Colapso da Indústria da Bílis de Urso Ameaça Animais em Cativeiro

Os produtores vietnamitas podem matar centenas de ursos em cativeiro, com a queda da indústria da bílis deste animal, no Vietname. quarta-feira, 25 de julho de 2018

As vidas de quase 1000 ursos mantidos em cativeiro estão em risco pelo declínio da indústria da bílis de urso no Vietname. Um estudo conduzido pelo grupo australiano de defesa do bem-estar dos animais, Free The Bears, descobriu que as quintas de produção de bílis de urso, no Vietname, deixaram de alimentar os animais, deixando-os à mercê da morte, porque mantê-los vivos supõe custos demasiado elevados. Segundo os investigadores, os lucros da bílis de urso diminuíram em virtude da quebra na procura e do excesso de oferta.

A bílis de urso, um fluído digestivo segregado pelo fígado e armazenado na vesícula biliar, é cobiçado por alguns setores na China e por outros países asiáticos, onde a medicina tradicional promove as propriedades medicinais da bílis de urso como tratamento para a cura de qualquer doença, desde as ressacas ao cancro. Os estudos revelaram que efetivamente a bílis de urso pode ser eficaz no tratamento de algumas doenças hepáticas, porém a sua substância ativa já é produzida sinteticamente.

O estudo, publicado no dia 4 de julho na revista Oryx, revelou que as despesas com a alimentação dos ursos suportadas pelos produtores vietnamitas, desceram cerca de 90 por cento, desde que o preço da bílis de ursos em cativeiro começou a descer em 2010. O estudo apoiou-se em relatos circunstanciais de ursos confinados em jaulas, deixados a morrer à fome, em quintas vietnamitas de produção de bílis. O grupo Free The Bears receia que esteja iminente a morte em massa dos ursos que ainda se mantêm em cativeiro.

As entidades governamentais da China baniram a produção de bílis de urso no país em meados dos anos 80, como medida para reduzir a caça ilegal dos ursos-malaios e dos ursos-negros-asiáticos selvagens, tendo ambas as espécies sido classificadas como vulneráveis à extinção. Em 2016, mais de 13 000 ursos viviam em confinamento em quintas de produção de bílis no país e na Ásia, incluindo o Vietname, segundo a TRAFFIC, uma organização não governamental que monitoriza o comércio de animais selvagens. No Vietname, os esforços para criar ursos em cativeiro revelaram-se infrutíferos, pelo que os produtores têm-se visto forçados a recorrer à população de ursos selvagens, capturados por caçadores ilegais.

O Vietname baniu a extração de bílis de urso em 2005, mas dezenas de quintas de ursos ainda se mantêm ativas no momento atual. Em 2006, o Vietname tinha cerca de 4000 ursos confinados em quintas de produção de bílis. Isto porque a interdição continha uma cláusula que permitia aos produtores manter os ursos que tinham até ao momento da proibição, sob a condição de que assumissem um compromisso escrito de pôr fim à extração de bílis dos animais. Segundo o estudo, este vazio jurídico, associado à falta de fiscalização, contribuiu para que a indústria se mantivesse em funcionamento.

No entanto, em 2015, a população de ursos confinados em quintas tinha diminuído para pouco menos de 1300 indivíduos. Para conhecer o paradeiro dos ursos e descobrir o motivo do seu desaparecimento, Brian Crudge, diretor do programa de investigação da agência vietnamita do grupo Free The Bears e principal autor do estudo, percorreu o país em 2016 entrevistando produtores de bílis de urso, com a colaboração dos investigadores da WildAct Vietnam, uma organização sem fins lucrativos, e da Universidade de Vinh.

Mais de dois terços do universo dos 66 antigos e atuais produtores entrevistados afirmaram que não era lucrativo manter os ursos para extrair a bílis. Pouco mais de metade afirmou ter encerrado a atividade nas últimas duas décadas. E no conjunto dos antigos produtores, metade admitiu ter matado os ursos no processo de encerramento das respetivas quintas.

“Não me surpreende que estes produtores já não vejam qualquer vantagem em comprar comida para os ursos e que estejam simplesmente a matá-los”, diz Crudge. “Se a bílis perdeu valor de mercado, deixa de ser lucrativo manter os ursos em cativeiro, por isso os produtores optam por matar os animais e vendê-los à peça.”

Um espécime morto pode render uma boa quantia a um produtor com dificuldades financeiras. As patas, a vesícula biliar, os dentes e as garras podem atingir preços exorbitantes no mercado negro. As patas são usadas para fazer sopa de pata de urso, considerada uma iguaria por alguns, e também vinho de pata de urso. Os dentes e as garras são transformados em bugigangas e bijutaria, e as vesículas são usadas para produzir medicamentos tradicionais.

As quintas de ursos para extrair bílis são manifestamente desumanas. Os ursos são geralmente levados com as respetivas crias e mantidos em jaulas, sem praticamente espaço para se movimentarem. A bílis é extraída diariamente por meio da introdução de um cateter, um procedimento que pode ser extremamente doloroso, segundo Crudge.

Os produtores vietnamitas responsabilizam o governo pela quebra da procura da bílis de urso, com reflexos nas tendências de consumo e nas preocupações relativamente às propriedades medicinais do precioso fluído digestivo. A bílis extraída de ursos selvagens vale 12 vezes mais do que a extraída de ursos criados em cativeiro, segundo informação dos produtores, que atribuem à disparidade a crença generalizada de que a bílis dos ursos selvagens é qualitativamente superior à dos ursos de criação. Ainda assim, os produtores afirmam que o preço da bílis de urso, tanto selvagem como de criação, registou uma descida de cerca de 13 por cento nos últimos anos.

“Penso que a procura terá tendência para cair no longo prazo, e as pessoas dedicadas à atividade deparar-se-ão com sérias dificuldades no futuro”, afirma Douglas MacMillan, professor de economia de biodiversidade no Instituto de Ecologia e Conservação de Durell da Universidade de Kent, em Inglaterra. MacMillan, que não participou no estudo, defende que os jovens consumidores asiáticos não atribuem à medicina tradicional o mesmo valor que a população mais velha, um comportamento que ajuda a explicar o declínio do mercado da bílis de urso.

Em 2017, o Vietname consolidou o seu compromisso para pôr termo à prática, anunciando a transferência de de todos os ursos mantidos em cativeiro para centros de resgate e salvamento. Os ursos estão, na sua maioria, demasiados traumatizados para serem libertados na natureza, e, considerando que existem, segundo as estimativas, cerca de 900 espécimes em cativeiro dispersos por todo o país, será um autêntico desafio encontrar espaço para todos eles.

“A melhor esperança para estes ursos é a de que sejam resgatados num curto espaço de tempo, mas, para que tal aconteça, o governo teria de agir rapidamente”, afirma Crudge.

O grupo Free The Bears, a Animals Asia, e um conjunto de outras entidades possuem centros de resgate e salvamento no Vietname e nas regiões contíguas, muitos dos quais atingiram já o limite da capacidade prevista. Segundo Crudge, o grupo Free The Bears encontra-se atualmente a construir um outro centro de resgate para acolher os restantes ursos mantidos em cativeiro no Vietname.

A Wildlife Watch é um projeto de artigos de investigação desenvolvido em parceria pela National Geographic Society e pela National Geographic Partners, centrado na exploração desumana e na criminalidade contra a vida selvagem. Conheça outras histórias da Wildlife Watch e saiba mais sobre a missão não lucrativa da National Geographic Society em nationalgeographic.org. Envie-nos as suas sugestões, opiniões e ideias para ngwildlife@natgeo.com.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em NationalGeographic.com.

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