Animais

No Mundo Caótico do Turismo do Tubarão-Baleia

Nas Filipinas, o turismo do tubarão-baleia é um negócio em franco crescimento, mas levantam-se questões sobre os impactos da atividade na população destes cetáceos.Monday, September 10, 2018

Por Kennedy Warne
A observação dos tubarões-baleia em Oslob, um local turístico muito popular nas Filipinas, é facilitada pela alimentação à mão destes cetáceos, que afluem à zona atraídos por punhados de camarão descongelado. Ainda não são claros os impactos a longo prazo desta atividade.

Bem-vindo a Oslob, o reino da selfie com o tubarão-baleia.

Nesta cidade, perto do extremo sul da ilha de Cebu, nas Filipinas, os tubarões-baleia são a grande atração. A oferta turística é vasta para aqueles que querem observar, nadar e tirar fotografias com o maior peixe do mundo.

Desde a sua implementação em 2011, que a observação de tubarões-baleia em Oslob se tornou na maior das atrações do género à escala mundial. Mas a atividade está envolta em polémica, porque os tubarões-baleia não se concentram espontaneamente nas águas da região, contrariamente a outras zonas no país. Em Oslob, os tubarões são alimentados à mão, garantindo assim a sua presença diária para gáudio dos turistas, ansiosos por um grande plano.

A situação levanta questões delicadas, nomeadamente o impacto da alimentação e da interação humana com os animais, a sustentabilidade da atividade e o valor da conservação. Será que os benefícios compensam os riscos?

Estas questões não são meramente académicas, considerando que os tubarões-baleia estão ameaçados à escala global e os números populacionais na região das Filipinas estão em acentuado declínio. Antes de 1998, altura em que os tubarões-baleia adquiriram estatuto legal de espécie protegida a nível nacional, centenas de tubarões-baleia eram mortos, anualmente, nas Filipinas pela sua carne e barbatanas.

Mas a pesca furtiva é ainda uma realidade neste país e noutras latitudes, alimentando a procura e os mercados que se mantêm plenamente ativos, com a China a encabeçar a lista de clientes, onde um único animal pode atingir as dezenas de milhares de dólares. A carne, as barbatanas e o óleo são vendidos para o setor alimentar e a pele para o fabrico de malas.

O NASCER DO SOL EM OSLOB

O dia em Oslob começa às seis da manhã, com a chegada dos primeiros turistas e com eles as primeiras advertências e explicações. É proibido tocar, apoiar-se nos animais e usar flash, bem como é obrigatório manter-se a cerca de dois metros de distância dos animais. Os visitantes usam máscaras, tubos de respiração de mergulho e sobem a bordo de embarcações, equipadas com estruturas de apoio para observação dos tubarões. Na zona de interação, a cerca de 45 metros da costa, os barcos alinham-se e começa o espetáculo. Homens em canoas individuais servem mãos-cheias de camarão descongelado aos tubarões expectantes, muitos dos quais só chegam poucos minutos antes do festim alimentar.  

Chamam-lhe observação, mas, na verdade, é mais posar para a fotografia. É uma visão no mínimo bizarra: grupos de turistas alinhados flutuam nas águas, agarrados à estrutura de apoio da embarcação e de costas voltadas para os tubarões, enquanto sorriem para a fotografia tirada pelo operador do barco, com os telemóveis dos próprios turistas. As bestas gigantes são o cenário de fundo.

Os visitantes são advertidos de que podem ser levados sob custódia, se tocarem ou se se aproximarem demasiado dos tubarões, mas os investigadores descobriram que 95 por cento dos nadadores infringem as regras, muitas vezes de forma inadvertida. A confusão instala-se, e o contacto acontece.

Quase todos os tubarões-baleia que visitam Oslob são juvenis machos. A maioria deles são visitantes temporários, mas alguns tornam-se habitantes permanentes ao longo do ano.

Alguns dos tubarões nadam languidamente num ângulo de 45 graus, como se lhes fosse difícil suportar o peso das suas caudas. Outros permanecem inertes, inteiramente na vertical, sorvendo de um trago grandes quantidades de água e punhados de camarões, que desaparecem na voragem.

O festim termina ao meio-dia. Os tubarões dispersam-se, tal como os barqueiros. O espetáculo acabou, até à manhã do dia seguinte.

QUEM BENEFICIA?

A observação de tubarões é um setor em crescimento na indústria do turismo, e outros operadores, noutros países, por exemplo, recorrem a iscos ou a provisões para atrair os animais. É muitas vezes designado de ecoturismo, mas, em certas situações, o termo parece claramente desajustado. O ecoturismo, na sua aceção mais genuína, procurar levar os humanos ao encontro dos animais no seu próprio habitat, com impactos mínimos nos respetivos ecossistemas e um valor de conservação tangível. Mas muitos defendem que essa não é a realidade em Oslob.

A atividade encerra alguns benefícios. Por um lado, os tubarões-baleia mantêm-se em Oslob.  “O cenário em Oslob é caótico, e a controvérsia é real”, diz o meu colega David Doubilet, que tem estado a fotografar nas Filipinas para a próxima grande reportagem da National Geographic. “Mas, pelo menos, os tubarões estão vivos e não mortos acondicionados algures, sem barbatanas, numa arca frigorífica na Ásia.”

Outro aspeto positivo: uma diminuição da pressão sobre a atividade piscatória em Oslob. Os cerca de 170 membros da associação de pescadores locais, que alimentam os tubarões e transportam os turistas, já não precisam de pescar peixe dos recifes, cada vez mais depauperados, para assegurar o alimento das suas famílias. Tal como os pescadores das redondezas asseguram o seu sustento fornecendo as várias centenas de quilos de camarão necessários diariamente para alimentar os tubarões, pondo assim menor pressão sobre as populações de peixes em declínio.

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Estas criaturas gigantes também beneficiam a economia local. À noite, a linha costeira de Oslob cintila com as luzes de mais de 50 hostels, estâncias turísticas e guesthouses, assim como das casas da região. “Os tubarões-baleia trouxeram as luzes”, disse-me um habitante. Alguém imaginava que a prosperidade poderia chegar a Oslob através de algo tão simples como lançar um punhado de camarões para as bocas de uns quantos tubarões que por ali passam?

ENTUSIASMO, PREOCUPAÇÃO

Mark Rendon, um barqueiro de 26 anos, faz parte do negócio em Oslob há três anos. Rendon era um funcionário público, que trabalhava na cidade de Cebu, a 118 quilómetros de distância de Oslob. Atualmente, Rendon ganha mais, viaja menos, reduziu as despesas e vive em casa com a família.

Segundo Rendon, 60 por cento das receitas do turismo destinam-se aos pescadores, 30 por cento à câmara municipal e 10 por cento à aldeia local.

Os pescadores não são os únicos a beneficiar com a atividade. “As donas de casa também se tornaram empresárias”, disse Rendon, vendendo colares e coroas de flores, recordações, batidos de fruta e petiscos.

Quanto aos tubarões, a maioria mantém-se na zona por alguns dias ou semanas e depois segue caminho. Mas alguns, cerca de quatro por cento no total, tornam-se habitantes em permanência. Os cientistas preocupam-se que os tubarões, que tiram partido do alimento fácil por longos períodos, possam acusar efeitos negativos tanto ao nível físico, como no âmbito comportamental.

Os tubarões-baleia são uma espécie protegida nas Filipinas desde 1998, mas a caça furtiva continua a ser uma realidade na região e noutras zonas onde a espécie se distribui de forma natural.

Embora esta atividade já seja objeto de estudo por entidades como o Instituto de Investigação dos Grandes Vertebrados Marinhos das Filipinas, mantêm-se ainda sem resposta algumas questões básicas sobre as consequências deste método de alimentação. O camarão que lhes serve de alimento é uma mistura menos rica em organismos planctónicos do que aquela que os tubarões consumiriam naturalmente. Não é comida de plástico, mas também não é necessariamente uma dieta saudável.

Os tubarões-baleia tendem a associar os barcos ao alimento fácil, e essa associação pode expô-los a situações de perigo em qualquer outro lugar. Quase metade dos tubarões-baleia estudados em Oslob apresentam cortes de hélices nos respetivos corpos, que se acredita que tenham sido feitos noutros lugares, uma vez que a atividade turística usa exclusivamente embarcações a remos. Estes animais têm também maior probabilidade de se aproximar de um navio de pesca de tubarões. Os tubarões-baleia são uma espécie protegida nas Filipinas desde 1998, mas a pesca furtiva mantém-se na região e nos vastos territórios de distribuição natural da espécie, onde poderão, eventualmente, não gozar do estatuto de espécie protegida.

PRAZER SECRETO?

Também não é claro o que acontece quando estes animais migratórios são levados a permanecer num lugar por um período dilatado no tempo e quais as consequências que isso possa ter nos seus padrões de interação social e mobilidade. Dos 650 espécimes de tubarão-baleia identificados nas Filipinas, um quarto tem sido visto em Oslob, o que significa que uma parcela significativa da população está exposta a riscos de sobrevivência que ainda não são conhecidos.

Alguns defendem que os tubarões-baleia, à semelhança das baleias, dos pandas, dos ursos polares, dos tigres e dos elefantes, são verdadeiros embaixadores do mundo natural: criaturas carismáticas que nos levam a cuidar da Terra e das suas múltiplas formas de vida. E talvez esse benefício pressuponha graus mínimos de perturbação sobre estas criaturas.

Por cada turista sorridente que tira uma fotografia com um tubarão, haverá outro que olha nos olhos desta criatura gigante de pele malhada e lhe reconheça um imenso valor intrínseco, cuja existência deve ser protegida? Ou serão estes tubarões meros cenários de fundo de personalidades narcisistas?

Um estudo recente sobre a forma como os turistas percecionam o negócio dos tubarões-baleia em Oslob revelou que muitos visitantes reconhecem que alimentar uma espécie em risco extinção, com fins turísticos, levanta algumas questões de natureza ética, se é que não pode ser considerada moralmente errada, mas ainda assim participam. Alguns investigadores descrevem este tipo de justificação como uma espécie de prazer secreto.

Os pescadores com quem falei temem que o governo possa concluir que os riscos de conservação superam os benefícios económicos e decida proibir a alimentação dos tubarões. Uma medida desta natureza iria, efetivamente, pôr fim ao negócio. Os pescadores esperam que os benefícios sejam vistos como contrabalanço dos riscos que pendem sobre os tubarões.

Para Rendon, é simples. “Eu quero fazer isto para o resto da minha vida”, diz.

Para os defensores dos animais, é igualmente simples: os animais selvagens não devem ser alimentados.

Entretanto, o turismo dos tubarões-baleia não dá sinais de abrandamento, ainda que os seus efeitos sobre os animais permaneçam no desconhecimento.


Sharks, uma das exposições mais emblemáticas da National Geographic, está instalada na Galeria da Biodiversidade da Universidade do Porto até ao final do ano. Não perca a oportunidade de ver uma nova perspetiva dos tubarões, pelo olhar de Brian Skerry.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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