Animais

Morreu o Último Rinoceronte-de-Sumatra Macho da Malásia

Uma fêmea na Malásia e cerca de oitenta na Indonésia são tudo o que resta da espécie.quarta-feira, 29 de maio de 2019

Por Jason Bittel
Um rinoceronte macho chamado Harapan, no Centro de Conservação de White Oak, na Flórida, onde viveu pouco tempo, antes de ser transferido para o Santuário de Rinocerontes de Sumatra, na Indonésia.

Morreu Tam, o último rinoceronte-de-sumatra macho da Malásia – um golpe muito sério para a espécie que se encontra em perigo de extinção, e que já está extinta no país.

Descoberto perto de uma plantação de óleo de palma em 2008, Tam foi capturado e transferido para a Reserva de Vida Selvagem de Tabin, no estado de Sabá. Os esforços de procriação de Tam com duas rinocerontes fêmeas – Puntung, capturada em 2011, e Iman, capturada em 2014 – não deram resultados.

Depois da eutanásia feita em 2017 a Puntung devido ao cancro, Iman é agora a última representante da espécie na Malásia. Com as décadas de perda de habitat e caça furtiva estimam-se que existam menos de 80 rinocerontes-de-sumatra na natureza, com a sua maioria a concentrar-se na ilha de Sumatra. Os restantes estão espalhados por Kalimantan, no Bornéu indonésio.

Os rinocerontes-de-sumatra são tão poucos que os especialistas acreditam agora que o isolamento é a maior ameaça à existência continuada da espécie. Isto acontece porque as fêmeas desta espécie, se ficarem muito tempo sem acasalar, podem desenvolver quistos e miomas nos seus canais reprodutivos. (A infertilidade de Puntung e de Iman resultou do mesmo problema.)

Foi por isso que, em 2018, as principais organizações de conservação sem fins lucrativos do mundo, incluindo a National Geographic Society, anunciaram uma colaboração sem precedentes chamada Sumatran Rhino Rescue. O objetivo? Encontrar e capturar com segurança o maior número possível de rinocerontes selvagens, para que estes possam ser reunidos para a reprodução em cativeiro.

“A morte de Tam sublinha a importância vital dos esforços colaborativos que impulsionam o projeto Sumatran Rhino Rescue”, disse por email Margaret Kinnaird, líder de práticas de vida selvagem na WWF internacional.

“Temos de capturar os rinocerontes que restam isolados em Kalimantan e Sumatra, e temos de dar o nosso melhor para os encorajar a reproduzir.”  

Declínio Lento
O estado de saúde de Tam começou a deteriorar-se acentuadamente em finais de abril, quando este começou a perder o apetite e a sofrer alterações no seu estado de alerta, disse ao jornal The Star Augustine Tuuga, diretor do Departamento de Vida Selvagem de Sabá. Os testes de urina revelaram que os rins e talvez outros órgãos do rinoceronte começaram a falhar.

As autoridades não conseguem explicar o declínio tão repentino na saúde de Tam, mas é algo que pode simplesmente ter acontecido devido à velhice. Estimava-se que Tam estaria na casa dos 30 anos, sendo que a esperança média de vida destes animais é de apenas 35 a 40 anos, disse Augustine ao jornal Straits Times de Singapura.

“Depositámos muita esperança nas capacidades de reprodução de Tam em cativeiro, mas essa esperança desapareceu quando as duas fêmeas que restavam em Tabin se revelaram incapazes de ter fetos”, diz Kinnaird.

Apesar de Tam não conseguir produzir uma prole, a sua presença em cativeiro ajudou-nos a compreender melhor a sua espécie.

"O trabalho que a Borneo Rhino Alliance fez com técnicas avançadas de reprodução, especialmente a colheita de óvulos e a tentativa de criar embriões, levou-nos um passo mais adiante na compreensão da biologia da espécie", diz Susie Ellis, diretora executiva da International Rhino Foundation.

“O público precisa de conhecer o quão precária é a sobrevivência dos rinocerontes-de-sumatra”, diz Ellis. "A perda de Tam representa aproximadamente 1% da sua população."

Esperança Renovada
Por muito trágica que a morte de Tam possa parecer, também é uma chamada de atenção para encontrarmos mais animais na natureza, diz Kinnaird, que tem coordenado, durante os últimos dois anos, os esforços internacionais da WWF na conservação de rinocerontes-de-sumatra. (A WWF também faz parte da coligação Sumatran Rhino Rescue.)

A boa notícia é que no final do ano passado a coligação conseguiu capturar uma nova fêmea, chamada Pahu. A sua transferência as para novas instalações de reprodução em Kelia foi tão importante que a rinoceronte recebeu uma escolta da polícia e de tratores de limpeza de deslizamentos de terras. (Leia: “Capturado o Primeiro Rinoceronte-de-Sumatra em Tentativa Desesperada Para Salvar a Espécie.”)

Aparentemente, segundo os especialistas, Pahu é reprodutivamente saudável, diz Kinnaird; ela prospera no seu novo lar e, com sorte, pode ter companhia em breve.

“A nossas pesquisas mais recentes indicam que existem outros rinocerontes a vaguear pelas florestas de Kalimantan”, diz Kinnaird, “o que me dá uma esperança renovada”.

“Precisamos de nos manter completamente focados na salvação dos restantes 80 rinocerontes-de-sumatra, usando uma combinação de proteção intensiva com criação em cativeiro, colaborando com os habitantes locais para que estes sintam orgulho no rinoceronte enquanto herança biológica”, diz Ellis. “Esta é uma batalha que não nos podemos dar ao luxo de perder.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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