O Legado Cultural de Bangkok Ameaçado Pela Urbanização

Descubra quatro lugares ímpares em Bangkok, enquanto ainda é possível.segunda-feira, 9 de julho de 2018

Se está de visita à Cidade dos Anjos, na Tailândia, provavelmente já planeou provar a comida de rua, percorrer a famosa Khao San e deter-se nas muitas bancas de souvenirs e bares que a ladeiam, bem como admirar a arquitetura elaborada do Grande Palace. Mas, se quiser viver uma experiência única nesta cidade vibrante, terá de procurar e ir mais além dos locais turísticos e aventurar-se nas ruelas dos bairros históricos vizinhos, antes que seja demasiado tarde.

“Estamos a perder o coração e a alma de Bangkok”, adverte Michael Biedassek, um habitante da cidade germano-tailandês e fundador da Bangkok Vanguards, uma agência de viagens, que promove o turismo ético.

Novos projetos de desenvolvimento urbano ameaçam os bairros mais antigos e culturalmente ricos da cidade, assim como as suas tradições. E até mesmo as célebres bancas de rua, que colocam a capital tailandesa no mapa turístico, correm o risco de desaparecer, após o anúncio da intenção do governo de acabar com a venda ambulante, numa tentativa de erradicar das ruas da capital tailandesa os vendedores ambulantes.

“A arquitetura, as tradições, a comida, as pessoas e a sua forma de vida dizem-nos muito sobre o ADN de um lugar”, explica Biedassek. “Se tudo se resume ao desenvolvimento das grandes corporações e se o caráter de um lugar é apagado, então tudo se torna substituível. Podemos encontrar essas mesmas grandes corporações noutras cidades dispersas  pelo mundo. E se destroem o ADN de Bangkok, o que nos sobra? Seremos apenas uma cópia de outras cidades internacionais.”

Biedassek e a sua equipa trabalham para proteger o ADN da sua querida Bangkok, organizando visitas guiadas aos bairros locais e percorrendo zonas com um significado histórico, que se distribuem pela cidade. Estas visitas didáticas não só proporcionam aos turistas uma experiência sem precedentes, como também estabelecem pontes entre os visitantes e os habitantes locais, contribuindo para acentuar a relação com a cidade. Para além disso, estas visitas fomentam a economia do turismo e são o veículo perfeito para sensibilizar o público relativamente ao valor histórico e cultural destas comunidades e às circunstâncias atuais que ameaçam a sua integridade.

Enquanto turistas, podemo-nos sentir impotentes, e em certa medida até responsáveis, pelo desenvolvimento de destinos populares. Embora nem sempre tenhamos a oportunidade de falar diretamente com as entidades políticas locais, cabe-nos a nós escolher a forma como usamos o nosso tempo e gastamos o nosso dinheiro. E os nossos euros podem fazer o resto.

Descubra quatro lugares que deve visitar em Bangkok, enquanto ainda é possível.

CHAROEN CHAI

Situado numa das maiores Chinatowns do mundo, este bairro tem uma longa história, que remonta a 1700, sobre o seu papel na economia e gastronomia de Bangkok. Percorra as ruas coloridas, lojas e templos de Charoen Chai para descobrir a arquitetura histórica e assistir aos rituais espirituais chineses, assim como conhecer a cultura tradicional no comércio.

Embora as cenas da rua Charoenkrung Road Soi 23, em Chaoen Chai, sejam um museu em si mesmas, o bairro integra o seu próprio museu e um centro comunitário, que divulgam o valor das suas tradições e cultura, partilhando-as com os visitantes. Uma visita ao museu permitir-lhe-á compreender melhor Charoen Chai, contribuindo, igualmente, para o desenvolvimento da economia local.

Se não quiser ir sozinho, Biedassek e a sua equipa da Bangkok Vanguards propõem-lhe visitas guiadas personalizadas ao bairro. Batizadas Bye Bye Chinatown, um nome que infelizmente alude ao destino de Charoen Chai, estas visitas guiadas aproximam os turistas da cultura, da gastronomia e dos habitantes deste bairro com um vasto e rico património.

NANG LOENG

Conhecido como um oásis gastronómico no centro de Bangkok há mais de 200 anos, Nang Loeng é muito mais do que apenas um mercado. É um bairro que se compõe de uma mistura de culturas asiáticas, sabores, odores e sons, que atraem, de igual forma, habitantes locais e amantes da gastronomia internacional.

Aquilo que começou como um mercado de produtos frescos em 1900 transformou-se num espaço de restauração animado, ladeado por restaurantes e vendedores que preparam receitas transmitidas ao longo de gerações.  Com a construção de uma nova linha de metro, a linha laranja MRT, é provável que lhe sucedam outros projetos de desenvolvimento urbano. Não perca a oportunidade de provar alguns dos melhores caris tailandeses e as kanom, ou sobremesas, que Bangkok tem para oferecer. Visite em seguida o Monumento da Democracia, situado a cerca de cinco a dez minutos a pé a partir de Nang Loeng ou apanhe um táxi em alternativa.

A COMIDA DE RUA

Em abril de 2017, a Administração Metropolitana de Bangkok anunciou a interdição da comida de rua e a intenção de erradicar dos passeios da cidade os vendedores ambulantes até ao fim do ano de 2017. A aplicação da disposição regulamentar da entidade local já se faz sentir nas áreas comerciais do centro da cidade, em torno de Siam Square e de Pratunam.

O governador afirmou que, por enquanto, Yaowarat e Khao San Road iriam ser poupadas, e as bancas de comida de rua ainda não foram erradicadas na totalidade dos espaços da cidade. Não são claras as implicações futuras que decorrem da interdição da venda ambulante da comida de rua para os próprios vendedores, que alimentam não só os habitantes locais, mas também a economia e a indústria do turismo. Por isso, saboreie ao máximo a comida de rua, enquanto pode. Em Yaowarat Road e no mercado de Wang Lang, encontrará algumas das iguarias mais saborosas vendidas na rua.

OS BAIRROS DOS CANAIS

Os klongs, os canais de Bangkok, foram em tempos rotas de transporte e comércio particularmente dinâmicas. Ao longo dos anos, a maioria desses canais foi sendo ocupada para abrir caminho literalmente ao desenvolvimento urbano. Enquanto alguns bairros e os seus canais se mantêm intactos, outros, sobretudo aqueles que se situam ao longo do rio Chao Phraya, foram objeto de projetos de desenvolvimento.

E alguns, como Pom Mahakan, já sucumbiram à voragem do desenvolvimento urbano. Até há pouco tempo, o património desta comunidade, situada num bairro modesto entre o canal Ong Ang e a antiga fortaleza da cidade, integrava o último conjunto de casas de madeira de teca, que existiam na capital tailandesa. Era um museu vivo não oficial, um tributo ao passado de Bangkok, aos seus habitantes e à cultura. Atualmente, as entidades oficiais estão a destruir estas casas ímpares, com um valor histórico único, para erguer uma infraestrutura turística, demolindo de facto a própria arquitetura e a essência da vida local, que atrai, desde há muito, visitantes ao bairro.  

A batalha que opõe a comunidade deste bairro às autoridades locais começou na década de 1990, quando a Administração Metropolitana de Bangkok começou a expropriar terras. Na altura, alguns habitantes aceitaram vender as respetivas casas, que foram demolidas posteriormente, enquanto outros resistiram, tendo sido notificados com ordens judiciais de despejo. Até maio de 2018, os poucos habitantes, que resistiram às manobras de despejo, mantiveram-se firmes na decisão de não abandonar as suas casas e propuseram uma alternativa de compromisso: criar um pequeno parque e preservar as casas e a comunidade como um museu vivo do património local, cuja gestão ficaria a cargo dos próprios habitantes, que se mostraram dispostos a partilhar a sua forma de vida com os visitantes, em vez de serem forçados a abandonar as suas habitações e verem as suas vidas reduzidas a uma meia dúzia de palavras gravadas numa laje.

Mas a decisão da Administração Metropolitana de Bangkok tem sido soberana, privando a cidade de uma parte significativa do seu património e deixando os habitantes de Pom Mahakan abandonados à sua sorte e sem teto.

“Fui convidado para o último jantar com as pessoas da comunidade, antes de assistirem à demolição das suas casas”, explica Biedassek. “O desespero era avassalador. O governo não cumpriu com a promessa de preservar estas estruturas habitacionais, com um valor arquitetónico único e uma história de exceção, os últimos exemplares do género na cidade. Estas casas foram construídas pouco tempo depois da criação de Bangkok e são uma parte da história da cidade que foi completamente apagada do mapa.”

Biedassek e outros habitantes locais interrogam-se se haverá algum lugar que esteja a salvo da destruição.

“Sei que existem planos de desenvolvimento para o meu bairro, situado ao longo dos canais”, diz Biedassek. “Parece que as entidades oficiais têm planos para construir uma rua ou um paredão a acompanhar toda a extensão da fortaleza da cidade. Se este projeto for avante, poderão suceder-se outros tantos projetos sobre as orlas do paredão e que poderão afetar diretamente o bairro em que vivo.”

Biedassek pretende combater esta vaga de desenvolvimento urbano, divulgando o valor destes bairros e do seu património, bem como continuar a levar os turistas a descobrir o ADN de Bangkok, as gentes locais, a sua história e a forma de vida sobre a qual a cidade foi erguida. Para que os viajantes possam sentir como é viver à beira de um canal, Biedassek abriu recentemente o espaço Innspire, a antiga casa de um artista, que ele e a equipa transformaram numa guesthouse.

Biedassek e a equipa dos Bangkok Vanguards continuam a organizar visitas históricas, gastronómicas e culturais aos bairros que se distribuem ao longo dos canais e pelo centro histórico da cidade. Eles trilham caminho por ruelas, com paragens nas bancas de comida de rua para comprar iguarias aos vendedores ambulantes, navegam nos canais, falam com os habitantes locais e até são convidados a entrar numa casa particular para saborear uma refeição. Através desta experiência, os visitantes têm uma oportunidade única de sentir a alma e a dinâmica desta cidade, pelo olhar consciencioso daqueles que a habitam e a acarinham, antes de que seja demasiado tarde.

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