A Grande Maioria dos Animais no Comércio de Vida Selvagem Não Está Protegida

Enquanto os elefantes, os rinocerontes e os tigres estão nas luzes da ribalta, milhares de outras espécies estão a ser comercializadas e a cair no esquecimento.quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Adorável não é uma palavra que normalmente se associe a lagartos, mas as lagartixas de crocodilo de olhos vermelhos parecem apelar a todos os sentidos. Com os seus olhos enormes a fazerem lembrar figuras de animação japonesas, com contornos na cabeça que fazem lembrar dinossauros e espinhas dorsais que fazem lembrar crocodilos, estes lagartos que cabem na palma da mão parecem ter rastejado diretamente de um universo Pokémon. Talvez não seja surpreendente que se tenham transformado em animais de estimação exóticos muito populares em lugares como os EUA.

O comércio internacional das 10 espécies de lagartixas de crocodilo de olhos vermelhos que vêm de locais como a Nova Guiné, as Ilhas Salomão e a Indonésia, parece estar a aumentar. Contudo, ninguém faz ideia da quantidade de lagartos que são apanhados na natureza todos os anos, onde vão parar ou se as suas populações estão a ser afetadas. Isto acontece porque, tal como milhares e milhares de outras espécies, não estão incluídas na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), o Tratado com 45 anos de idade que supostamente deveria assegurar que o comércio internacional de vida selvagem não coloca animais e plantas em vias de extinção.

Para as espécies como a lagartixa de crocodilo de olhos vermelhos, que são negligenciadas pelo CITES, o comércio “está basicamente aberto para todos”, diz Chris Shepherd, diretor executivo da Monitor, uma organização sem fins lucrativos que trabalha no sentido de acabar com o comércio insustentável da vida selvagem. “Estamos a perder muitas espécies porque o comércio passa despercebido.”

Baseado no estatuto de conservação das espécies, ao abrigo do CITES, os animais e as plantas são adicionados a uma de três listas que determinam os níveis de comércio permitidos. As espécies com um elevado risco de extinção estão geralmente interditas ao comércio, enquanto que as menos ameaçadas podem ser comercializadas mediante a atribuição de uma licença. Os signatários do CITES – praticamente todos os países do mundo – registam as suas transações numa base de dados aberta.

No entanto, as plantas e os animais não são listados automaticamente no CITES. Em vez disso, cabe individualmente a cada país adicionar à respetiva lista as espécies potencialmente ameaçadas pelo comércio.

De acordo com Shepherd, os países costumam aguardar até que uma espécie atinja o ponto de crise antes de proporem ao CITES a sua listagem. Nessa altura, pode ser tarde demais para reverter as perdas. Em muitos casos, tais como o das lagartixas de crocodilo de olhos vermelhos, os estudos dos animais ou plantas feitos na natureza podem ser muito escassos, não sendo possível determinar a forma como as suas populações se estão a comportar.

O problema, diz Shepherd, é desconcertante pela sua magnitude: “Existem tantas, ou talvez até mais, espécies de comércio não listadas no CITES, como as que estão listadas.” Por exemplo, apenas 8 por cento das 10 700 espécies de répteis mundiais são reconhecidas pelo tratado. A lagartixa de crocodilo de olhos vermelhos não é uma delas.

Para clarificar este assunto, Shepherd e o coautor Jordi Janssen fizeram um estudo caso, publicado este mês, sobre o comércio internacional de lagartixas de crocodilo de olhos vermelhos. As Ilhas Salomão emitem proteções nacionais para as suas lagartixas de crocodilo e a Papua-Nova Guiné bane a exportação dos lagartos, ao passo que a Indonésia emite uma quota de exportação anual de 3 500 indivíduos.

São poucos os países que apresentam relatórios sobre espécies não listadas no CITES, mas os EUA, e até certo ponto, a Europa, são exceções. Shepherd e Janssen pesquisaram informações no comércio dos EUA e da Europa e recolheram dados sobre todos os vestígios de lagartixa de crocodilo de olhos vermelhos. Também tentaram examinar as importações do Japão – outro dos grandes mercados para animais de estimação exóticos, muitos dos quais não estão listados no CITES – mas descobriram que as agências alfandegárias do país não fornecem uma descrição detalhada para além de “lagarto”.

De acordo com as descobertas feitas no estudo, 15 630 lagartixas de crocodilo de olhos vermelhos entraram nos EUA entre 2000 e 2014. Quase todos foram capturados na natureza. A maior parte veio da Indonésia, mas alguns vieram das Ilhas Salomão, apesar das leis internas do país proibirem a sua captura e exportação. As autoridades europeias monitorizam apenas algumas espécies selecionadas de lagartixa de crocodilo, mas mesmo assim registaram 6 805 importações entre 2000 e 2016. Os investigadores descobriram alguns exemplares de lagartixa de crocodilo de olhos vermelhos à venda em lojas de animais e em exposições no Japão, indicando que o país os está a importar.

Em suma, os dados disponíveis sobre o comércio de lagartixa de crocodilo de olhos vermelhos são “confusos, irregulares e longe de estarem completos”, como reportam Shepherd e Janssen. Os poucos dados que eles conseguiram trazer à luz do dia dependem inteiramente da diligência e da boa vontade dos países preocupados em criarem registos e de os tornarem acessíveis ao público.

Na realidade, a maior parte das agências alfandegárias só se preocupa com as espécies listadas no CITES, diz John Scanlon, antigo secretário geral do CITES, que não esteve envolvido na pesquisa. Se entram animais que não estão listados, “não existe uma verificação para apurar se os espécimes foram trazidos legalmente e não existe obrigação de denunciar o comércio.”

HERÓIS POR UMA CAUSA

Tudo isto inclui muitas espécies ameaçadas e até outras em risco crítico de extinção, para além das muitas que estão protegidas pelas leis nacionais dos seus países. “As espécies não estão no CITES porque ainda ninguém abraçou a sua causa,” diz Vincent Nijman, antropólogo na Universidade de Oxford Brookes, no Reino Unido. “Se ninguém propuser uma lista, então nada irá acontecer.”

O problema afeta desproporcionalmente répteis, anfíbios, aves canoras, invertebrados, peixes e pequenos mamíferos – espécies que são facilmente negligenciadas e que, ainda assim, são comercializadas entre centenas de milhares e milhões todos os anos. Os caçadores locais de vários países relatam que muitos destes animais são cada vez mais difíceis de encontrar ou que desapareceram por completo, diz Shepherd, mas a maior parte das pessoas que fazem as leis, os ativistas e os conservadores da natureza permanecem alheios ao sofrimento destas espécies.

“Na sua maioria, as pessoas têm uma visão muito limitada do que é o comércio de vida selvagem a nível internacional, porque estão habituadas a ver sempre as mesmas espécies, que na sua maior parte são mamíferos, e que na pior das hipóteses são comercializadas na ordem das dezenas de milhar”, diz Nijman. “Para as pessoas que têm realmente a noção da dimensão do comércio de vida selvagem, dezenas de milhares é uma quarta-feira à tarde.”

Esperar que os países adicionem de repente dezenas de milhares de espécies negligenciadas ao CITES não é realista. “Quem é que tem tempo para olhar para todas estas espécies e para perceber qual é a magnitude do comércio internacional e a forma como isso afeta as populações selvagens?” Pergunta Nijman. “Seria necessário um exército de pessoas – não é exequível.”

Para contornar este problema, em vez de se listar uma espécie de cada vez, Shepherd defende que se adicionem grupos inteiros de animais e plantas que são ativamente comercializados, tal como já foi feito com papagaios, primatas, aves de rapina, orquídeas e gatos. Assim, caberia aos países monitorizarem e reportarem todo o comércio de espécies que se encontrassem sob esse manto protetor, fornecendo antecipadamente um aviso se as populações começassem a declinar.

“Claro que as pessoas se irão queixar de que tudo isto envolve muita papelada, mas prefiro ver mais papelada a ser processada do que espécies a desaparecerem”, diz Shepherd. “Se os países se preocupam com a conservação da sua vida selvagem, então a prevenção à sua exploração abusiva é essencial.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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