Animais

Carne de Cão Continua à Venda em Festival Controverso

Enquanto grupos de defesa dos animais celebravam os rumores da proibição, surgiram novos vídeos com indícios de que a venda continua.Thursday, November 9, 2017

Por Michael Greshko

Não se conseguiu ainda implementar a proibição da venda de carne de cão num polémico festival chinês que abate milhares de cães por ano: um ultraje para os defensores dos animais.

"É provável que, por alturas do solstício de verão deste ano, não exista ainda uma proibição clara da venda de carne de cão na cidade de Yulin", disse em comunicado Irene Feng, diretora para a defesa dos gatos e dos cães da Animals Asia. "Acreditamos, no entanto, que o governo não tolerará mais esta situação e que quer que se deixe de associar à cidade Yulin esta prática, ainda que minoritária, de comer carne de cão".

Em maio, os grupos de defesa de animais Humane Society International e Duo Duo Animal Welfare Project relataram que os funcionários do governo em Yulin consideravam efetuar a proibição de venda de carne de cão no Festival de Lychee e no Festival de Carne de Cão, que ocorrem na cidade.

Fundado em 2010, o festival tornou-se internacionalmente desprezado da noite para o dia. Grupos de defesa dos animais na China e em todo o mundo condenam o evento que envolve o abate de milhares de cães e gatos, muitos deles alegadamente abandonados, ou de animais de estimação roubados.

De acordo com estes grupos, a proibição da venda de carne canina em Yulin devereria começar a vigorar a partir de 15 de junho, uma semana antes da abertura do festival a 21 de junho. Quem violasse a proibição enfrentaria o risco de prisão e de multas até 100 000 yuan (cerca de 13 000 euros). (A National Geographic não conseguiu confirmar de forma independente as alegações dos grupos).

No entanto, as fotografias e os vídeos que foram recentemente obtidos por defensores dos animais sugerem que continua disponível em Yulin a carne de cão.

Um dos vídeos, filmado por Marc Ching, do grupo dos Estados Unidos Animal Hope and Wellness Foundation, documenta uma caminhada por Nanqiao, um dos mercados de carne canina de Yulin.

Este vídeo, emitido em direto no Facebook, foi filmado no dia 16 de junho, e, à medida que Ching atravessa o mercado, a câmara percorre as bancas e mostra-as cheias de carcaças de cães. Sinaléticas às cores anunciam "carne fresca de cães negros" e "pugs criados localmente", no que supostamente teria sido o segundo dia da alegada proibição, como Ching faz notar na filmagem.

As cenas adicionais fornecidas à National Geographic pela Animal Hope and Wellness Foundation mostram uma scooter carregada de cães vivos apertados em jaulas. Nas filmagens, também a 16 de junho, Ching diz que a scooter estava a caminho de Yulin.

"O pior de tudo isto é que, numa situação normal, todos estariam a lutar e exercer pressão sobre o governo para tomar medidas. Este ano, não houve nada disso porque todos achavam que já não existia", diz Ching no ví﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽“cabadoo ambienteos videos sugerem que as vendas continuam.ídeo do Facebook. "Mesmo quando fomos ao Congresso falar com legisladores sobre o festival [e] o H.Res. 30, muitos deles diziam: "Porque é que insistem em falar deste assunto se o festival já acabou?"”

H.Res. 30, um projeto-lei apresentado na Câmara dos Deputados dos EUA pelo deputado Alcee Hastings (D-FL), serviria como denúncia oficial dos EUA do festival Yulin. O projeto-lei designa o festival como "um espetáculo de crueldade animal extrema" e "exorta o Congresso Nacional da População da China a promulgar uma lei contra a crueldade animal com disposições que proíbam o comércio de carne de cão".

A PROIBIÇÃO QUE NÃO ACONTECEU

Peter Li, especialista em política da China na Humane Society International, disse à National Geographic, por e-mail que, depois de saber da proibição, a Humane Society International e o Duo Duo Animal Welfare Project receberam de forma continuada a confirmação de que a proibição ia ser aplicada. No entanto, com base em fontes locais que conversaram com vendedores de carne de cão, refere que a proibição foi recentemente diluída.

De acordo com Li, foi tudo por água a baixo a 13 de junho, a apenas dois dias antes do início programado da proibição, após uma reunião entre alguns comerciantes de carne de cão e cinco departamentos do governo de Yulin.

"Nesta reunião, os vendedores ameaçaram o governo e protestaram contra a proibição, argumentando: "’Se pararmos as vendas de carne de cão durante sete dias, serão vocês a alimentarem as nossas famílias?’", diz Li. "Os vendedores exigiram uma compensação pela perda do negócio".

Em resposta, Li diz que o governo de Yulin fez uma grande concessão aos comerciantes. Em vez de parar as vendas de carne canina completamente, o governo limitou-se a sugerir que os vendedores não expusessem a carne de cão nas suas bancas durante sete dias. Em comentários subsequentes, a 19 de junho, Li diz que os comerciantes agora podem vender, mas não podem ter à mostra mais de dois cães mortos em cada banca.

"É um triste desenvolvimento ver as autoridades de Yulin a cederem aos interesses dos comerciantes de carne de cão", acrescenta. "Esta mudança de vontades enviou um sinal péssimo aos vendedores".

Li afirma também que as autoridades locais trabalham no sentido de evitarem a exibição pública de carne de cão. Li forneceu um vídeo à National Geographic que evidencia um reforço policial no mercado de Nanqiao a 16 de junho, no mesmo dia (hora local) do vídeo ao vivo de Marc Ching no Facebook.

Apesar de os grupos de defesa dos animais concordarem que a proibição ainda não se materializou, nem todos concordam com a exatidão do relato de Li. Valarie Ianniello, diretora executiva da Animal Hope and Wellness Foundation, contesta as afirmações de Li a respeito da reunião a 13 de junho dizendo que "claramente, não é verdade" que tenham existido os anteriores relatos de uma proibição. (Li defende as suas fontes de ambos os relatos).

"Parece que está a piorar e não a melhorar", diz ela e observa que o preço relativamente alto da carne de cão — perto de 4€ por quilograma, de acordo com Ianniello — cria um forte incentivo financeiro para que os comerciantes continuem.

"Parece que está a piorar e não a melhorar", diz Ianniello, em parte por causa do incentivo financeiro que se mantém. Afirma que a carne de cão, mesmo sem tempero, chega a preços relativamente altos - perto de 4€ por quilograma.

Relatos nos meios de comunicação chineses citados pela Radio Free Asia e pela Animals Asia referem que o governo de Yulin nega a existência da proibição, embora a Radio Free Asia dê conta de que as autoridades locais alertaram os comerciantes de carne de cão para não exibirem publicamente a mercadoria.

LONGE DE SER ÚNICO

Os defensores dos animais enfatizam que, apesar de Yulin ser um dos exemplos mais claros da crueldade que é o comércio de carne de cão, está longe de ser o único.

Embora a opinião pública na China se tenha virado contra a ingestão de carne de cão — especialmente entre os jovens —, cerca de 10 milhões de cães e quatro milhões de gatos são ainda abatidos todos os anos na China para consumo humano, de acordo com as estimativas da Humane Society International.

"... A atenção que internacionalmente se dá a Yulin por uma semana do ano está-se a tornar em algo que nos afasta do principal problema inerente ao comércio de carne de cão, que são as ações que se sucedem diariamente e em todo o país em torno do mesmo", disse Feng, diretor para a defesa dos gatos e cães da Animals Asia. "Este é o verdadeiro problema e requer uma abordagem consistente e holística — não pode ser resolvido numa semana".

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