Animais

Nova Tarântula Tem Uma Saliência Invulgar Nas Costas

Descoberta numa zona pouco estudada de Angola, esta aranha faz emboscadas às suas presas durante a noite.segunda-feira, 4 de março de 2019

Por Carrie Arnold
Esta tarântula recém-descoberta, chamada Ceratogyrus attonitifer, tem uma saliência semelhante a um chifre macio nas suas costas.

Assim que John Midgley regressou ao acampamento e abriu o pequeno frasco, soube que tinha encontrado algo incrível.

À luz do fogo crepitante, no sudeste de Angola, o entomologista examinou uma tarântula de aparência estranha que acabara de capturar. Um chifre grande e ligeiramente macio sobressaía das costas do animal.

Midgley não é um especialista em aranhas, por isso enviou as fotografias da sua descoberta ao seu colaborador, Ian Engelbrecht, na Universidade de Pretória.

"O Ian acusou-me de ter alterado as fotografias no Photoshop", brinca Midgley, do Museu KwaZulu-Natal, na África do Sul.

Ele saiu na noite seguinte e encontrou várias tarântulas com o mesmo chifre.

“Foi aí que soube que tínhamos descoberto uma nova espécie. Durante um processo destes é raro ter a certeza, com tanta antecedência, de que encontrámos algo de especial”, diz.

A equipa deu à nova tarântula o nome de Ceratogyrus attonitifer, do latim “portador de espanto”, e publicou os seus resultados recentemente na revista African Invertebrates.

PESCA DE ARANHAS

Após uma guerra civil que durou 26 anos e terminou em 2002,  a biodiversidade de Angola permaneceu um grande mistério – ninguém sabia o que tinha sobrevivido.

Em 2015, a National Geographic Society e uma equipa internacional de cientistas lançaram o Projeto Wilderness Okavango, para pesquisar e proteger essa importante, e pouco valorizada, região. O projeto convidou vários especialistas, incluindo Midgley, para irem ao centro e leste de Angola descobrir as espécies lá presentes.

Em novembro de 2016, Midgley estava a percorrer Angola à procura de insetos e aranhas, examinando o solo em busca de sinais dos seus amigos de várias patas.

Até que, num pantanal sazonal coberto de vegetação, na orla de um lago (Midgley não disse exatamente onde, para evitar o roubo destas tarântulas para o comércio de animais de estimação), ele identificou uma série de buracos com 30 centímetros de largura e pouco mais de meio metro de profundidade.

A Ceratogyrus attonitifer mostra as suas presas e recua numa postura defensiva.

Com o intuito de indagar se havia algo vivo no seu interior, inseriu uma folha de relva num dos buracos. E logo de imediato, algo se agarrou à extremidade da folha. Ele regressou naquela noite e, assim que sentiu uma dentada na ponta da folha, retirou lentamente a tarântula da sua toca.

“Era muito semelhante a pescar”, diz Midgley. “Se não agarrarmos com força, elas conseguem arrancar a folha das nossas mãos.”

PREDADORA

O chifre grande nas costas da tarântula classificou-a imediatamente como membro do género Ceratogyrus. Muitas aranhas desse grupo têm saliências semelhantes, mas são muito menores e mais rijas. A protuberância na parte de trás da Ceratogyrus attonitifer é tão longa quanto o seu abdómen e é gordurosa em vez de musculada.

Os cientistas sabem muito pouco acerca da nova aranha – incluindo a funcionalidade do chifre – mas sabem que a C. attonitifer é um predador de emboscadas noturnas que dorme durante o dia no fundo da toca e que passa as noites perto da entrada da mesma, esperando para atacar insetos e outras presas.

A aranha usa veneno para matar e dissolver as suas vítimas, sorvendo a “sopa” de nutrientes após o veneno ter executado o seu trabalho.

SEDENTÁRIAS PECULIARES

Apesar de Midgley ter encontrado dez tocas nos 300 metros quadrados em torno do seu acampamento – uma densidade alta para um predador – ele só encontrou a espécie perto de um lago em particular.

“As ‘aranhas babuíno’ são realmente peculiares em relação à zona onde vivem”, diz Heather Campbell, entomologista ecológica da Universidade Harper Adams, que não esteve envolvida no estudo. “Aranhas babuíno” é um termo genérico para a subfamília de tarântulas nativas de África. “Uma espécie pode fazer toca num determinado tipo de areia; a outra pode construir ao lado de um tipo específico de rocha.”

Se o seu habitat for perturbado, estas aranhas não podem simplesmente mudar de sítio. Isso, combinado com a sua longa esperança de vida e uma baixa taxa reprodutiva, torna esta nova espécie vulnerável.

Este tipo de pesquisa básica sobre biodiversidade ajuda muito a desvendar os mistérios do Okavango.

“Sempre que saímos, encontramos coisas novas e surpreendentes”, diz Campbell.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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