Animais

Carraças que se Alimentavam de Dinossauros Encontradas Presas em Âmbar

Pequenos fósseis preservados em resina do período Cretáceo incluem um parasita que estava ingurgitado quando morreu.Wednesday, January 17, 2018

Por John Pickrell

Parasitas repletos de sangue presos em âmbar têm agitado a imaginação desde os anos 90, quando os dinossauros ressuscitados de Parque Jurássico saíram dos romances de Michael Crichton e entraram no grande ecrã. Agora, os cientistas dizem que encontraram algo legítimo: pedaços de âmbar birmanês com carraças no seu interior que sugaram o sangue de dinossauros com penas há cerca de 99 milhões de anos.

Um destes parasitas está preso numa possível pena de dinossauro encontrada envolta num pedaço de âmbar. Outro parasita foi encontrado noutro pedaço de âmbar separado na mesma região e tinha engolido um volume oito vezes superior ao seu tamanho original, sugerido que tinha ficado ingurgitado com sangue quando morreu.

A plumagem preservada pertenceu, provavelmente, a um dinossauro com penas ou a um tipo de ave primitiva, conhecida como "enantiornithine". Estas primeiras aves, abundantes na altura, ainda tinham pequenos dentes nos seus bicos e extinguiram-se com os dinossauros nonavianos há 66 milhões de anos. (Ver asas de ave rara da época dos dinossauros encontradas em âmbar.)

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“Não conseguimos localizar o hospedeiro exato”, afirma o coautor do estudo, Ricardo Pérez-de la Fuente, um paleoentomologista do Museu de História de Natural da Universidade de Oxford, Reino Unido. “Mas podemos excluir as aves modernas, uma vez que só apareceram cerca de 25 milhões de anos depois da idade do âmbar birmanês.”

A descoberta, comunicada esta semana na publicação Nature Communications, fornece a primeira prova direta de que os animais no passado também apresentavam parasitas como carraças e piolhos. Os pequenos terrores também teriam assolado todos os animais com penas nas florestas do período Cretáceo de Myanmar (antiga Birmânia) que produziam a resina de árvore fossilizada.

“A maioria dos animais selvagens está repleta de parasitas e parece que o nicho sugador de sangue teria estado ocupado no início da evolução dos vertebrados terrestres", afirma Jingmai O'Connor, professora no Instituto de Paleontologia de Animais Vertebrados e Paleoantropologia em Pequim, China. O'Connor acrescenta que ela e os seus colegas procuraram a existência de parasitas nos inúmeros fósseis de dinossauros com penas e aves no nordeste da China mas ainda não encontraram nada.

"Apesar da excelente preservação das penas, a quantidade de detalhe é muito inferior quando comparada com as recentes descobertas na Birmânia", acrescenta.

Ryan McKellar, um especialista em fósseis em âmbar do Royal Saskatchewan Museum no Canadá, concorda que as carraças constituem provas convincentes deste tipo de relação ecológica no período Cretáceo. "Ver uma carraça preservada no mesmo fluxo de resina que uma pena fornece um exemplo concreto da relação ecológica, ao passo que a maioria das provas anteriores tem sido especulativa."

MOLÉCULAS FRÁGEIS

O Vale de Hukawng na ponta de Myanmar (antiga Birmânia) produziu uma série de notáveis fósseis em âmbar nos últimos anos, incluindo lagartos, flores, insetos, asas de aves — e talvez o mais entusiasmante, a cauda com penas de um pequeno dinossauro e os restos mortais de uma cria da ave enantiornithine.

As carraças mais antigas conhecidas antes desta descoberta também foram encontradas em âmbar birmanês com a mesma idade. Mas estudos computacionais do ADN da carraça moderna com recurso a um método conhecido por "datação de relógio molecular" sugerem que o grupo surgiu inicialmente há cerca de 200 a 300 milhões de anos.

As cinco carraças fossilizadas que os investigadores examinaram para este estudo estavam em quatro pedaços de âmbar doados por colecionadores privados ao Museu Natural de História Norte-Americana em Nova Iorque e ao Museu de História Natural em Pittsburgh.

Uma das carraças é descrita como pertencendo a uma nova espécie, Deinocroton draculi. Estava extremamente ingurgitada com sangue quando morreu. Infelizmente, para os entusiastas do Parque Jurássico, as hipóteses de extrair ADN de dinossauro viável são praticamente inexistentes. A carraça estava preservada junto à superfície do âmbar e não estava totalmente envolta em resina de árvore, pelo que não está completa.

Os investigadores procuraram as assinaturas químicas do ferro em quaisquer vestígios de sangue preservados que possam ter permanecido mas não tiveram sucesso, uma vez que o ferro é também comum em contaminantes minerais nestes fósseis.

O ADN é uma molécula extremamente frágil e é muito improvável que persista em fósseis tão antigos, afirma Pérez de la Fuente. Este último acrescenta que as condições da fossilização em âmbar, como a desidratação extrema e grandes mudanças de temperatura, são terríveis para a preservação do ADN.

Em vez disso, os investigadores estão entusiasmados com estas amostras porque exibem uma criatura parasita adicional. Além das carraças, a equipa encontrou pelos microscópicos de larvas de Anthrenus verbasci (escaravelhos de alcatifa), criaturas que são normalmente encontradas nos ninhos de aves atualmente.

"Uma característica especial do âmbar é capacidade que a resina tem e capturar pequenos pedaços do ambiente de forma quase inalterada", afirma Pérez de la Fuente. Com base no conteúdo do âmbar, a equipa defende que os fósseis apresentam provas concretas do comportamento de nidificação nos animais hospedeiros.

"As nossas carraças, que exibem pelos de larvas de escaravelhos, tinham visitado os hospedeiros com penas antes de ficarem presos em resina."

Segundo McKellar, os resultados "demonstram o que pode ser descoberto a partir de espécimes preservados com o nível de detalhe que o âmbar fornece.”

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