Animais

Foram Resgatados os Últimos Ursos Dançarinos do Nepal

Agredidos e treinados até à submissão, estes ursos-preguiça terão, provavelmente, atuado durante mais de uma década. Quarta-feira, 3 Janeiro

Por Rachael Bale

No Nepal, a antiga tradição dos ursos dançarinos, desprezada pelos seus métodos de treino bárbaros, está, finalmente, a desaparecer.

As autoridades nepalesas, com o auxílio do Instituto Jane Goodall Nepal e da organização sem fins lucrativos sediada em Londres World Animal Protection, retiraram recentemente dois ursos-preguiça, chamados Rangeela e Sridevi, aos seus tratadores, Mohammad Salman e Mohammad Momtaz, membros da comunidade seminómada Nat, que subsiste, tradicionalmente, com atuações de rua.

“Ter ajudado no resgate dos últimos ursos dançarinos do Nepal conhecidos foi surreal”, diz Neil D’Cruze, conselheiro mundial para a vida selvagem na World Animal Protection.

“Sabíamos que Rangeela e Sridevi estavam em sofrimento no cativeiro, desde foram capturados no seu habitat e os seus focinhos perfurados com ferros incandescentes.”

Segundo a World Animal Protection, treinar ursos de várias espécies para dançar perante uma plateia era uma atividade popular na Idade Média por toda a Europa e Ásia, tendo-se mantido no leste da Europa e na Ásia até finais do século XX.

Graças aos esforços concertados de organizações de defesa dos animais para resgatar estes ursos, e ajudar os seus proprietários a fazer a transição para uma nova forma de sustento, esta prática foi caindo em desuso.

Crê-se que países como a Albânia, Bulgária, Grécia, Índia, Sérvia, Turquia e, agora, o Nepal já não tenham ursos dançarinos, embora a prática ainda persista no Paquistão.

“A triste realidade é que há mais animais em sofrimento por todo o mundo, usados como forma de entretenimento”, diz Manoj Gautam, diretor executivo do Instituto Jane Goodall Nepal. “Contudo, pelo menos para este dois ursos-preguiça, prevê-se, finalmente, um final feliz.”

Várias organizações aplaudiram o resgate. “A importância deste resgate, bem como de qualquer outro resgate de ursos em 2017, reside no facto de estas práticas cruéis contra animais, camufladas pelo verniz da cultura, já não serem aceites pela sociedade contemporânea”, afirma Claire LaFrance, responsável máxima pela comunicação da organização sem fins lucrativos Four Paws U.S., organização essa que também colaborou na erradicação da prática dos ursos dançarinos em diversos países. “Países como a Índia, o Nepal e o Vietname, que lutam constantemente para se modernizarem, e para serem levados a sério numa escala global, têm de acabar com estas práticas retrógradas, que exploram os animais com vista à obtenção de lucro.”

TREINAR OS URSOS

Os ursos dançarinos no Nepal são, frequentemente, vítimas de caça furtiva, sendo depois vendidos no mercado negro. Em alguns casos, os animais são capturados muitos jovens, e as suas progenitoras mortas pela bílis medicinal nas suas vesículas biliares ou pelas suas patas, que são servidas numa dispendiosa sopa ou como um remédio tradicional.

Geralmente, a cria é subjugada e treinada com recurso a métodos cruéis. O seu focinho é perfurado e uma corda ou argola é introduzida no orifício para a controlar. Por vezes, os caninos são extraídos ou limados, e as garras removidas, para evitar que o animal fira o seu proprietário.

Sabe-se que os ursos-preguiça são agressivos, afirma D'Cruze. Como tal, fazer deles animais submissos e obedientes é um processo traumático que, com frequência, implica agredir o animal com um pau.

“Há um uso constante do medo, da dor e da agressão contra estes animais”, diz Gautam.

Uma vez treinado, o urso é levado para as ruas, onde irá atuar a troco de dinheiro.

“Os ursos dançarinos, a par dos ursos usados como atrações turísticas, para selfies, ou próximo de restaurantes, sofrem horrores”, diz LaFrance da Four Paws. “No decurso do nosso trabalho com animais de grande porte mantidos em cativeiro, apercebemo-nos de que o cidadão comum, regra geral, não tem competência ou conhecimento para fornecer um lar adequado à espécie a um animal tão complexo como um urso.”

O RESGATE

D’Cruze e Gautam seguiram estes ursos e os seus proprietários durante mais de um ano, aguardando o momento ideal para organizar um resgate. O plano consistia em abordar os proprietários, convencendo-os a abdicar dos animais. Mas quando Gautam e D’Cruze chegaram à última localização conhecida dos ursos, numa remota povoação fronteiriça, os animais já tinham desaparecido.

“Acabámos por ter sorte”, diz Gautam. “Graças às novas tecnologias, uma equipa da polícia no terreno conseguiu localizar os números de telefone dos proprietários dos ursos.”

A polícia confiscou os ursos na cidade de Iharbari, no sudeste do Nepal, e capturou quatro indivíduos, transportando-os, a todos, para a esquadra distrital. Não haverá coimas nem penas de prisão para os indivíduos, mas, segundo Gautam, que presenciou a apreensão e a sua conclusão, os proprietários dos ursos foram severamente repreendidos.

Os ursos estavam traumatizados, mas encontravam-se em razoáveis condições de saúde, não obstante o terem sido alimentados durante anos, única e exclusivamente, com leite e arroz.

“Os comportamentos estereotipados, que denotavam o trauma psicológico destes animais, eram bastante evidentes. Eles chuchavam nas patas, saltavam para cima e para baixo nos bancos”, recorda Gautam.

Os seus dentes tinham sido extraídos, o que é bastante comum nos ursos dançarinos, mas as suas garras estavam intactas.

Os ursos aguardam agora transferência para um santuário, possivelmente, na Índia. Entretanto, foram acolhidos por um parque nacional no Nepal, onde dois dos seus antigos proprietários foram contratados temporariamente para ajudar a cuidar dos animais.

Parte do trabalho de erradicar a prática dos ursos dançarinos consiste em dar novas oportunidades económicas aos indivíduos que gerem os circos — é essa a razão pela qual foram dados empregos temporários aos dois homens.

Os antigos donos “têm noção de que não havia grande futuro na sua profissão”, afirma Gautam.

Segundo Gautam, os homens também assinaram um documento legal que declara que, se voltarem a ser encontrados na posse de um urso, o castigo será muito mais pesado.

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