Animais

Esta é a Idade em Que os Cachorros São Mais Adoráveis

Os cachorros atingem o auge da fofura entre as seis e as oito semanas de vida, um facto que pode trazer uma nova perspetiva sobre a evolução dos cães ao lado dos seres humanos.Friday, May 25

Por Elaina Zachos
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Existem, aproximadamente, cerca de mil milhões de cães no planeta. Embora cães e humanos coexistam lado a lado há dezenas de milhares de anos, os especialistas afirmam que cerca de 85% dos cães existentes no mundo são selvagens. Não tendo sido domesticados, estes caninos vagueiam, ainda assim, por ruas e aldeias, sobrevivendo no habitat próprio dos humanos.

Quando os cachorros atingem os dois ou três meses de vida, as progenitoras abandonam-nos por um sem-número de razões. Sem uma progenitora que olhe por eles, a mortalidade de cachorros com idades inferiores a um ano dispara para cerca de 90%. Por isso, apenas 10% dos cachorros órfãos e sem um teto sobrevivem.

Desprotegidos, como podem estes cachorros abandonados sobreviver? A ciência defende que, quando um cachorro é muito fofo, facilmente consegue seduzir uma pessoa e levá-la a adotá-lo no seio familiar, pondo assim fim à sua situação precária. Um novo estudo publicado na revista Anthrozoös analisa, em detalhe, estas considerações, que poderão trazer uma nova perspetiva sobre a forma como os cães evoluíram ao lado dos humanos.

A IMAGEM PERFEITA DE UM CACHORRO

Para o estudo, os investigadores Clive Wynne no estado do Arizona, Nadine Chersini da Universidade de Utrecht e Nathan Hall da Universidade Técnica do Texas pediram a 51 estudantes universitários que classificassem o nível de atração de cachorros de diferentes idades, com base nas respetivas fotografias. Os cachorros, cujas idades se situavam entre o nascimento e os sete meses de vida, abrangiam três raças de cães populares, incluindo terriers Jack Russell, cane corsos e pastores alemães brancos.

Foi pedido aos participantes que avaliassem o nível de atração dos cachorros, sem atender à sua fofura, porque “queríamos manter a base de avaliação tão neutra quanto possível”, diz Wynne à National Geographic. “Não queríamos influenciar as pessoas relativamente a características infantis.”

Os investigadores esperavam que as pessoas sentissem maior apelo pelos cachorros com dois ou três meses de vida, pois esta é idade do desmame, altura em que são abandonados pelas progenitoras e precisam de alguém que os tome a seu cuidado para sobreviver. E estavam certos.

Os cachorros atingem o seu ponto alto em idades diferentes, conforme as raças, mas todos eles foram classificados como adoráveis entre as seis e oito semanas. Os terriers Jack Russell atingiram o ponto alto às 7,7 semanas, os cane corsos às 6,3 semanas e os pastores alemães brancos às 8,3 semanas. Os cachorros das três raças revelaram ainda maior apelo, quando atingiram as 30 semanas de idade, sem que se perceba bem qual a razão.

Harold Herzog, um especialista em interações entre homens e animais da Universidade da Carolina ocidental, escreveu sobre o estudo no seu blogue de investigação. Herzog defende que o estudo é “brilhante”, mas que pode ser aperfeiçoado.

Cachorros para adoção brincam no pátio da família de acolhimento em Washington, D.C.

“Creio que seria válido se o estudo fosse replicado usando fotografias dos mesmos cães nas diferentes idades de crescimento durante aquele período crítico”, afirma Herzog, que está convencido que uma nova réplica do estudo permitiria corroborar os resultados obtidos anteriormente. Wynne afirma que algumas das fotografias são dos mesmos cães em idades diferentes, mas a maioria é, efetivamente, de cães diferentes.

Herzog acrescenta que seria relevante se o novo estudo incluísse lobos para efeitos de controlo. Por contraste com os cães, ambos os lobos progenitores cuidam da cria até que esta atinja os dois anos de vida, pelo que seria provável que esta espécie não apresentasse “a mesma trajetória de fofura”.

Wynne afirma que, a continuar o estudo, seria interessante se os investigadores mostrassem aos participantes 20 a 30 segundos de vídeos de cachorros, para ver se existe algo nos seus movimentos que atraia as pessoas. O estudo foi inspirado numa viagem de investigação que Wynne fez às Bahamas, onde existe um número incontável de cães vadios.

“Se isto tem algum significado nas vidas dos cães e das pessoas, então seria efetivamente a forma como o animal se movimenta e comporta aquilo que atrairía as pessoas”, afirma Wynne.

UM MUNDO DE CÃO

Uma vez que os cachorros recém-abandonados competem entre si pela conquista de um coração humano, a evolução diz-nos que eles serão mais adoráveis entre as seis e as onze semanas, ou seja, na altura em que são desmamados e entregues à sua sorte pelas progenitoras.

“O que Clive defende é que um cachorro, a menos que seja fofo, está condenado a uma morte prematura”, afirma Herzog.

Há algumas características que os humanos consideram particularmente adoráveis e que são transversais às espécies: olhos grandes, que fixam de frente, membros moles e andar desengonçado, e um corpo de formas arredondadas. Os humanos também se deixam seduzir por animais com cabeças grandes relativamente a corpos de menor dimensão e esta característica remonta aos primórdios da evolução.

Conhecidas por kinderschema, estas qualidades também são identificadas nos bebés humanos e são necessárias para assegurar a sua sobrevivência. As características ativam a zona do cérebro responsável pelo processo decisivo que leva o ser humano a proteger e cuidar do seu bebé. Nesse momento, o cérebro liberta dopamina a partir de uma zona associada ao prazer. Com estas duas reações, o cérebro do ser humano leva-o a querer proteger o seu bebé e recompensa-o por isso. Sob a proteção do seu progenitor, o bebé aumenta exponencialmente as suas hipóteses de sobrevivência.

Embora o estudo tenha sido feito em ambiente laboratorial, com recurso a fotografias, e não no mundo real com cães de carne e osso, Herzog acredita que os resultados seriam idênticos num cenário real.  Em 1998, os investigadores Alan Fridlund e Melissa MacDonald da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, percorreram o campus universitário com um golden retriever, chamado Goldie, para observar as reações que o animal suscitaria nos estudantes. Começaram por visitar o espaço quando o cachorro tinha dez semanas de vida e assim continuaram nos cinco meses seguintes. No início, a adorável Goldie atraía inúmeros estudantes, mas, quando atingiu as 33 semanas de vida, a sua fofura atingiu o ponto máximo e ela começou a receber menos afeto.

VEJA ESTAS FOTOGRAFIAS DE HÁ MAIS DE UM SÉCULO COM CÃES A PUXAR TRENÓS

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