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6 Mortes Recentes Aproximam Baleias Raras da Extinção

Só restam cerca de 400 baleias-francas-do-atlântico-norte, e esta taxa de mortalidade ultrapassa a sua capacidade de reprodução.terça-feira, 30 de julho de 2019

Por Tom Cheney
Fotografias Por Nick Hawkins
Investigadores fazem uma necropsia a “Punctuation”, uma baleia-franca-do-atlântico-norte que deve o seu nome às cicatrizes que tem no corpo. A baleia foi encontrada morta no Golfo de São Lourenço, uma de seis baleias que apareceram mortas desde o início de junho.

CHÉTICAMP, NOVA ESCÓCIA – A sua pele é lisa e preta, e quando pressiono os meus dedos na baleia, parece borracha esponjosa. No arco profundo da sua boca, as longas placas de barbas são tão retas que nem parecem naturais. Punctuation, nome dado pelos investigadores à baleia devido às cicatrizes que tem na cabeça (fazem lembrar hífens e vírgulas), tem 15 metros de comprimento e pesa 10 vezes mais do que um elefante adulto. As suas dimensões desafiam as leis da natureza.

Vivas, as baleias-francas-do-atlântico-norte são animais sociais que gostam de brincar. Com as suas bocas enormes, corpos volumosos e barbatanas peitorais robustas, são encantadoras – de um modo pré-histórico, quase sobrenatural. Apesar da sua estatura impressionante, Punctuation é agora uma sombra de si própria. O seu corpo, avistado a flutuar no oceano no dia 20 de junho, foi rebocado até à costa para uma necropsia científica, em Chéticamp, na Nova Escócia.

Depois de terem sido caçadas quase até à extinção no início do século XX, as baleias-francas-do-atlântico-norte foram salvas em 1937 por uma interdição à pesca baleeira. Mas apesar da sua população ter estabilizado, a espécie nunca conseguiu recuperar. Todos os anos aparecem algumas baleias-francas mortas, geralmente devido a colisões com navios ou porque ficam presas em cordas de pesca. No início dos anos 2000, existiam cerca de 500 baleias-francas-do-atlântico-norte. Mas desde 2010, a sua população tem declinando a um ritmo alarmante, e os cientistas acreditam que atualmente existam cerca de 400 baleias-francas vivas no Atlântico Norte.

Uma baleia-franca-do-atlântico-norte nas águas do Golfo de São Lourenço. Estas baleias, em perigo de extinção, estão ameaçadas principalmente pelas colisões com navios e pelos materiais de pesca à deriva no mar.

Mas as coisas mudaram drasticamente em 2017, quando 17 baleias foram encontradas mortas ao largo da costa leste da América do Norte – 12 em águas canadianas e 5 em águas norte-americanas. Quase o dobro das mortes registadas nos cinco anos anteriores. Os investigadores e os reguladores não conseguiam perceber o que estava a acontecer.

Normalmente, nos anos anteriores, as baleias só viajavam até à Baía de Fundy, pouco acima da fronteira entre os EUA e o Canadá, onde as rotas marítimas tinham sido ajustadas para proteger as baleias. Mas como a distribuição de copépodes – zooplâncton – a principal fonte de alimentação das baleias, se alterou mais para norte, as baleias fizeram o mesmo.

No Golfo de São Lourenço, a indústria pesqueira e as empresas de exportação não estavam preparadas para lidar com a presença das baleias.

Wolverine
Em 2018, o governo canadiano instituiu um novo regime de interdição às zonas de pesca, alterou as rotas de exportação e restringiu a velocidade das embarcações. Morreram apenas três baleias – e nenhuma no Canadá. Embora nesse ano não tenham nascido crias, a comunidade das baleias-francas suspirou de alívio pela contenção no número de mortes.

Janeiro de 2019 despertou novas esperanças: nasceram 7 baleias-francas nas zonas de reprodução ao largo da Geórgia e da Flórida. Mas a alegria não durou muito tempo.

No dia 4 de junho, um avião de pesquisa avistou Wolverine, uma baleia macho com 9 anos de idade, a flutuar numa poça de sangue, no Golfo de São Lourenço. Wolverine tinha sido atingido pela hélice de um navio e ficou com três cicatrizes paralelas nas costas – levando os investigadores a darem-lhe o nome da personagem da banda desenhada. Na sua curta vida, Wolverine sobreviveu a três incidentes conhecidos com cordas de pesca, mas conseguiu sempre libertar-se. Muitas das baleias não têm essa sorte e acabam por se afogar, ou morrem de fome caso os materiais de pesca comprometam a sua capacidade de se alimentar.

Um investigador remove uma costela do corpo de “Wolverine”, uma baleia-franca com 9 anos de idade. A equipa de necropsia procurava hematomas, ossos partidos e hemorragias, algo que pudesse indicar um traumatismo contuso consistente com uma colisão com um navio. Os resultados preliminares não revelaram a sua causa de morte, mas as análises adicionais de amostras de tecido ainda podem vir a fornecer uma resposta.

Uma equipa de investigadores e veterinários da Fisheries and Oceans, da Canadian Wildlife Health Cooperative e da Marine Animal Response Society fizeram a necropsia a Wolverine e divulgaram os resultados preliminares no dia 9 de junho. A causa de morte não foi conclusiva, mas as amostras de tecido, cujos resultados podem demorar meses, ainda podem vir a revelar o que aconteceu.

Por outro lado, o corpo de Punctuation não deixa margem para dúvidas.

Aprender com ‘Punctuation’
Na praia de Chéticamp, as vísceras da baleia saem de uma laceração com quase 2 metros, na parte inferior das costas, um ferimento que só pode ter sido provocado por um encontro com um navio. Eu tento ficar a favor do vento, para evitar o cheiro da carne podre, que é pungente e estranhamente doce.

Os investigadores e veterinários começam a dissecar o corpo de Punctuation. Usam lâminas afiadas para atravessar as grossas camadas de gordura. O veterinário Pierre-Yves Daoust está praticamente dentro do cadáver. As suas botas ficam rapidamente manchadas de sangue. O cheiro piora à medida que o dia aquece, mas Daoust não parece estar incomodado, ou pelo menos não mostra sinais disso. Com a ajuda de uma escavadora, as enormes camadas de gordura são retiradas do corpo de Punctuation, caindo na areia com um som pesado.

A equipa recolhe várias amostras de tecidos e órgãos, para serem catalogadas e enviadas para os investigadores que as irão analisar e aprender mais sobre a saúde da população de baleias-francas. "É importante que estas mortes não sejam em vão", diz Tonya Wimmer, da Marine Animal Response Society, uma organização de resgate sediada em Halifax, no Canadá. Eventualmente, até os ossos de Punctuation serão retirados e levados.

Wimmer diz que Punctuation, antes de estar ferida, tinha uma saúde excelente. "Eu nunca vi camadas de gordura tão grossas. A baleia tinha um aspeto muito saudável, não fosse ter sido atingida por um gigante”, diz Wimmer.

Todas as baleias-francas que se perdem no Atlântico Norte são um rude golpe para a espécie, mas a morte de Punctuation é particularmente má. Esta baleia era muito prolífica, nos seus 38 anos de vida teve 8 crias. Desde 1981, ano em que foi avistada pela primeira vez enquanto cria, foi avistada inúmeras vezes e era muito conhecida entre os investigadores.

Entregar estas notícias tristes à comunidade de investigação é um trabalho que recai frequentemente sobre Wimmer. “Estes são alguns dos piores emails e telefonemas que tenho de fazer. As pessoas conhecem estes animais e ficam com o coração destroçado”, diz Wimmer, com uma tensão palpável na voz.

De repente, na praia, instala-se o silêncio entre a equipa de necropsia. Os trabalhos param. Notícias de uma terceira baleia-franca morta circulam entre a equipa – também encontrada a flutuar no Golfo de São Lourenço.

Um grupo de seis investigadores senta-se num banco de areia, em silêncio e completamente abatidos. Uma investigadora senta-se sozinha na praia, com o rosto escondido entre as mãos. A tragédia de 2017 parece estar a repetir-se.

Mais mortes
Em 48 horas, são encontradas mais 3 baleias mortas, elevando a contagem total de fatalidades para 6. Em apenas 4 semanas, perdemos 1.5% da população de baleias-francas no Atlântico Norte. O mais preocupante é que 4 das baleias mortas são fêmeas reprodutivas, das quais atualmente existem menos de 100. Para piorar as coisas, nas primeiras semanas de julho foram encontradas mais 3 baleias-francas presas em cordas de pesca.

"É uma crise", diz Sean Brillant, biólogo de conservação na Canadian Wildlife Federation, uma das muitas ONG que trabalha na investigação de baleias-francas e prevenção de riscos. “A população de baleias-francas tem vindo a diminuir ao longo dos anos, mas este declínio acentuado é muito preocupante”, diz Sean.

Cordas de pesca enroladas na cabeça e na boca de uma baleia-franca-do-atlântico-norte, no Golfo de São Lourenço. Estes acontecimentos podem fazer com que as baleias morram de fome ou se afoguem. No local estava uma equipa de resgate, mas depois de um esforço de 3 horas, a baleia conseguiu libertar-se.

Um estudo publicado este ano na revista Diseases of Aquatic Organisms mostrou que, nos últimos 15 anos, as mortes de baleias-francas onde as causas de morte foram apuradas, 88% devem-se a colisões com navios e a cordas de pesca que ficam presas aos animais. Este trabalho também revelou que não haviam registos de mortes naturais de baleias adultas ou jovens. O estudo concluiu que, sem alterações significativas, a extinção das baleias-francas-do-atlântico-norte "é praticamente uma certeza". Estima-se que a espécie pode estar funcionalmente extinta em 20 anos.

Kim Davies, professora assistente de biologia na Universidade de New Brunswick, diz que ainda não podemos fazer prognósticos. Kim realça que as restrições à indústria pesqueira e aos limites de velocidade das embarcações, em vigor este ano no Golfo de São Lourenço, foram baseadas nos dados de localização das baleias de anos anteriores. As baleias-francas estão a mudar os seus padrões de migração e de alimentação, provavelmente em resposta às alterações climáticas. Todos os anos, concentram-se em lugares diferentes e em momentos diferentes.

A investigação de Kim rastreia a distribuição de copépodes – dos quais as baleias se alimentam. A investigadora tem esperança que, com um conhecimento mais aprofundado sobre os movimentos da principal fonte de alimento das baleias, os cientistas consigam prever onde é que as baleias vão estar, algo que poderia permitir estratégias de gestão mais personalizadas.

No entanto, até os cientistas terem esses dados, os reguladores têm poucas opções a não ser jogar pelo seguro, diz Amy Knowlton, cientista no Aquário de Nova Inglaterra, que investiga e cataloga a população de baleias-francas-do-atlântico-norte. Amy diz que as medidas de proteção "devem ser amplas em toda a sua extensão".

“Wolverine” sobreviveu a uma colisão com um navio e a três envolvimentos com cordas de pesca, mas em junho, foi encontrado morto. A sua causa de morte ainda está por determinar.

No dia 8 de julho, o governo canadiano tomou medidas para responder a este alerta. As zonas de limite de velocidade no Golfo de São Lourenço foram ampliadas para incluir mais áreas e classes de embarcações, a vigilância aérea foi aumentada em 70% e os critérios para as interdições às pescarias são agora consideravelmente mais conservadores.

Mesmo que essas medidas sejam bem-sucedidas na prevenção de novas mortes, o futuro da baleia-franca no Atlântico Norte permanece incerto. Mas a comunidade das baleias-francas não perdeu a fé.

As soluções não são rápidas nem fáceis, diz Sean Brillant. Ainda assim, o biólogo destaca a incrível cooperação entre a indústria, o governo, as ONG e os investigadores. "É uma equipa a trabalhar em uníssono", diz Sean. "Existe colaboração, comunicação e boa vontade."

Knowlton, que passou a sua carreira a estudar baleias-francas-do-atlântico-norte, sente o mesmo. “Todos nos importamos, e isso enche-me de esperança”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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