Animais

Nova Descoberta: Morcegos Regurgitam Néctar Para Alimentar as Crias

No reino animal, existem muitas mães que evoluíram de formas pouco convencionais para alimentar as suas crias, sacrificando por vezes as próprias vidas.quarta-feira, 24 de julho de 2019

Por Mary Bates
Um morcego “Glossophaga soricina” a alimentar-se de néctar. As fêmeas desta espécie alimentam as suas crias com um método nunca antes observado.

Todas as mães humanas sabem que manter um bebé alimentado e feliz pode ser uma tarefa complicada. É por isso que, no reino animal, algumas mães desenvolveram estratégias verdadeiramente criativas – e por vezes surpreendentes.

Por exemplo, todos os mamíferos produzem leite para as suas crias, mas algumas espécies também “servem a comida no prato”, por assim dizer.

É o que acontece com a espécie Glossophaga soricina, um morcego da América Central e do Sul que se alimenta de néctar de flores, como se fosse um beija-flor. Num novo estudo apresentado recentemente foi revelado que as mães desta espécie, para além do leite, alimentam as suas crias com néctar regurgitado. As crias de morcego lambem a boca das mães, que vomitam uma refeição doce. É a primeira evidência de alimentação boca-a-boca em morcegos de néctar.

O coautor do estudo, Andreas Rose, ecologista na Universidade de Ulm, na Alemanha, diz que a descoberta levanta algumas questões pertinentes.

“Será que é menos exigente para as mães, em termos energéticos, alimentarem as suas crias diretamente com néctar em vez de produzirem leite?” pergunta Andreas por email.

Também é possível que este comportamento tenha benefícios não nutritivos para os bebés morcego, como a transferência de micróbios intestinais, ou pode servir para ajudar a ensinar os processos sociais relacionados com a alimentação.

Para além dos morcegos, existem outros animais – como peixes, répteis e invertebrados – que fazem a comida dos bebés mamíferos parecer demasiado simples. Eis alguns exemplos incomuns de alimentos dados pelos progenitores às suas crias.

Peixes que alimentam crias com muco
Para a maioria dos peixes, os deveres parentais terminam quando as suas crias eclodem. Mas para um grupo de peixes ciclídeos, nativos do Rio Amazonas, chamados Symphysodon aequifasciatus, os pais agem quase como mamíferos nos cuidados da sua prole.

Peixes (Symphysodon aequifasciatus) recém-nascidos alimentam-se de muco do corpo de um dos seus progenitores, no Japão.

Nesta espécie, ambos os progenitores alimentam as crias com um muco segregado pelos seus corpos. Este comportamento pode durar até um mês, até os jovens peixes terem idade suficiente para se alimentarem sozinhos.

Para além disso, o conteúdo nutricional e imunológico do muco varia consoante o desenvolvimento dos jovens, muito semelhante com o que acontece com o leite dos mamíferos.

Cobras que se alimentam de sapos tóxicos
As cobras Rhabdophis tigrinus ficam venenosas a comer sapos – armazenando os compostos defensivos dos sapos em estruturas especializadas no pescoço. Estas cobras transmitem essas toxinas às suas crias através do ovo e da gema, armando quimicamente as suas proles antes de estas eclodirem.

Durante o período de gestação, as cobras parecem procurar deliberadamente presas venenosas. Os sapos venenosos são mais raros do que as suas presas normais, sendo por isso energicamente mais dispendioso procurá-los. Mas estas mães esforçam-se para que as suas crias sejam tão venenosas quanto possível desde o primeiro dia.

Aranhas que dão “leite” às crias
A Toxeus magnus, uma aranha nativa do Japão, alimenta as suas crias com uma espécie de leite durante várias semanas após a eclosão.

Os aracnídeos bebem este leite, que contém quase 4 vezes mais proteínas do que o leite de vaca, diretamente do corpo da mãe.

As mães aranha continuam a cuidar e a alimentar a sua prole durante mais de um mês, até os pequenotes serem quase adultos.

Mães cecílias alimentam as crias com a própria pele

Uma cecília fêmea com a sua prole. Estas crias arrancam e alimentam-se da pele da mãe, que volta a renascer a cada três dias.

Em algumas espécies de anfíbios semelhantes a vermes, chamadas cecílias, as crias comem a pele gordurosa da mãe. Depois de depositar os ovos, forma-se uma camada exterior gordurosa, rica em nutrientes, na pele da mãe. As crias, nascidas com um conjunto especializado de dentes, raspam e comem essa camada.

Os investigadores descobriram que na semana a seguir à eclosão dos ovos, as mães cecílias perdem cerca de um sétimo do seu peso para alimentar a prole.

O derradeiro sacrifício materno
Em algumas espécies de insetos e aracnídeos, as mães morrem para alimentar as crias. Este acontecimento dá pelo nome de “matrifagia” – comer literalmente a mãe. Ao deixarem que as crias se alimentem dos seus corpos nutritivos, as mães aumentam as probabilidades de sobrevivência dos filhotes.

A aranha Stegodyphus lineatus alimenta as suas crias regurgitando comida líquida durante cerca de duas semanas. Depois, a prole mata e consome a mãe.

Um estudo descobriu que após colocarem ovos, as fêmeas desta espécie começam a digerir os seus próprios corpos. Quando as crias a começam a comer, grande parte do seu abdómen já está liquidificado.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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