Aracnídeo Cavernícola – Assustador, Raro e… Descoberto Por Uma Portuguesa

A viagem de Ana Sofia Reboleira a Timor-Leste valeu bem a pena – acaba de descobrir uma nova espécie de aracnídeo. Mas o que são exatamente estes animais?

Publicado 26/03/2019, 15:39
Sarax timorensis, uma nova espécie de aracnídeo descoberta pela bióloga Ana Sofia Reboleira.
Sarax timorensis, uma nova espécie de aracnídeo descoberta pela bióloga Ana Sofia Reboleira.
Fotografia de Ana Sofia Reboleira

Sarax timorensis é uma nova espécie de aracnídeo descoberta pela bióloga Ana Sofia Reboleira durante a primeira expedição do projeto Fatuk Kuak hosi Timor Lorosa'e 2016. Nesta expedição, que durou um mês, uma equipa portuguesa de espeleólogos, liderada pela cientista, explorou as grutas e cavernas de Timor-Leste, levando a cabo trabalhos de prospeção biológica. A equipa procurava sinais de novas espécies daquele habitat tão particular.

A expedição organizada por quatro grupos de espeleologia portugueses, e que contou com o apoio da Fundação do Oriente, da Universidade Nacional de Timor Lorosa'e e com o grupo de espeleólogos timorense Juventude Hadomi Natureza, durou um mês.

E foi numa gruta na província de Lautém, no leste de Timor-Leste, que o aracnídeo cavernícola – batizado de Sarax timorensis, por ser exclusivo de Timor-Leste - deu de caras com Ana Sofia Reboleira.

SARAX TIMORENSIS: O MAIS RECENTE ARACNÍDEO AMBLIPÍGIO

A espécie Sarax timorensis é um aracnídeo – família à qual pertencem as aranhas, carraças ou escorpiões – da ordem dos amblipígios. Este termo significa que são animais tipicamente tropicais e subtropicais, encontrados em ambientes quentes e húmidos, e com certas características específicas.

VIDA ADAPTADA ÀS CAVERNAS

Este aracnídeo cavernícolo descoberto revela traços de adaptação à vida nas cavernas: olhos diminutos, pobre visão e fraca pigmentação. Estas são consequências diretamente relacionadas com a falta de luz solar nos habitats – afinal, são cavernas.

É comum que os artrópodes subterrâneos, como este aracnídeo, mostrem uma tendência para o gigantismo, como consequência do desenvolvimento em ecossistemas atróficos – com fraca luminosidade solar direta – e oligotróficos – pobre em nutrientes.

De facto, a Sarax timorensis é a segunda maior espécie da família Charinidae, tendo o espécime descoberto um comprimento total de 18,82mm. Contrariamente ao que é comum nestes animais, a espécie Sarax timorensis apresenta dois pares de olhos laterais, em vez de três ou de nenhum.

Grutas de Timor-Leste
Fotografia de ANA SOFIA REBOLEIRA

LABORATÓRIOS VIVOS

Segundo a publicação de janeiro de 2019 na revista ZooKeys, o Sudoeste Asiático era, até então, uma zona considerada pobre em biodiversidade no que respeita a amblipígios.

No entanto, segundo a bióloga Ana Sofia Reboleira, o meio subterrâneo das ilhas constitui um verdadeiro “laboratório vivo” para os estudos deste tipo. Os organismos das ilhas estão mais isolados, tornando mais fácil o estudo dos processos de evolução.

Ainda no seu blogue, a cientista explica que as altas temperaturas e elevada humidade sentidas dentro e fora das grutas impõem limitações no trabalho de campo, por se tratar de uma combinação que está “no limite da sobrevivência humana”. Ainda assim, com ou sem limitações, a expedição que se focou nas províncias de Baucau, Lautém e Viqueque, foi bem sucedida. Além de ter descoberto uma nova espécie, foi possível fazer um levantamento das espécies cavernícolas do sudoeste asiático.

NÃO É UMA ARANHA

E se pergunta porque nos referimos à espécie Sarax timorensis como aracnídeo, em vez de aranha, a resposta é simples: a Sarax timorensis não é uma aranha. As aranhas são aracnídeos, mas também o são escorpiões.

Os amblipígios, como este aracnídeo, são inofensivos aos humanos: não mordem, não atacam e não têm glândulas venenosas. Também não têm glândulas de seda, pelo que não verá nenhuma teia perto deles. Quando ameaçados, podem agarrar-se aos dedos, usando os pedipalpos – apêndices que fazem lembrar pinças, nos lados da boca - e causar pequenos ferimentos. Estes pedipalpos, que são normalmente bastante desenvolvidos, podem funcionar como os do louva-a-deus.

PREDADORES PACIENTES

Outra das diferenças entre os aracnídeos amblipígios e as aranhas é que, apesar de terem oito patas, os primeiros andam apenas sobre seis delas, num estilo parecido ao dos caranguejos. As patas frontais apresentam, assim, uma função sensorial, como antenas.

Ao não produzirem seda também têm outros métodos de capturar presas. Os aracnídeos amblipígios são frequentemente chamados predadores “sit and wait” (senta e espera) porque depois de “sentirem” as suas presas, e quando estas já estão a uma distância curta, saltam e capturam-nas, esmagando-as.

59 ESPÉCIES, 6 GÉNEROS

Mas esta não é a única contribuição de Ana Sofia Reboleira para a ciência. A bióloga e espeleóloga, que é também Professora de História Natural na Universidade de Copenhaga, na Dinamarca, já identificou apenas na última década 59 novas espécies e 6 novos géneros. Ana Sofia Reboleira descobriu em Portugal um escaravelho subterrâneo (Iberoporus pluto) na Serra do Sicó e um pseudo-escorpião muito raro (Lusoblothrus aenigmaticus) no Algarve. Também explorou a caverna Krubera-Voronya na Geórgia, a segunda maior e mais profunda conhecida, e lá descobriu um milpés (Heterocaucaseuma deprofundum) sem olhos, sem pigmentação, típico cavernícola.

A descrição da espécie Sarax timorensis, na revista científica ZooKeys contou com a colaboração do investigador de pós-doutoramento Gustavo Silva de Miranda, do Smithsonian Institution, nos EUA. Na Universidade de Copenhaga, Sofia Reboleira coordena ainda um laboratório dedicado ao estudo de sistemas espeleológicos à escala global.

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