Como a Caça Furtiva Está a Fazer com que os Elefantes Percam as Presas

Em Moçambique, investigadores tentam compreender o porquê de alguns elefantes estarem a nascer sem presas — e as consequências deste fenómeno

Published 15/11/2018, 18:01 WET, Updated 5/11/2020, 06:02 WET
Um raro traço genético que faz com que os elefantes nasçam sem presas fez com que ...

Um raro traço genético que faz com que os elefantes nasçam sem presas fez com que muitos exemplares tivessem uma hipótese mais elevada de sobreviver durante a Guerra Civil de Moçambique, parcialmente financiada pela caça furtiva e o contrabando de marfim. Cerca do um terço dos elefantes-fêmea nascem sem presas.

Fotografia de ElephantVoices

 

OS MAIS ANTIGOS ELEFANTES do Parque Nacional de Gorongosa, em Moçambique, carregam as marcas permanentes da guerra civil que assolou o país durante 15 anos: muitos deles caminham sem presas. São os últimos sobreviventes de um conflito que matou 90% da sua comunidade. Os elefantes foram perseguidos e mortos por causa do marfim das suas presas, utilizado para financiar o conflito armado. 

Este fenómeno deu vantagem aos elefantes de Gorongosa que, graças a um acaso genético, nasceram sem presas. Estatísticas recentes sugerem que cerca de um terço das fêmeas — da geração nascida a seguir à guerra que terminou em 1992 — nunca desenvolveram as suas presas. Em condições normais, esta ausência de presas só se verificaria em cerca de 2% a 4% da população feminina de elefantes africanos.

Há várias décadas, existiam cerca de 4000 elefantes no Gorongosa, afirma Joyce Poole — especialista em comportamento de elefantes e exploradora da National Geographic que se dedica a estudar os paquidermes do parque. Contudo, a seguir à guerra civil, essa contagem caiu a pique para a ordem dos três dígitos. Tendo compilado alguns estudos recentes — ainda por publicar —, Joyce explica-nos que das 200 fêmeas adultas conhecidas, 51% das que sobreviveram à guerra — animais com pelo menos 25 anos —, não apresentam presas. E 32% dos elefantes-fêmea nascidos após o conflito nasceram sem presas.

As presas dos machos são maiores e mais pesadas que as das fêmeas da mesma idade, afirma Poole, que é também diretora-científica de uma organização sem fins lucrativos chamada ElephantVoices. “Mas, uma vez que a caça furtiva foi, efetivamente, extremamente intensiva, a dada altura os caçadores começaram a concentrar-se nas fêmeas mais velhas”, explica-nos Poole. “Com o passar do tempo, à medida que as populações de elefantes foram envelhecendo, começou-se a observar uma mudança na proporção de fêmeas sem presas.”

Porém, esta tendência não é exclusiva de Moçambique. Noutros países com histórias semelhantes verifica-se o mesmo tipo de padrão. Na África do Sul, este fenómeno foi particularmente extremo — 98% das fêmeas do Parque Nacional dos Elefantes do Addo não tinham presas no início do século.

Uma matriarca sem presas desloca-se com as suas crias, numa planície do Parque Nacional de Gorongosa.

Fotografia de Jen Guyton

“A ausência de presas nos elefantes do Addo é incrível e sublinha o facto de a caça furtiva ter um impacto que vai muito além dos indivíduos que remove diretamente de uma população”, explica-nos Ryan Long, um ecologista comportamental da Universidade do Idaho e explorador da National Geographic. “As consequências destas alterações dramáticas nas populações de elefantes ainda estão só a começar a ser estudadas.”

Josephine Smit, que estuda o comportamento dos elefantes enquanto investigadora do Southern Tanzania Elephant Program, afirma que entre os elefantes-fêmea que acompanha no Parque Nacional de Ruaha — uma área que registou uma elevada atividade de caça furtiva nos anos 70 e 80 —, 21% das fêmeas com mais de cinco anos de idade não têm presas. Tal como em Gorongosa, estes números são mais elevados entre os animais mais velhos. Cerca de 35% das fêmeas com mais de 25 anos não têm presas, afirma. Em elefantes entre os cinco e os vinte cinco anos cerca de 13% não apresentam presas. (Smit, doutoranda da Universidade de Stirling, na Escócia, afirma que estes dados ainda não foram publicados, tendo, contudo, apresentado alguns resultados numa conferência sobre vida selvagem em dezembro.)

A caça furtiva também fez com que os tamanhos das presas dos elefantes diminuíssem consideravelmente nas regiões onde esta era mais intensa, como no sul do Quénia. Um estudo de 2015 comparou as presas de elefantes capturados entre 2005 e 2013 com as de elefantes abatidos entre 1966 e 1968 (ou seja, antes da caça furtiva se ter intensificado nos anos 70 e 80) e encontrou diferenças incontestáveis. Elefantes que sobreviveram a esse período de intensa caça furtiva apresentam presas muito mais pequenas — com cerca de um quinto do comprimento nos machos e um terço nas fêmeas.

O padrão repetiu-se com as gerações seguintes. Em média, os elefantes-macho nascidos depois de 1995 apresentam presas mais curtas que as dos seus antepassados dos anos 60 em cerca de 21% — nas fêmeas a diferença é de 27% para o mesmo período. De acordo com os autores do estudo, “apesar das pistas que os dados recolhidos nos fornecem em relação ao papel da genética no comprimento das presas serem algo indiretas”, estudos efetuados em ratos, babuínos e até em humanos sugerem que o comprimento dos incisivos — de certa forma semelhantes às presas dos elefantes — está “substancialmente ligado à hereditariedade genética."

Uma fêmea sem presas, nas florestas do Parque Nacional de Gorongosa, a quem foi instalado um localizador GPS na coleira, de modo a que os investigadores possam seguir os seus movimentos e, assim, ter um conhecimento mais profundo dos seus hábitos.

Fotografia de Jen Guyton

AS CONSEQUÊNCIAS DA AUSÊNCIA DE PRESAS NOS ELEFANTES

Apesar da ausência de presas nos elefantes provocada pela atividade humana, estes parecem estar a conseguir sobreviver de uma maneira saudável, afirma Poole. Os cientistas afirmam que é possível que a quantidade significativa de indivíduos com estas características, e as suas comunidades, possam estar a alterar os seus comportamentos, e querem perceber se, por exemplo, estes indivíduos têm áreas vitais de maiores dimensões, pois podem precisar de extensões territoriais maiores para conseguirem encontrar alimentos.

As presas são essencialmente dentes muito grandes. Contudo, são utilizadas em muitas tarefas do quotidiano dos elefantes: escavar em busca de água ou de minerais que lhes são vitais e se encontram no solo, derrubar árvores em busca de alimentos fibrosos, e ajudar os machos a disputarem as fêmeas entre si.

O trabalho desempenhado pelos elefantes com recurso às suas presas também é vital para outros animais. “Quando os elefantes fazem buracos no solo em busca de água, ou quando derrubam árvores, estão simultaneamente a ajudar muitos animais de menores dimensões que dependem deles”, explica-nos Long. As presas também são instrumentos fundamentais na construção de habitats. Certos lagartos, por exemplo, preferem constituir os seus lares em árvores que foram arranhadas ou mesmo derrubadas por elefantes em busca de alimentos.

Se, realmente, se verificar que os elefantes estão a mudar as suas preferências no que toca aos sítios que escolhem para viver, dependendo de para onde decidirem ir, isto poderá ter repercussões muito significativas no ecossistema à sua volta. “Cada uma destas alterações no comportamento destes animais pode levar a uma reconfiguração da distribuição de elefantes em toda a paisagem, e é muito provável que esse tipo de alterações de grande escala tenha consequências no ecossistema”, afirma Long.

Long e uma equipa de investigadores nas áreas da ecologia e da genética estão a começar a estudar a forma como os elefantes sem presas vivem as suas vidas. Em julho, no Parque Nacional de Gorongosa, a equipa começou a monitorizar os movimentos de seis fêmeas adultas de manadas diferentes— metade com presas, metade sem. Foi-lhes colocado um localizador GPS, colhidas amostras de sangue e fezes, e o plano é monitorizar os movimentos dos animais durante cinco anos — ou até acabar a bateria nos dispositivos de localização —, com periódicas recolhas de fezes dos animais para que se possa analisar a dieta destes. 

O seu objetivo é reunir mais informação sobre os hábitos destes animais e o seu genoma. Long ambiciona perceber como é que os elefantes que não podem usufruir do auxílio das presas (porque não as têm) alteram os seus comportamentos de modo a garantirem o acesso à nutrição de que necessitam.

Rob Pringle, da Universidade de Princeton, planeia analisar fezes em busca de pistas não só sobre a dieta, mas também sobre os parasitas e os micróbios que habitam o interior dos elefantes. Outro colaborador, Shane Campbell-Staton, biólogo da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, analisará o sangue dos elefantes, em busca de respostas sob a forma como a genética poderá estar envolvida com a ausência de presas nestes animais.

“A forma como este fenómeno passa de geração em geração é, ainda, enigmática” confessa-nos Campbell-Staton. A ausência de presas parece ocorrer de uma forma desproporcionada entre as fêmeas. Faz sentido que machos sem presas tivessem muita dificuldade em lutar pelas fêmeas com que pretendiam acasalar, afirma. Contudo, se este traço estivesse, tradicionalmente, relacionado com o X — transmitido de mães para filhos através cromossoma X, isto é, que ajuda a determinar o sexo e transporta genes correspondentes a vários traços hereditários —, uma vez que os machos recebem o cromossoma X das suas mães, seria de esperar que houvesse uma grande população de machos sem presas. “Contudo, não é o que se verifica. Os machos sem presas são raríssimos entre os elefantes africanos”, explica-nos.

Joyce Poole corrobora esta afirmação, afirmando que em toda a sua carreira só viu três ou quatro machos sem presas — nenhum dos quais em Gorongosa.

CONTORNAR AS ADVERSIDADES

Apesar de ainda não terem sido efetuadas comparações das caraterísticas nutricionais e comportamentais entre elefantes com e sem presas, Smit afirma que, a julgar pelas suas observações informais, os elefantes sem presas parecem ter encontrado maneiras de contornar este seu handicap.

“Já vi elefantes sem presas a descascarem troncos de árvores com a tromba — por vezes, até usam os dentes.” Também é possível que se façam valer de outros elefantes, afirma. Outra hipótese é a de estes elefantes sem presas se concentrarem noutros tipos de árvores, mais fáceis de descascar, ou árvores que já foram fustigadas por outros elefantes — conferindo-lhes assim alguma vantagem.

A recente proibição do comércio de marfim, na China e nos Estados Unidos, pode ajudar a reduzir a procura de presas de elefante. Contudo, é difícil prever quanto tempo será necessário para normalizar a desproporção entre elefantes com e sem presas, bem como as características originais das próprias presas. Entre os elefantes asiáticos, por exemplo, uma longa história de caça furtiva com o mesmo intuito — bem como a remoção de elefantes com presas dos seus habitats para que fossem utilizados como animais de trabalho — terá provavelmente contribuído para os elevados índices de ausência de presas na região.

“Se observar elefantes asiáticos, verá que as fêmeas não têm presas, e, dependendo das comunidades de elefantes e do país em questão, a maioria dos machos também não”, explica-nos Poole. Os motivos desta assimetria nos índices de ausência de presas entre elefantes africanos e elefantes asiáticos são ainda desconhecidos.

Porém, Poole e outros investigadores apontam para o facto de em algumas zonas da Ásia onde historicamente a procura do marfim foi intensa — tal como em África —, os índices de ausência de presas são elevados, evidenciando, assim, que os humanos estão a deixar uma marca incontestável nas comunidades do maior mamífero da Terra.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler