Cera dos Ouvidos Revela Como os Seres Humanos Transformaram a Vida das Baleias

As hormonas presentes no cerume mostram até que ponto as atividades humanas, da baleação até à guerra, vêm causando stress sobre as baleias desde há século e meio.

Publicado 22/11/2018, 16:01 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
Quantificar as hormonas do stress em grandes baleias, como é o caso desta baleia-de-bossa, é extraordinariamente ...
Quantificar as hormonas do stress em grandes baleias, como é o caso desta baleia-de-bossa, é extraordinariamente difícil. Como tal, os cientistas ficaram empolgados com a descoberta de um registo dos níveis hormonais das baleias no seu cerume.
Fotografia de Flip Nicklin, Minden Pictures/Nat Geo Image Collection

 

O Cerume humano, seja retirado por um dedo curioso ou por um cotonete imprudente, é, regra geral, atirado ao lixo logo após a sua remoção. Mas esta substância pegajosa pode conter pistas que se vão acumulando no canal auditivo com o passar do tempo — inclusive, nos gigantescos ouvidos das baleias.

Felizmente, os curadores de museus de todo o mundo tiveram o bom senso de guardar os enormes rolhões de cera recolhidos de baleias mortas ao longo dos séculos.

Graças a esses rolhões, os cientistas descobriram agora um registo, escondido no cerume, de como as atividades humanas perturbaram as baleias ao longo do último século e meio. Stephen Trumble, especialista em fisiologia comparada na Universidade Baylor, e os seus colegas publicaram a sua descoberta na Nature Communications deste mês.

Ao que parece, somos um importante fator de stress — desde a baleação, passando por guerras, até às alterações climáticas, as nossas ações têm afetado as baleias, mesmo que não interajamos com elas diretamente. 

REGISTOS EM CERA

Cada rolhão de cera, que pode ter mais de 50 centímetros de comprimento e pesar cerca de um quilograma, contem um grande número de informações valiosas acerca das condições ambientais em que o animal viveu, bem como acerca do estado de saúde da baleia ao longo do seu tempo de vida.

Uma vez que a cera se acumula em camadas — semelhantes aos anéis das árvores — os investigadores conseguem obter uma cronologia de dados acerca dos mais variados aspetos, da contaminação por pesticidas a ciclos reprodutivos. 

Mas foi a resposta destes animais às atividades humanas que Trumble e a sua equipa tiveram mais curiosidade em analisar. E uma das melhores de o fazer é medindo o nível de hormonas como o cortisol, que são libertadas quando o animal está em stress

 

A obtenção de dados longitudinais a respeito dos níveis hormonais das baleias é incrivelmente difícil. É praticamente impossível seguir e retirar amostras de um indivíduo ao longo de toda a sua vida. As barbas de uma baleia, que são usadas para filtrar o alimento, contêm cerca de 10 anos de informação, mas o animal pode viver entre 50 a 100 anos. Como tal, isso é apenas um vislumbre da sua história de vida. 

Os seus rolhões de cerume, por outro lado, fornecem décadas de dados. 

Contudo, extrair esta informação não é tarefa fácil, explica Trumble. Separar as camadas de cerume para análise — cada uma das quais contendo informação respeitante a, aproximadamente, seis meses de vida do animal — requer vários dias de trabalho meticuloso. 

Mas o resultado justifica o esforço. “Ter a capacidade de desenhar um mapa dos fatores de stress envolvidos e da resposta da baleia — em particular, ao longo da sua vida — não tem precedentes”, afirma Trumble.

Nick Kellar, biólogo de cetáceos no Centro de Ciências Pesqueiras do Sudoeste da NOAA, em La Jolla, na Califórnia, concorda. “Isto constitui a melhor ciência disponível acerca dos efeitos não letais da baleação, sendo um dos principais avanços nesta área”, diz. 

No século XX, as populações de baleia-comum foram gravemente afetadas pela baleação, e os animais ainda hoje são procurados pelos baleeiros, apesar de se tratar de uma espécie ameaçada.

Fotografia de Tui De Roy, Minden Pictures/Nat Geo Image Collection

 

GUERRA E AQUECIMENTO GLOBAL

Neste novo estudo, os perfis hormonais de 20 baleias-comuns, baleias-de-bossa e baleias-azuis revelam uma relação estreita entre a atividade baleeira de finais do século XIX até à década de 70 do século passado, quando a legislação reduziu drasticamente a caça à baleia, e o stress

“O resultado que nos surpreendeu foi a correlação em si”, explica Trumble. Ainda que os investigadores previssem que a baleação aumentasse o stress, não esperavam que os níveis hormonais diminuíssem em simultâneo com as reduções à atividade baleeira. “Estas baleias espelham verdadeiramente o seu ambiente, podendo ser usadas de forma semelhante ao canário na mina de carvão”, acrescenta.

A caça à baleia não foi o único fator de stress que os investigadores identificaram. De 1939 a 1945, níveis elevados de cortisol indicam que os níveis de stress das baleias eram altos, ainda que estivessem a ser mortas menos baleias. Contudo, havia um outro fator de stress na época: uma guerra mundial. “Suspeitamos que este aumento no cortisol durante a Segunda Guerra Mundial resulta, provavelmente, do ruído dos aviões, das bombas, dos navios, et cetera”, diz Trumble. 

Depois de 1970 — e, em particular, depois de 1990 — os investigadores observaram uma tendência preocupante: os níveis de cortisol aumentavam rapidamente com o aumento da temperatura das águas. Isto parece indicar que as alterações climáticas são também um fator de stress

O aumento da temperatura das águas poderá afetar os animais de inúmeras formas — desde a alteração da localização e abundância de presas, até efeitos diretos sobre a sua fisiologia, devidos a águas mais quentes (afinal de contas, não basta às baleias ligar o ar condicionado para refrescar as suas casas). Trumble revela que, ele e a sua equipa, ainda estão a tentar determinar ao certo de que forma é que as alterações climáticas atuam como fator de stress.

Serão necessários mais estudos, uma vez que a correlação com a temperatura se baseia, apenas, nos dados recolhidos dos rolhões de seis baleias. Adicionalmente, Kellar diz que gostaria que fossem tidas em conta outras variáveis, como a causa de morte do animal, uma vez que o processo natural de envelhecimento pode afetar os níveis hormonais.

Porém, tal não significa que não exista uma correlação com o clima. “As fraquezas do estudo são meramente um reflexo das dificuldades inerentes à abordagem de uma questão histórica a esta escala”, esclarece Kellar. 

A melhor forma de esclarecer tudo isto seria através do estudo de mais rolhões — e é justamente isso que Trumble conta fazer. A equipa tem dezenas de rolhões para analisar, diz. “Não percam os próximos capítulos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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