Animais

Biologia e Conservação de Tubarões I - Introdução

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Por João Correia

Os tubarões e raias exercem um fascínio especial junto do público de todas as idades, ocasionalmente pelas razões erradas, mas focar-nos-emos nas certas. Este artigo é o primeiro de uma série que tem como objectivo dar a conhecer alguns dos aspectos mais relevantes da biologia destes extraordinários animais, bem como alguns dos desafios que enfrentam actualmente. As referências bibliográficas citadas em todos os artigos desta colectânea podem ser consultadas na tese (do mesmo autor) intitulada "Pesca Comercial de Tubarões e Raias em Portugal", disponível na área Literature do website www.flyingsharks.eu.

 

Há 350 milhões de anos que o grupo vulgarmente denominado por tubarões (Superclasse: Pisces; Classe: Chondrichthyes; Subclasse: Elasmobranchii; Coorte: Euselachii) (Compagno 1990) terá desenvolvido uma estratégia reprodutiva que favorece a produção de um número reduzido de descendentes guardados, protegidos e alimentados dentro do corpo da progenitora, requerendo um grande investimento de tempo e recursos por parte desta. Interpretado à luz da teoria filogenética, este facto isolado viria a ter implicações profundas na evolução destes indivíduos e a estabelecer limites biológicos e económicos na sua abundância (Hoenig e Gruber 1990) e, consequentemente, na exploração racional deste recurso marinho.

 

Ainda nesta linha, a maioria das cerca de 400 espécies de tubarões conhecidas demoram uma ou mais décadas para se tornarem adultas, têm períodos de gestação longos (cerca de dois anos, em alguns casos) e só acasalam de dois em dois anos. Um casal de tubarões limão, por exemplo, leva cerca de 24 meses para se reproduzir e dá origem a 8-12 crias por gestação, que estão sujeitas a uma mortalidade inicial que ronda os 50% (Pratt e Casey 1990). De três em três anos dois indivíduos maduros dão, por isso, origem a não mais do que 1 a 3 sobreviventes. Valores desta natureza indicam claramente a dificuldade que estes animais manifestam em reconstituir uma população diminuída por razões ambientais ou antropológicas.

 

De um modo geral, o ciclo de vida dos tubarões pode ser caracterizado por crescimento lento, maturidade tardia, fecundidade baixa combinada com a produção de algumas crias completamente formadas, longevidade, reprodução múltipla (i.e. iteroparidade) e tamanho apreciável (Pratt et al. 1990). Este padrão pode ser encontrado num vasto número de organismos marinhos e terrestres e constitui um dos extremos na escala dos padrões de história de vida. O extremo oposto pode ser ilustrado pela maioria dos peixes ósseos. As características principais no ciclo de vida de um salmão, por exemplo, incluem crescimento e maturidade rápidos, fecundidade alta combinada com a produção de milhares de pequenas crias pobremente desenvolvidas e uma única postura (i.e. semelparidade) a que se segue a morte. Por outras palavras, um ciclo de vida relativamente rápido e terminal.

Livro 'Discovering Sharks' de Samuel H. Gruber

Em 1958, o ecologista MacArthur (in ‘Discovering Sharks’ de Gruber 1990) apercebeu-se desta dicotomia e explicou a significância de cada padrão baseando-se nos trabalhos de Malthus (1798) que, dois séculos antes, descreveu o modo como uma população se expande ou decresce. Para o desenvolvimento da teoria de MacArthur também contribuíram os trabalhos de Volterra (1928), que matematizou pressupostos de biologia de populações de Malthus (op. cit.) e criou o modelo logístico de crescimento de populações.

 

À luz destes conhecimentos, MacArthur (in Gruber 1990) fez corresponder as espécies de ciclo de vida rápido e curto a espécies que habitam ambientes instáveis e imprevisíveis, tais como uma costa rochosa, em que as condições terrestres e aquáticas actuam levando à ocorrência frequente de catástrofes. Por outro lado, associou as espécies de ciclo de vida longo e lento a condições estáveis, tais como as que podem encontrar-se no fundo marinho, em que a luz não penetra e a temperatura praticamente não varia (Nybbaken 1993). Às primeiras MacArthur chamou espécies r-seleccionadas e às segundas k-seleccionadas, nomes que tiveram origem nas constantes do modelo de Volterra (in Gruber 1990).

 

Em síntese, a teoria designada de “selecção r/k” estabelece um fundo sobre o qual se podem interpretar os padrões da história de vida de um indivíduo e o modo como estão relacionados com a ecologia e evolução da espécie a que pertence.

 

De que modo encaixam, então, os tubarões e, em particular, as espécies aqui em apreço, na teoria de selecção r/k? Dadas as características reprodutivas e de adaptação ao meio já referidas para os elasmobrânquios, estes indivíduos podem ser classificados como tipicamente k-seleccionados. Pormenor interessante (ainda que meramente especulativo), considerando a sua idade geológica, os tubarões poderão ter sido os primeiros vertebrados a adoptar (ou desenvolver) a estratégia de sobrevivência k (Gruber 1990).

 

De um ponto de vista mais prático, que significância tem, actualmente, esta estratégia para os tubarões e de que modo os afecta? Um dos factores característicos das espécies k é que o habitat que ocupam deverá ser relativamente estável em recursos e condições. Estas exigências têm sido, recentemente, seriamente afectadas devido a actividades humanas. Por exemplo, os tubarões costumam reproduzir-se em zonas costeiras de alta produtividade e nas quais as crias permanecem durante os seus primeiros anos, zonas genericamente denominadas como áreas de reprodução (i.e. nursery areas). Mas o impacto ambiental urbano e industrial e múltiplas infra-estruturas costeiras têm perturbado gravemente estes locais, através de substâncias poluentes, contaminação química, alteração e perda de habitats.

 

Um exemplo recente de uma situação desta natureza ocorreu entre 1992 e 95 em Recife, Brasil. Uma baía normalmente usada como zona de reprodução de várias espécies de tubarões foi transformada em porto comercial. Esses tubarões, privados deste local, ocuparam uma outra zona frequentada por adeptos de surf, o que teve consequências desastrosas (Hazin et al. 1996), que se traduziram rapidamente num acréscimo na quantidade de incidentes envolvendo surfistas e tubarões.

 

Outro exemplo, mais recente, refere-se à ilha Bimini, Bahamas, onde o impacto do desenvolvimento antropogénico local sobre populações juvenis de tubarão-limão, Negaprion brevirostris, se revelou bastante significativo (Jennings et al. 2008). Este impacto manifestou-se particularmente na forma de uma diminuição expressiva de taxas de sobrevivência de indivíduos com um ano.

Livro 'The End of The Line' de Charles Clover

Além disto, a espécie humana tem não só supra-competido com os tubarões sob a forma de frotas pesqueiras cada vez mais eficientes mas, também, capturado directamente, e como bycatch, tubarões e raias a níveis de esforço de pesca que não param de aumentar. Este facto é referido na publicação The end of the line (Clover 2002), que estabelece um cenário bastante negro (embora muito bem documentado) relativamente aos moldes em que se desenvolve a pesca comercial actualmente. Curiosamente, os desembarques em portos portugueses de tubarões têm-se mantido relativamente constantes durante os últimos anos (aprox. 5.000 toneladas / ano) (Correia e Smith 2004, Correia et al. 2016).

As condições de estabilidade, abundância de recursos e predação reduzida pertencem ao passado. Isto, combinado com o crescimento e reprodução lentos da estratégia do seu ciclo de vida, coloca os tubarões e raias numa situação que requer medidas de gestão urgentes.

 

João Correia é Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Leiria, General Manager na Flying Sharks e Co-fundador da A.P.E.C.E. (Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios).

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