435, quase um século antes da conclusão da Capela Sistina. “Nós choramos com aqueles que choram, rimos com aqueles que riem e sofremos com aqueles que sofrem.”

Atualmente, os neurocientistas estudam em laboratório a origem biológica desta resposta, um domínio relativamente jovem denominado neuroestética.

Segundo uma investigação, limitada à imagiologia cerebral, quando observamos corpos em movimento ou percecionamos os movimentos descritos nas pinceladas, o nosso sistema de neurónios-espelho, que está envolvido na comunicação social, na empatia e na imitação, é ativado. Outros estudos revelaram que as regiões do cérebro implicadas no processamento das emoções são usadas quando contemplamos formas de arte, sugerindo a existência de uma relação inata entre a avaliação estética e a emoção.

A ARTE, UMA LINGUAGEM UNIVERSAL

Muito antes do advento das técnicas de neuroimagiologia, Leo Tolstoy alegava que a arte “é uma forma de união entre os homens, que se identificam entre si e se aproximam, quando comungam dos mesmos sentimentos”, um modo de expressão que é muitas vezes sentido, antes de ser compreendido de forma consciente.  Tal como Tolstoy, Crea acredita no poder da arte, enquanto expressão de uma condição humana partilhada, para unir as pessoas.

“Qualquer pessoa pode descobrir algo belo, algo que a emocione”, afirma. “Na minha opinião, as pessoas deviam visitar os Museus do Vaticano, para compreender a arte e a história, independentemente dos seus credos.” Crea diz que os Jardins do Vaticano são um modelo de tolerância, onde plantas dos quatro cantos do mundo florescem e prosperam num único lugar.

O Papa Francisco partilhou sentimentos idênticos no livro que editou em 2015, sob o título La mia idea di Arte, que realça o papel da arte na evangelização. “Os Museus do Vaticano devem ser cada vez mais um espaço de beleza e acolhimento. Eles devem acolher novas formas de arte”, escreveu. “Os Museus do Vaticano devem abrir as suas portas aos cidadãos do mundo como instrumento de diálogo entre culturas e religiões, um instrumento da paz.” Segundo o Papa Francisco, a arte devia ser acessível a todos, alheia à sua formação ou ao seu rendimento.

Movido pelo mesmo espírito, o Vaticano abriu recentemente as portas a pequenos grupos de pessoas, que têm o privilégio de acompanhar Crea na sua habitual rotina diária. “Já vi pessoas que se emocionaram, quando entraram na Capela Sistina, até mesmo soluçando, quando as luzes na Galeria dos Mapas são acendidas”, refere Crea. “Quero levar aos outros as emoções que sinto, sempre que percorro estes espaços. O meu desejo é partilhar as emoções que vivi ao longo de 20 anos com as pessoas que visitam o Vaticano.”

Segundo Crea, a arte aproxima-nos através da partilha de uma cultura, de uma história e da nossa condição humana. “Eu sou apenas um simples guardião, mas, para mim, o encanto da função que me foi confiada assenta na minha capacidade para cuidar e zelar pelas chaves da História.”

Esta entrevista foi conduzida em italiano com o auxílio de um tradutor.
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