Animais

Veja como É Ser o Almoço de um Abutre

Um fotógrafo mostra-nos o quão horrivelmente incríveis os abutres podem ser.segunda-feira, 18 de junho de 2018

Por Charlie Hamilton James
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Charlie Hamilton James venceu o Prémio de Fotojornalista de Vida Selvagem: História Fotográfica pelo seu trabalho sobre os abutres. Este artigo foi publicado, originalmente, a 11 de janeiro de 2016.

Adoro abutres, e não apenas porque eles são carismáticos, inteligentes e fisiologicamente incríveis. Não, eu também adoro abutres de uma forma bastante doentia. Aquilo que eles fazem quando se alimentam é repugnante, mas — sejamos francos — é um espetáculo fascinante.

Os abutres são o anti-herói por excelência: são feios, agressivos e têm hábitos alimentares particularmente repulsivos. Mas são também uma das famílias de aves em mais rápido declínio de sempre — e é por isso que a National Geographic lhes dedicou um artigo na edição de janeiro de 2016.

Um grifo-pedrês reclama para si a carcaça de uma zebra, no Parque Nacional do Serengueti, na Tanzânia, enquanto outros grifos-pedreses e grifos-africanos se preparam para participar no festim. Os abutres conseguem limpar uma carcaça em poucos minutos.

Os abutres são o desastre ambiental esquecido por todos. Os leões, elefantes e rinocerontes encontram-se seriamente ameaçados — mas a ameaça que paira sobre estas aves é, seguramente, maior. Na África do Sul, por exemplo, seis das oito espécies de abutres do país estão em perigo.

Os abutres não têm o aspeto e o encanto de outras criaturas, mas o papel que desempenham nos seus ecossistemas é de crucial importância. Nas planícies do Masai Mara, por exemplo, os abutres consomem mais animais mortos que todos os predadores e outros necrófagos juntos.

Passei muito tempo a fotografar e a filmar abutres, e uma coisa que aprendi é que eles não gostam de câmaras. Os abutres são aves inteligentes e tímidas, que estão sempre em alerta para tudo o que lhes pareça suspeito. Sabia que fotografá-los de perto não iria ser uma tarefa fácil.

No Serengueti, um chacal-dourado impõe-se perante um grifo-africano imaturo que se intrometeu na sua refeição de gnu morto.

Eis como conseguimos as fotografias para o artigo da revista de janeiro.

Eu e o meu amigo Simon Thomsett encontrávamo-nos nas planícies de África Oriental com o motorista Basili Peters, perito em vida selvagem. Tínhamos um Land Rover carregado com equipamento e uma oficina montada no nosso acampamento. Todos os dias, percorríamos as planícies em busca de abutres ou de animais mortos. Eu estava a fotografar com uma lente de longo alcance, para captar imagens do comportamento dos abutres — lutas, alimentação e limpeza das penas. Depois precisávamos de fotografias de grande plano aberto. Para o conseguirmos, procurávamos uma carcaça fresca e aparelhávamo-la com câmaras. Julgava que bastava camuflar uma Canon 50D e deixá-la próximo ou no interior do animal morto. O Simon garantiu-me que não iria funcionar, mas eu adoro mostrar-lhe que está enganado.

Encontrámos a carcaça de um gnu que estava a servir de refeição a um bando de abutres. Saí do carro, coloquei a câmara com um disparador sem fios próximo da cabeça do animal e afastámo-nos. Os abutres regressaram rapidamente à sua refeição — mas estacaram repentinamente a cerca de meio metro da câmara. O Simon tinha razão.

Tentámos novamente mais algumas vezes. O interior de um animal morto é escuro e os tempos de exposição eram longos. As aves derrubavam a câmara quando puxavam a carcaça com os seus pescoços e bicos poderosos; fiquei apenas com uma série de fotogramas de entranhas e sangue escuro esborratado, e uma lente muito suja. Tinha de arranjar uma solução.

Primeiro, tentámos colocar a câmara no interior de um crânio de gnu em pasta de papel. Não resultou. Fizemos uma réplica de um cepo de árvore, e os abutres nem sequer se aproximavam. Foi então que pensei: “GoPro.” E, finalmente, tivemos resultados.

Os abutres não fizeram caso das GoPros, mas todas as fotografias ficaram desfocadas devido à definição de focagem no infinito. Eu sou aquele tipo de pessoa desmonta uma câmara, peça por peça, para arranjar. Comecei então as desmontar as GoPros, primeiro uma, depois outra, e ajustei a focagem colocando um pequeno pedaço de cartão entre a lente e o sensor.

Com esta solução, começámos a ter imagens intimistas e plenas de ação do frenesim alimentar dos abutres na carcaça, tendo tirado cerca de 20 000 fotogramas com as GoPro antes de decidir experimentar algo diferente.

Finalmente, apenas alguns dias antes do fim do trabalho, o plano resultou, e conseguimos a foto de sonho.

Eu tinha uma Panasonic Lumix GX7, que me tinha sido gentilmente cedida pela própria Panasonic. Trata-se de uma câmara sem espelho que tem um modo silencioso, guarda as imagens em formato RAW e tem um cabo disparador — aparentemente perfeita para a função. Após resolver um sem número de problemas técnicos, usámo-la numa carcaça. Mas, mais uma vez, os abutres não gostaram da lente grande.

Tinham-se passado três semanas desde o início das sessões quando comecei a ficar preocupado. Era o meu primeiro grande artigo para a National Geographic e envolvia um grande investimento! Tinha muita coisa nos cartões de memória, mas não tinha aquela imagem, aquela que deixa toda a gente boquiaberta. Mas eu nunca desisti. Insisti até ao ponto em que mesmo o Simon já me dizia, “Para.”

Mas as coisas começaram a mudar, lentamente, quando eu os abutres nos começámos a compreender mutuamente. Alguns começaram a ficar mais ousados. Os abutres observam-se uns aos outros obsessivamente e retiram pistas do comportamento uns dos outros. Se um se alimenta de uma carcaça com uma câmara, os outros irão acabar por ganhar coragem para fazer o mesmo. Apercebemo-nos que se, rapidamente, nos aproximássemos durante um frenesim alimentar, largássemos uma câmara, e se, rapidamente, nos afastássemos, os abutres regressavam de imediato, sem sequer repararem na câmara.

Era esta a imagem que eu queria. Está lá tudo — ação, agressão, uma boa iluminação, enquadramento perfeito. Mostra-nos como os abutres convivem uns com os outros, como se alimentam, onde vivem. A caixa torácica do animal morto sai do enquadramento na perfeição, e o abutre principal tem o bico aberto. A pata agressiva que se aproxima é perfeita, e uma asa emoldura a parte superior da imagem. Podemos até ver um marabu e um abutre, que aguardam, pacientemente, a sua vez. Não poderia, sequer, imaginar uma imagem tão conseguida.

A Lumix escorria, literalmente, sangue, conteúdo estomacal e matéria fecal. O Simon tentou limpá-la com álcool e uma escova de dentes, mas os botões e a belíssima superfície negra ficaram de um vermelho e verde escuros. A lente estava manchada com um líquido tão horrível, que nem o consigo descrever. Todas as GoPros fediam; uma estava coberta de urina de chacal. As outras tinham as lentes riscadas. Os marabus pegavam nas GoPros e andavam com elas de um lado para o outro. Atropelámos uma com o Land Rover — e sobreviveu.

Como é que eu e o Simon não apanhámos brucelose, tuberculose, carbúnculo, giardíase ou qualquer outra infeção é um mistério; talvez a embalagem de Dettol que levávamos para todo o lado nos tenha salvo a vida. É um trabalho sujo, este com os abutres, mas é também muito divertido. Reservo para eles um lugar muito especial no meu coração. São criaturas muitos especiais, e precisamos deles muito mais do que aquilo que achamos.

Para saber mais sobre os abutres e o perigo que eles enfrentam, leia o artigo “Os abutres são repulsivos. E precisamos de os salvar.” Veja outros trabalhos de Charlie Hamilton James no seu website.

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