Porque Abatem Os Pescadores Os Leões-Marinhos-Da-Califórnia?

Apesar da legislação que protege os leões-marinhos, os pescadores recorrem a meios de força letal para impedir que estes animais roubem a apanha de peixe.terça-feira, 11 de setembro de 2018

Por Annie Roth e Jeremy Rehm

Todas as manhãs, os tratadores do Aquário Shedd, em Chicago, agitam guizos e sopram apitos para avisar Cruz, um leão-marinho com 102 quilos de peso, que está na hora do pequeno-almoço. Cruz é cego, pelo que os seus tratadores confiam na sua audição, tato e olfato para o guiar no recinto.

A história de Cruz tem início no ano de 2013, quando dois elementos de uma equipa de salvamento o encontraram preso numa praia apinhada de gente em Santa Cruz, na Califórnia. A equipa de salvamento conta que Cruz aparentava estar exausto, subnutrido e, acima de tudo, indefeso. Mas eram os seus olhos que inspiravam maiores cuidados. O olho esquerdo estava baço e o olho direito estava em falta.

O leão-marinho foi levado de imediato para o Centro de Mamíferos Marinhos, em Sausalito, onde um raio-x denunciou a presença de vários fragmentos metálicos alojados no crânio. O animal tinha sido atingido com pelo menos um tiro de bala na cabeça. Cruz foi tratado até recuperar na totalidade, mas, uma vez que a sua capacidade de defesa na natureza estava seriamente comprometida, o Aquário Shedd acolheu-o nas suas instalações. Hoje, segundo os seus tratadores, o desenvolvimento de Cruz evolui de forma positiva.

“Ele foi um dos que teve sorte”, diz Madelynn Hettiger, a diretora de mamíferos marinhos do aquário. “Se Cruz não tivesse alcançado a costa, talvez nunca tivéssemos ouvido falar dele.”

Este ano, mais de uma dúzia de mamíferos marinhos mortos por balas, incluindo um golfinho-roaz gestante, deram à costa nas praias norte-americanas. Segundo o Gabinete de Pescas da Administração Nacional para a Atmosfera e os Oceanos, na sigla inglesa NOAA, a organização impôs medidas regulamentares destinadas a proteger os mamíferos marinhos, em face dos 700 leões-marinhos-da-Califórnia encontrados com ferimentos de bala e golpes de arma branca entre 1998 e 2017. Apenas um número reduzido de pessoas foi acusado, todas elas pescadores.

Os leões-marinhos, tal como o pescador Brand Little sabe por experiência própria, são animais muito inteligentes, mestres na arte de roubar salmão, sardinhas e lulas pendurados num gancho ou apanhados na rede. Falámos com Little a 3 de maio, no segundo dia da época da pesca comercial de salmão, depois de Little ter entrado com o barco no porto de Santa Cruz para descarregar a apanha: 37 salmões-reais, no valor aproximado de 3855 euros. A saída no mar tinha sido produtiva, disse Little. “Perdi apenas um peixe.”

Esse peixe não tinha partido a linha, nem tinha conseguido libertar-se do anzol. Foi roubado por um leão-marinho. Para onde quer que vá um pescador, diz Little, os leões-marinhos tendem a ir atrás. “Não há como fugir deles. Nós arrancámos e fugimos deles durante seis horas e, ainda assim, eles continuavam a seguir-nos. Seis horas! Três de cada lado.”

Quando perguntámos a outro pescador estabelecido em Santa Cruz de que forma mantinha os leões-marinhos afastados da apanha, ele respondeu sem quaisquer rodeios: com uma “espingarda”. O pescador, que acedeu em falar sob o anonimato, porque temia repercussões legais, diz que perder peixes para os leões-marinhos é uma ameaça ao seu sustento.

“Hei de ficar ali no mar até que o ombro fique negro”, disse, aludindo à nódoa negra que lhe fora provocada pelo coice da espingarda. “É a minha pesca. Tenho o direito de ir atrás da minha apanha.”

Por inúmeras razões, incluindo as alterações climáticas e a perda de habitat, as populações de salmão na costa ocidental têm vindo a diminuir ao longo de várias décadas. Como consequência, os pescadores recusam-se a perder peixe para aqueles que definem como “o imposto do leão-marinho”.

“Torna-se frustrante”, continuou o pescador. “Por vezes, saímos para o mar num dia inteiro de faina, que chega a durar oito horas. Abastecemos o depósito com 130 euros de combustível para o dia e quando, finalmente, um peixe morde o isco e puxamos a linha, vem um leão-marinho roubá-lo.”

Os pescadores de pesca desportiva também se queixam dos leões-marinhos. “Eles estão sempre a roubar-nos os iscos”, disse Evan Wagley, proprietário de Guardian Charters, uma empresa de pesca desportiva sediada em San Diego. As sardinhas e as lulas que Wagley usa como isco atraem os leões-marinhos, que descobriram a melhor forma para roubar estes petiscos. “Eles sabem que se engolirem o isco por inteiro, é provável que fiquem com o anzol na boca “, disse Wagley. “Por isso, só arrancam o corpo.”

Os pescadores tentaram afastar os leões-marinhos, recorrendo a todo o género de expedientes: armas de ar comprimido, petardos contra focas e até mesmo agulhões elétricos para o gado. “Eu usei uma fisga”, disse resignado um pescador de Santa Cruz, que pediu o anonimato. “Eu já tentei tudo e mais alguma coisa. Eles não querem saber.” Na sua experiência, a única forma de manter os leões-marinhos à distância é com uma rajada de balas.

Os cientistas da NOAA avaliaram a eficácia de um sem-número de métodos de dissuasão, desde balas de borracha e foguetes a gravações das vocalizações de orcas para afugentar os leões-marinhos, e concluíram que “não existe um único método dissuasor não letal conhecido, que possua eficácia universal, capaz de demover as focas e os leões-marinhos do Pacífico de comportamentos problemáticos”.

PROTEGIDOS NO PAPEL

Até ao final da década de 1950, os pescadores ao longo da costa ocidental da América do Norte não tinham qualquer compunção em abater os leões-marinhos. O estado de Oregon chegou inclusive a oferecer um prémio de nove euros por cada leão-marinho abatido. Mas, na década de 1960, as populações de leões-marinhos tinham sido reduzidas a níveis tão baixos, que a espécie estava à beira do colapso, e a União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, o organismo que estabelece o estatuto de conservação das espécies, classificou os leões-marinhos como uma espécie muito rara.

O declínio conduziu, em parte, à aprovação da Lei de Proteção dos Mamíferos Marinhos, em 1972, que determinou a ilegalidade dos atos de caçar, ferir ou importunar mamíferos marinhos. A medida repercutiu-se nos números de leões-marinhos, cuja população quase triplicou em 39 anos, passando dos cerca de 90 000 indivíduos em 1975 para os 260 000 registados em 2014.

"As populações de leões-marinhos são saudáveis, um sinal de sucesso da aplicação da Lei de Proteção dos Mamíferos Marinhos, aprovada em 1972, e outras normas que contribuíram para a recuperação dos ecossistemas”, disse Penny Ruvelas, que dirige a agência de Long Beach da Divisão dos Recursos das Pescas.

Os cientistas estimam que o habitat do leão-marinho possa acolher até cerca de 300 000 indivíduos ao longo da costa ocidental, antes de que o processo de seleção natural comece a emagrecer a população.

Com o número de leões-marinhos a aumentar, os disparos das armas de fogo, previsivelmente, não pararam. Os arquivos, que ocupam a base mal iluminada do Centro de Mamíferos Marinhos, contêm balas e fragmentos extraídos dos corpos de leões-marinhos feridos e outros mamíferos marinhos ao longo dos anos. Entre 2003 e 2015, o pessoal de reabilitação recebeu no centro 165 leões-marinhos, duas focas, um lobo-marinho e um leão-marinho-do-norte. Alguns chegaram mortos, outros vivos, mas todos apresentavam ferimentos de bala. A maioria dos animais veio da baía de Monterey durante o verão, no pico da época da pesca comercial de salmão.

A maioria dos tiros acontecem em alto mar, longe dos olhares alheios. O único vestígio são as balas no corpo do leão-marinho, que pode dar à costa dias ou semanas mais tarde, ou pode afundar no mar para nunca mais ser visto.

As armas de fogo não são os únicos meios usados. Em 2003, dois homens na baía de Morro, na Califórnia, foram indiciados pela tentativa de homicídio de um leão-marinho, com cinco meses de vida, com recurso a uma besta.  E, em 2007, um homem em Newport Beach, na Califórnia, usou uma faca de serrilha para golpear uma fêmea de leão-marinho, com 182 centímetros de altura, até à morte, após o animal ter alegadamente roubado o isco da cana de pesca.

“Sabemos que os registos que temos relativamente aos índices de mortalidade por ação humana são uma estimativa mínima dos verdadeiros impactos”, disse Lynne Barre, que dirige a agência de Seattle da Divisão de Recursos das Pescas da NOAA.

Ocasionalmente, alguns leões-marinhos, cravejados de balas, são salvos, reabilitados e devolvidos à natureza. Mas outros, como Cruz e Silent Knight, um macho com 318 quilos de peso que sobreviveu a um tiro no focinho que o deixou cego, não têm como sobreviver sozinhos. Silent Knight viverá os anos que lhe restam no Jardim Zoológico de San Francisco.

CRIME E CASTIGO

As penas pela morte de um leão-marinho, em circunstâncias de flagrante delito, podem ir até um ano de prisão e/ou uma multa até 21 350 euros. Mas, segundo Barre, a menos que as autoridades policiais disponham de imagens de vídeo, de uma testemunha ocular ou de uma confissão, como elementos de prova, é praticamente impossível identificar os infratores da Lei de Proteção dos Mamíferos Marinhos. Desde 2003, apenas cinco pessoas na Califórnia foram condenadas pelo crime de atentado à integridade física ou homicídio de um leão-marinho, e em todos os casos a acusação foi suportada pelo depoimento de uma testemunha ocular.

Veja-se a sentença em março de 2005 de John Gary Woodrum, o proprietário de 22nd Street Sportfishing, em San Pedro. Dois agentes ao serviço do Gabinete de Ação Penal para as Pescas da NOAA fizeram-se passar por pescadores, infiltrando-se no barco de Woodrum, numa operação secreta. Posteriormente, testemunharam contra Woodrum, afirmando tê-lo visto disparar uma arma contra leões-marinhos ao largo da ilha de Santa Catalina.

Woodrum confessou ter usado uma espingarda de calibre .22 para abater vários leões-marinhos. Segundo os documentos do tribunal, Woodrum foi obrigado ao pagamento de uma multa de 4270 euros e condenado a dois meses de detenção numa prisão federal e 250 horas de trabalho comunitário no Centro Clínico de Mamíferos Marinhos, em San Pedro. E esteve sob liberdade condicional durante um ano. 

Dado que é muito difícil apanhar os autores das mortes de leões-marinhos, e mais ainda quando os pescadores trabalham durante a noite, os organismos estatais confiam nas campanhas de sensibilização e nos programas comunitários para diminuir os violentos atos de represália sobre os animais.

Nos últimos anos, os cientistas da NOAA têm feito um esforço considerável para desenvolver métodos não letais para manter os leões-marinhos e outro pinípedes afastados das docas, barragens e outras estruturas construídas pelo Homem. Ainda assim, tem sido dada pouca atenção aos mecanismos dissuasores para uso em alto mar.

A NOAA publica no seu website informações sobre métodos não letais, e os especialistas em mamíferos marinhos, à semelhança de Barre, debatem com grupos de pescadores locais as melhores formas para usar os meios dissuasores existentes, tais como a pirotecnia, os apitos e as armas de ar comprimido.

“Temos tentado fazer chegar mais informação às comunidades piscatórias – sobretudo nas zonas onde há maior incidência de mortes de leões-marinhos por ação humana –, para que os pescadores tomem conhecimento de que existem outras opções não letais ao seu dispor”, disse Barre.

A campanha de sensibilização da NOAA tem registado pequenas conquistas, tais como o aumento do número de pescadores interessados em saber mais sobre os métodos não letais. Mas, segundo Barre, até que seja desenvolvido um método dissuasor verdadeiramente eficaz, que mantenha os leões-marinhos afastados da apanha de peixe, é provável que os pescadores continuem a recorrer, ainda que ilegalmente, a meios de força letal.

Annie Roth é uma escritora científica freelancer, estabelecida em Santa Cruz, na Califórnia, que produz conteúdos para a National Geographic, a Inside Science, a the San Jose Mercury News, entre outros. Siga-a no Twitter @AnnieRoth_AtSea. Jeremy Rehm, um escritor científico, estabelecido em Washington, D.C., tem colaborado com a Knowable Magazine, a Scientific American, a revista Science, a Nature, e outras publicações. Siga-o no Twitter @jrehm_sci

 

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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