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O Megalodonte Está Definitivamente Extinto – o Tubarão-Branco Pode Ser o Culpado

Uma nova análise feita aos antigos gigantes sugere que estes desapareceram um milhão de anos antes do que se pensava, levantando questões sobre a origem do seu desaparecimento.Tuesday, February 26

Por Maya Wei-Haas
Os Megalodontes eram os governantes dos antigos oceanos. Criaturas enormes que cresciam até aos 18 metros de comprimento e ostentavam mandíbulas com mais de um metro e oitenta de largura.

As praias estavam desertas perto de Santa Cruz, na Califórnia, a 23 de dezembro de 2007. As temperaturas eram baixas para os padrões de Cali, e o vento soprava agressivamente pela extensão de areia.

Mas isso não impediu o paleontólogo Robert Boessenecker de examinar avidamente as praias geladas. Na altura, Boessenecker era um aluno graduado da Universidade Estadual do Montana e procurava fósseis, quando de repente encontrou o seu prémio: um dente azul-esverdeado escuro do tamanho da sua mão – “não há muito maior que isto", diz, espreitando de um penhasco.

Este achado raro pertence ao antigo Otodus megalodon, o maior tubarão que alguma vez deslizou pelos oceanos da Terra. Apesar de no cinema os filmes continuarem a alimentar a conspiração de que estes animais de quase 20 metros de comprimento ainda se escondem nas profundezas, o megalodonte está inquestionavelmente extinto. A descoberta de Boessenecker naquele dia de inverno deu início à sua investigação de uma década para descobrir exatamente quando é que estes gigantes se despediram da sua existência terrena.

Agora, ele tem finalmente a sua resposta: o megalodonte desapareceu há cerca de 3.6 milhões de anos, cerca de um milhão de anos antes das estimativas anteriores. A nova data, publicada a 12 de fevereiro na revista PeerJ, coincide com a ascensão do grande tubarão-branco moderno, insinuando que essa alteração na hierarquia marinha pode ter ditado a morte do poderoso "meg".

CAÇA AO MEGALODONTE

Para resolver este caso arquivado, Boessenecker (agora professor adjunto no College of Charleston) e os seus colegas começaram à procura de mais vestígios do megalodonte na Califórnia, criando um compêndio de descobertas na costa oeste. Rapidamente expandiram a sua investigação a outras regiões, para terem uma visão mais abrangente sobre este desaparecimento.

As amostras na sua lista crescente não eram apenas aquelas encontradas pelos investigadores, mas também as de fósseis publicados na literatura e descobertas escrutinadas, mais recentemente, em coleções de museus. Várias vezes durante esta caça, a equipa tentou publicar o seu trabalho. E, embora as críticas em geral fossem positivas, diz Boesenecker, parecia haver sempre uma razão para a rejeição, incluindo preocupações sobre o comprimento do papel (a versão final tem 47 páginas, sem contar com os apêndices).

Ainda assim, eles não eram os únicos à caça de pistas. Em 2014, Catalina Pimiento, da Universidade da Flórida, e Christopher Clements, da Universidade de Zurique, publicaram a sua análise sobre a extinção do megalodonte, utilizando os registos disponíveis. Essa equipa concluiu que estas criaturas podiam ter permanecido nos oceanos até há cerca de 2.6 milhões de anos, um mero meio milhão de anos antes dos nossos antigos parentes humanos, o Homo erectus, terem dado os seus primeiros trémulos passos.

TRABALHO MORTÍFERO DE DETETIVE

Para este último estudo, Boessenecker e os seus colegas combinaram as suas investigações com os dados do estudo de 2014, num megacatálogo. Mas estavam reticentes em relação às descrições recentes de alguns dos dentes e vértebras. Algumas amostras estavam partidas ou alteradas quimicamente pelo elemento fósforo – evidência de que não permaneceram estáveis durante o milénio e poderiam estar a emular uma idade mais jovem. Outras pareciam ter origens duvidosas, tornando impossível posicioná-las com precisão no tempo. Outras precisavam ainda de reajustes de data que levassem em consideração as análises mais recentes dessas amostras.

Apesar de no cinema os filmes continuarem a alimentar a conspiração de que estes animais de quase 20 metros de comprimento ainda se escondem nas profundezas, o megalodonte está inquestionavelmente extinto. Os cientistas estão agora a tentar descobrir quando e porquê?

Boessenecker estima que tenham excluído 10 a 15% das amostras que não possuíam a exatidão necessária no espaço e no tempo. E, enquanto examinavam os registos restantes, um a um, começou a surgir um padrão.

“Não era exatamente o Woodward e o Bernstein na Biblioteca do Congresso no filme Os Homens do Presidente”, diz Boessenecker. “Mas é muito trabalho clássico de detetive, e chato.” No final, os resultados eram claros: é provável que o megalodonte tenha desaparecido há 3.6 milhões de anos, com margens de erro que significam que a data poderia ser de 3.2 milhões de anos e possivelmente tão antiga quanto 4.1 milhões de anos.

"Isto é muito mais credível e suportado de forma robusta pelos dados", diz Tom Deméré, curador de paleontologia do Museu de História Natural de San Diego, que já trabalhou com Boessenecker e foi o revisor do estudo de 2014, de Pimiento e Clement.

"Eu acho ótimo que tenham sido feitas mais investigações sobre esta espécie", diz Pimiento. Ela concorda com a exclusão de algumas das amostras, particularmente aquelas que mudaram fisicamente de posição com o tempo, ou aquelas que tiveram origens incertas. Mas não concorda necessariamente com a exclusão de amostras com uma ampla faixa de idades possíveis.

"Podemos obter uma incerteza maior relativamente à sua época de extinção mais provável, mas não estaria a ignorar informações valiosas", diz num e-mail.

VÁRIOS SUSPEITOS

Obter uma leitura mais precisa acerca da extinção do megalodonte é vital para entender as forças que impulsionaram o desaparecimento destas mega-bestas. As teorias do passado estavam frequentemente ligadas a uma extinção marítima mais ampla, que aconteceu quando as cortinas se fecharam na época do Plioceno, há cerca de 2.6 milhões de anos.

Antes desta alteração, as águas estavam repletas de seres estranhos: morsas desdentadas, preguiças aquáticas, baleias de barbatanas anãs e muito mais. Cerca de 36% dos primeiros géneros marinhos não sobreviveram até à época seguinte, estimam Pimiento e os seus colegas num estudo feito em 2017. Depois, começaram a surgir grupos de animais mais recentes.

Alguns astrónomos sugeriram que a extinção estava ligada a uma supernova que envolvia o planeta em radiação prejudicial ao muão. Mas Pimiento e Boessenecker enfatizam que o evento de extinção poderia ter sido muito mais lento, e que estariam muitos fatores em jogo. Por um lado, a Terra estava a passar por um fluxo poderoso durante esse período de tempo, diz Pimiento. O mundo estava a arrefecer, portanto os glaciares estavam a expandir-se e os níveis da água do mar a diminuir, alterando o espaço oceânico disponível.

"Para algumas espécies, pode ter sido principalmente o clima", diz Pimiento. “Para outras, pode ter sido a extinção anterior de outras espécies. Para outras, a evolução de novas espécies com a extinção de outras (através da competição). Para outras, pode ter sido tudo isso combinado ”.

FACTOS SOBRE OS OCEANOS

TUBARÃO CONTRA TUBARÃO?

E com base no novo estudo, Boessenecker acredita que pode ter sido algo completamente diferente a acabar com o megalodonte. Curiosamente, as novas datas coincidem com a disseminação global do parente menor e feroz da criatura, o grande tubarão-branco, Carcharodon carcharias, que fez a sua estreia mundial há cerca de quatro milhões de anos. Apesar de nesta janela de tempo terem existido outras alterações capazes de afetar o megalodonte, estas aconteceram maioritariamente em zonas localizadas.

"Nada podia ser mais emancipatório", diz Boessenecker.

Bretton Kent, da Universidade de Maryland, que estuda tubarões antigos, elogia o rigor do estudo, mas sugere a possibilidade de outro culpado: o moderno tubarão-tigre, Galeocerdo cuvier, que outrora permaneceu nas mesmas zonas marinhas do megalodonte juvenil. Ainda assim, ele acrescenta que não está convencido de que a competição entre as espécies pudesse ser a causa de tal declínio.

É difícil dizer com exatidão o que aconteceu nos mares antigos, e são necessários mais estudos para fechar realmente o caso, diz Boessenecker.

“Uma das coisas fascinantes da paleontologia é que podemos explorar esta história de vida”, acrescenta Deméré. "Quanto mais pessoas tivermos a procurar, e quanto mais de perto este arquivo da história da Terra for examinado, mais aprendemos."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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