Animais

Veja: Animal Misterioso da Amazónia Visto Pela Primeira Vez em 80 Anos

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Sarah Gibbens

Se há alguém que poderia encontrar o esquivo macaco com pernas douradas, esse alguém é Laura Marsh, diretora do Instituto de Conservação Global e uma das principais especialistas mundiais de saquis, uma espécie de macacos do Novo Mundo que pode ser encontrada em toda a Amazónia e em outras partes da América do Sul.

Em 2014, Marsh identificou cinco novas espécies de saqui, também conhecidos como parauacus, que vivem anonimamente na região. No início do verão, partiu em busca de uma espécie em especial, o parauacu-de-Vanzolini, batizado em homenagem ao zoologista Paulo Vanzolini (o nome científico deste macaco é Pithecia vanzolinii). Não era visto vivo há 80 anos.

Para encontrar este macaco desparecido, Marsh e uma equipa de cientistas, fotógrafos, conservacionistas e guias locais levou a cabo uma expedição de quatro meses a uma parte pouco explorada da Amazónia ocidental. A equipa embarcou num pequeno barco-casa flutuante de dois andares e seguiu o Rio Eiru acima, até perto da fronteira do Brasil com o Peru.

O macaco distingue-se pelos braços e pernas douradas e pelo cabelo desgrenhado.

A equipa pretendia documentar e explorar a paisagem biodiversa, mas tinha uma missão principal em mente — encontrar o parauacu-de-Vanzolini. Quando Marsh viu o macaco pela primeira vez depois de anos de expetativa, vieram-lhe lágrimas aos olhos.

“Foi fantástico”, disse Marsh numa entrevista telefónica à National Geographic. “Eu estava a tremer e tão entusiasmada que quase não consegui tirar uma fotografia.”

Marsh passou vários anos a investigar a estrutura taxonómica do grupo de saquis Pithechia, mas, até agora, não tinha nenhuma prova fotográfica do macaco, que, segundo a investigadora, se distingue das outras espécies pela sua aparência física única. O primeiro registo de parauacus-de-Vanzolini remonta a 1936, ano em que o naturalista equatoriano Alfonso Ollala fez uma expedição naquela zona da Amazónia. Estes macacos foram avistados de novo em 1956 durante uma expedição que também recolheu espécimes mortos.

A própria região está pouco estudada. Nas profundezas da Amazónia, onde as investigações de animais são difíceis e dispendiosas.

Nesta expedição, a autodenominada equipa do Barco-Casa da Amazónia (Houseboat Amazon) trabalhou aprofundadamente com os habitantes locais para poder navegar em toda a região e encontrar os macacos. A jornalista Christina Selby acompanhou a equipa durante a expedição ao longo do rio e escreveu sobre a viagem para a publicação ambiental bioGraphic e para a Mongabay. Ao quarto dia, escreveu que o barco, vogando pelo rio, viu um macaco facilmente identificável a correr de árvore em árvore.

Os parauacus-de-Vanzolini não têm as caudas preênseis das outras espécies de macaco que lhes permitem saltar de árvore em árvore. De acordo com a descrição de Marsh, os saquis assemelham-se mais a gatos a correr com as quatro patas por ramos delgados das árvores. Perto das aldeias onde são alvo de caça, espreitam timidamente os visitantes debaixo do seu pelo de esfregona, mas, em regiões mais remotas, aproximam-se com curiosidade das pessoas que navegam rio abaixo. Os machos da espécie já foram vistos a fugir das mães e dos bebés quando se sentem ameaçados, esperando que os potenciais predadores os sigam e que os outros saquis consigam fugir.

A equipa de investigação descobriu que os parauacus-de-Vanzolini vivem nas margens da bacia hidrográfica. No final do estudo, Marsh irá determinar qual deverá ser o estatuto da população destes macacos a anunciar pela União Internacional de Conservação da Natureza. A União regista as populações de animais e dá a conhecer as ameaças que as espécies em perigo enfrentam.

Marsh indica que provavelmente recomendará que os parauacus-de Vanzolini sejam classificados como ameaçados, mas tudo depende da evolução da caça na região. A Equipa do Barco-Casa da Amazónia ficou muito contente por ter encontrado o macaco, acrescenta Marsh, mas depois da preparação e da expetativa criada, ficou surpreendida por tê-lo encontrado tão rapidamente.

“A ideia inicial era partir em busca de uma espécie perdida”, conta, mas este objetivo tornou-se uma pequena parte do quadro geral que observaram durante a expedição.

“Nunca tinha visto pessoas constantemente com armas”, afirma Marsh. “A caçar e a pescar em todos os cantos e esquinas. As aves de grande porte eram raras. As aves da floresta tinham desaparecido... A Amazónia não é homogénea. O nosso pequeno canto tem animais especiais e espécies novas.”

O relato de Marsh encontra-se em linha com um facto indesmentível — a construção na Amazónia está a crescer rapidamente. Os projetos de construção e os esforços de repovoamento que visam aliviar a pressão sobre as cidades deram origem a um crescimento muito acentuado. De acordo com os dados dos últimos censos do Brasil, realizados em 2010, nos últimos 10 anos, 10 cidades da Amazónia cresceram para o dobro do tamanho. Embora o país tenha implementado medidas para restringir a atividade madeireira, a aplicação da legislação não é fácil. A floresta tropical da Amazónia contém 10 por cento da biodiversidade conhecida no mundo, o que faz com a sua proteção seja uma prioridade para os conservacionistas.

No final deste mês, a descoberta deste macaco será publicada na revista Oryx. Segundo Marsh, o principal fator que distingue os parauacus-de-Vanzolini das outras espécies de saqui é a aparência única dos primeiros, mas é preciso desenvolver mais trabalho de investigação para compreender as diferenças genéticas o animal.

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