Porque é que os Machos do Golfinho-Roaz "Dão as Mãos"?

Um novo estudo revela que os golfinhos-roazes, que habitam as águas australianas, chamam-se pelo nome e tocam-se frequentemente para manterem as alianças com outros machos.sexta-feira, 22 de junho de 2018

Veja golfinhos de "mãos dadas"
Veja golfinhos de "mãos dadas"

Já alguma vez reparou que os melhores amigos tendem a falar de forma parecida?

Sejam chapins ou chimpanzés, os investigadores descobriram que inúmeras espécies ajustam o seu chamamento, para que se assemelhe ao dos seus companheiros mais chegados.

No entanto, e segundo um estudo publicado a 7 de junho na revista Current Biology, o macho do golfinho-roaz da Baía do Tubarão, na Austrália Ocidental, tende a fazer o oposto.

Décadas de investigação na região demonstraram que os machos, sem qualquer relação de parentesco, associam-se em grupos de dois ou três elementos. Isto aumenta as hipóteses de encontrarem e acasalarem com as fêmeas que integram os grupos familiares. Para além disso, muitos destes pares e trios de machos podem, por vezes, formar alianças mais amplas, de segundo nível, algumas das quais podem perpetuar-se até ao fim das suas vidas.

Cada macho tem o seu próprio assobio, à semelhança dos nomes para os humanos. E, embora um macho possa ter o mesmo nome que outro fora do seu grupo, ele nunca partilha o mesmo assobio com outro macho, seu aliado.

"Estes registos de identificação vocal ou nomes permitem que os animais desenvolvam relações sociais complexas”, afirma a coordenadora do estudo, Stephanie King, uma investigadora da Universidade da Austrália Ocidental e da National Geographic Explorer.

Estas relações entre golfinhos são tão próximas, que os machos passam grande parte do seu tempo a acariciar-se entre si, com as barbatanas peitorais. Imagens obtidas a partir de um drone revelaram que os golfinhos podem nadar, apoiando as respetivas barbatanas uns sobre os outros, como se dessem as mãos.

O QUE ENCERRA UM NOME?

Os cientistas descobriram que tanto o macho, como a fêmea do golfinho-roaz têm assobios próprios, de certa forma semelhantes aos nomes, desde a década de 1960.

Mas nunca foi clara qual a importância desses chamamentos, até que King decidiu reproduzir os assobios dirigidos aos próprios animais.

Num estudo de 2013, King demonstrou que os golfinhos reagem às gravações dos seus próprios assobios, mas não aos assobios de outros golfinhos, à semelhança da chamada de atenção a um aluno, em plena sala de aula.

A investigadora descobriu também que os golfinhos têm a capacidade de replicar os assobios uns dos outros, aparentemente para chamar ou dirigir-se ao outro.

O novo estudo de King assenta em descobertas anteriores, demonstrando que os nomes parecem ter uma importância crucial para construir e manter os laços sociais, algo que, muito provavelmente, não seria possível, se cada golfinho tivesse o mesmo nome.

Tendo em conta que podem existir até 14 machos nestas alianças de segundo nível, King afirma que os golfinhos têm de acompanhar, em permanência, as várias relações.

“Temos de saber quem são os nossos amigos e os nossos rivais, e quem sãos os amigos dos nossos rivais”, explica a investigadora.

LINGUAGEM CORPORAL

Os machos reforçam os seus laços através do toque e da prática de atos surpreendentemente sincronizados, durante os quais nadam a grande velocidade e vêm à superfície para respirar em simultâneo, à semelhança de uma unidade militar que marcha em uníssono.

“No ser humano, a sincronia também foi associada à secreção de oxitocina, que promove sentimentos de confiança e cooperação”, afirma King.

É provável que estes comportamentos desencadeiem respostas idênticas nos golfinhos, acrescentando, contudo, uma nova peça ao quebra-cabeças sobre a forma como os animais desenvolvem, surpreendentemente, redes sociais complexas.

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