Como os Cães Podem Ajudar a Encontrar Cinzas Humanas Após os Incêndios

Cães altamente treinados — um deles ajudou nas buscas do corpo de Amelia Earhart — usam os seus narizes apurados para encontrar restos mortais de humanos cremados.

Publicado 2/11/2018, 15:33
Piper, uma border collie do Institute for Canine Forensics, avisa o seu tratador que encontrou os ...
Piper, uma border collie do Institute for Canine Forensics, avisa o seu tratador que encontrou os restos mortais cremados de alguém que faleceu no interior de uma casa que ruiu, tomada pelas chamas, durante o incêndio de Carr, na Califórnia.
Fotografia de FOTOGRAFIA POR LYNNE ENGELBERT

Ninguém deveria ter de passar pela experiência traumática de perder um ente querido duas vezes. Alguns cães estão a ajudar a evitar que isso aconteça.

Quando os incêndios florestais, como os que assolaram a Califórnia no último verão, se aproximam de zonas habitadas, não há tempo para proteger bens materiais. Os residentes abandonam as suas casas levando consigo apenas o essencial. Entre as coisas que têm de ser deixadas para trás, contam-se objetos como as cinzas de um ente querido, geralmente guardadas dentro de uma urna, em cima de uma prateleira ou da lareira. Porém, agora, já é possível recuperar essas cinzas, graças à ajuda de cães profissionalmente treinados que as recuperam de entre os destroços das casas que ruíram nos incêndios.

“Estas pessoas estão completamente devastadas”, afirma Lynne Engelbert do Institute for Canine Forensics, que usa cães especialmente treinados para detetar restos mortais de seres humanos cremados. (Veja fotografias de cães utilizados em operações de busca a serem treinados para detetarem restos mortais humanos.)

Os restos mortais de humanos cremados têm um odor distinto que os cães detetam facilmente, mesmo que se encontrem entre os destroços de uma casa que ardeu por completo na sequência de um incêndio florestal — falamos de cenários que atingem cerca 815 graus celsius.

Estes cães “não estão focados em detetar o odor de uma pessoa”, esclarece Engelbert. “Eles estão a tentar farejar cinzas humanas.”

O Incêndio de Carr Fire, que aconteceu na Califórnia e durou 39 dias, entre julho e setembro deste ano, destruiu mais de mil habitações e queimou cerca de 93 hectares. Sete pessoas que viram as suas casas consumidas pelas chamas contactaram o Institute for Canine Forensics e pediram ajuda para encontrar os restos mortais dos seus entes queridos — um serviço que é prestado gratuitamente, a menos que o local tenha sido comprometido pela presença de humanos. Os cães utilizados nestas operações de busca conseguem farejar as cinzas que estão à procura mesmo que estas estejam subterradas a cerca de 20 centímetros de profundidade — e às vezes numa questão de poucos minutos.

O fotógrafo Jeff Frost capturou imagens extraordinárias dos incêndios que assolaram a Califórnia em 2015.

“Quando nos deslocamos a um local, temos de lidar com emoções muito fortes”, explica-nos Engelbert, uma bombeira experiente que, há trinta anos, realiza operações de busca com cães, incluindo as que tiveram lugar em Nova Iorque depois no dia 11 de setembro de 2001. “Quando é hora de nos virmos embora, há abraços, lágrimas e sentimentos muito afetuosos.”

 “É por isso que faço este trabalho,” confessa-nos.

Piper, Jasper, e Jett— todos eles estiveram presentes nas operações que, recentemente, tiveram lugar no rescaldo do Incêndio de Carr Fire, e ajudaram a recuperar cinzas de humanas, incluindo as de alguns nativos norte-americanos há muito falecidos. Em 2017, Piper e Engelbert voaram até à ilha de Nikumaroro, no Kiribati, para ajudar na operação de busca do corpo de Amelia Earhart, um esforço levado a cabo por uma equipa do Institute for Canine Forensics com o apoio da National Geographic e do International Group for Historic Aircraft Recovery.

Todos os quatro cães envolvidos na operação detetaram vestígios humanos debaixo de uma árvore, na ilha onde alguns objetos tinham sido encontrados: um canivete, um espelho de maquilhagem compacto, um puxador de um fecho-ecler e alguns potes de vidro. Contudo, não havia no local quaisquer sinais de ossos humanos que pudessem ter sido identificados como pertencentes a Earhart ou o seu piloto, Fred Noonan.

COMO FUNCIONA O NARIZ

O extraordinário olfato dos cães — até 100 mil vezes mais apurado que o dos humanos — deve-se, em parte, a uma estrutura conhecida como recuo olfativo (direita), um labirinto de ossos extremamente finos alinhado com milhões de recetores de odores que, por sua vez, se ligam a neurónios que comunicam com o cérebro, onde os diferentes aromas são analisados. Com a capacidade de farejar cerca de cinco vezes por segundo, um cão está constantemente a examinar o que o rodeia e até consegue perceber por qual das narinas lhe chega um cheiro.

SUPERNARIZES

Esta capacidade para detetar odores tão subtis só é possível devido aos incríveis narizes dos cães. Estes animais conseguem cheirar pelo menos uma parte por bilião, uma sensibilidade pelo menos três vezes superior às dos aparelhos criados por humanos para o mesmo efeito. Comparados com os narizes humanos, os dos cães são cerca de 100 mil vezes mais precisos.

Segundo um estudo publicado em 2016 na plataforma Frontiers in Veterinary Science, os cães conseguem detetar o equivalente a “uma gota de um líquido derramado num recipiente com o tamanho de vinte piscinas olímpicas.”

Os cães têm centenas de milhões de recetores olfativos — comparativamente, os humanos têm apenas uns poucos milhões —, e as suas narinas são capazes de detetar aromas de forma independente. É como se o nariz dos cães tivesse a capacidade de “cheirar em estéreo.”

Estas superpoderes olfativos permitem-lhes detetar bombas, pessoas desaparecidas, e até patologias clínicas como o cancro.

Quando os humanos recompensam os cães por estes serem capazes de detetar determinados aromas, os animais aprendem a desenvolver a sua própria sensibilidade para esses cheiros — e a ignorar todos os outros. É assim que são treinados os cães utilizados em operações de busca.

 

 

Piper, a border collie, fareja o chão à procura de ossos humanos escondidos na floresta, durante um exercício de treino do Institute for Canine Forensics, em Saratoga, na Califórnia.
Fotografia de LAURA MORTON, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Segundo Sue Stejskal, oficial-adjunta e treinadora de cães de busca forense do St. Joseph County Sheriff Department, no Michigan, qualquer cão pode desenvolver estas capacidades. Contudo, há raças que trabalham melhor com os humanos, e têm mais aptidão para se concentrarem e alcançarem o objetivo com sucesso.

No que se prende com o treino destes cães, o processo é semelhante a outros tipos de treino, explica-nos Stejskal: “Temos de descobrir o que é que dá alegria ao cão e dar-lho sempre que ele conclui uma tarefa com sucesso.”

Por exemplo, Stejskal treinou uma spaniel canadiana, a Maple, para detetar percevejos. Alinhou várias latas de tinta com buracos, cujo interior tinha enchido com várias coisas. Uma das latas continha percevejos. Quando Maple enfiou o nariz na lata que continha os percevejos e farejou, o cão recebeu uma recompensa. Há medida que o tempo ia passando Stejskal ia diminuindo a quantidade de percevejos que colocava na lata. Depois, começou a introduzir algumas distrações: percevejos mortos, brinquedos, comida — continuando a recompensar Maple sempre que esta escolhia a lata correta.

Separadamente, Stejskal treinou Maple para que esta se sentasse sempre que se deparasse com odor dos percevejos. O passo seguinte passaria por relacionar estes dois comportamentos: encontrar o cheiro, sentar e receber a recompensa. Por fim, a parte mais difícil: Stejskal fez algumas alterações à rotina de treino de modo a que Maple aprendesse a detetar o cheiro dos percevejos em qualquer ambiente.

AO TRABALHO

Quando estava a trabalhar nas operações conduzidas no seguimento do Incêndio de Carr Fire, Engelbert colocou à prova Piper, uma border collie preto-e-branco, tal como havia feito aquando das buscas pelos restos mortais de Earhart. Piper é um dos oito cães treinados para operações deste género que são especializados em detetar restos mortais humanos cremados. Os treinados do Institute for Canine Forensics estão neste momento a preparar mais três cães para esse trabalho.

A forma como Engelbert avisa Piper que está na hora de ir trabalhar é muito simples: basta dizer-lhe “Queres ir trabalhar?” A Piper está sempre pronta.

Uma vez no local onde uma casa foi devastada pelas chamas, os proprietários indicam às equipas de busca onde os restos mortais dos seus entes queridos estavam guardados, geralmente na cozinha ou em cima da lareira. Uma urna pequena contém o equivalente a cerca de três colheres de sopa de cinzas, afirma Engelbert, e essa foi a porção mais pequena que já viu o seu cão ser capaz de detetar.

Quando Piper encontra cinzas humanas, um processo que, por vezes, pode demorar apenas dois minutos, a cadela deita-se ao lado, ou mesmo em cima delas, explica-nos Engelbert.

Os arqueólogos Alex DeGeorgy e Michael Newland separam e recuperam cinzas humanas de uma casa móvel completamente destruída pelas chamas. Identificam-nas pela cor e textura, e por pequenos fragmentos de osso que sobreviveram ao processo de cremação.
Fotografia de LYNNE ENGELBERT

De seguida, arqueólogos voluntários começam a limpar a área, isolando aquilo que os cães indicaram e limpando as primeiras camadas de cinza com escovas até chegarem às cinzas dos restos mortais humanos. Estas “são facilmente reconhecíveis — com uma textura mais granular, por vezes até contêm pequenos fragmentos de ossos”, afirma Engelbert.

Depois de descobrirem o que procuravam, os cães são recompensados. No caso de Engelbert, o prémio consiste em pegar numa toalha enrolada e fazer o “jogo da corda” com a sua cadela — a brincadeira em que cada elemento pega numa ponta da corda e a puxa-a, tentando assim fazer avançar o seu adversário.

O reforço positivo também pode ser exercido pelos proprietários cujos restos mortais dos seus entes queridos foram recuperados.

Os cães “recebem muito amor e carinho... e isso é terapêutico para as pessoas pelo simples facto de eles lá estarem”, ilustra Engelbert. “Além de ajudarem a encontrar cinzas humanas, os cães também exercem terapia sobre os proprietários fragilizados.”

 

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