“A Fotografia Mais Difícil que Alguma Vez Tirei”

Uma caçada épica a um crocodilo-marinho “problemático” integrada num plano para salvar a espécie na Austrália.segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Roger Matthews (à esquerda) e Aaron Rodwell posam com um crocodilo-marinho de 450 quilos e 4,5 metros de comprimento, capturado e morto por ambos de forma legal, no Território do Norte da Austrália.
Roger Matthews (à esquerda) e Aaron Rodwell posam com um crocodilo-marinho de 450 quilos e 4,5 metros de comprimento, capturado e morto por ambos de forma legal, no Território do Norte da Austrália.
fotografia de TREVOR BECK FROST

Enquanto estava debaixo da árvore, no Território do Norte na Austrália, comecei a refletir sobre a vida do crocodilo-marinho que ali estava pendurado. Nascido há cerca de 50 anos, com pouco mais de 75 gramas, este réptil transformou-se num colosso com 450 quilos e 4,5 metros de comprimento. A sua eclosão aconteceu no final de um período intenso de 25 anos de caça comercial que deixou a espécie à beira da extinção. Era o predador perfeito, e eu temia que, de certa forma, poderia estar a celebrar a sua morte.

Captei esta fotografia para imortalizar uma caçada épica e os homens que nela participaram. Algumas pessoas podem presumir que os homens que mataram o crocodilo não respeitam o animal. Mas eu acabei por aprender que é possível os caçadores amarem as criaturas que abatem – e fazer parte de uma solução que pode salvar uma espécie. Esta era uma situação complexa que eu queria explorar desde que documentei a caça aos crocodilos para a National Geographic.

Em 1971, no Território do Norte, os crocodilos-marinhos tornaram-se numa espécie protegida. Integrada numa estratégia governamental de “conservação definida por incentivos”, uma determinada quantidade de ovos pode ser recolhida na natureza, com as crias a serem eventualmente criadas pela sua pele; e um número limitado de crocodilos, incluindo aqueles que ameaçam humanos, pode ser caçado anualmente. Mesmo com esta colheita regulamentada, a população de crocodilos-marinhos selvagens no Território do Norte cresceu de cerca de 5.000, no final dos anos 1960, para aproximadamente 100.000 na atualidade, um número que os cientistas afirmam estar perto do que acontecia antigamente. Para colocar esta questão em perspetiva: há 50 anos, no auge da caça comercial, as pessoas nadavam nos rios e lagoas da região; agora, ninguém se atreve.

OS NÚMEROS
1200: Limite de caça anual para os crocodilos-marinhos
no Território do Norte, menos de 2% da sua população total.
Na natureza, para criação, podem ser recolhidos até 90.000 ovos.
In Twitter

Ao longo de 4 anos, fiz 8 viagens ao Território do Norte para passar vários meses com os caçadores profissionais de crocodilos que aparecem nesta fotografia: Roger Matthews, à esquerda, e Aaron Rodwell, à direita. Durante esse período, aprendi muito. Estes homens adoram crocodilos; matar crocodilos não é algo que celebrem, embora admitam sentir uma certa adrenalina quando o fazem; e o perigo que enfrentam é muito semelhante ao perigo enfrentado pelo animal. Os caçadores precisam de se aproximar de um crocodilo para o matar, porque disparar contra um animal a grandes distâncias não surte efeito. A não ser que o tiro seja perfeito – cerca de 1 centímetro atrás da orelha, diretamente no cérebro – o crocodilo consegue fugir para dentro de água, onde sangrará até à morte... um destino que horroriza a maioria dos caçadores que conheço. Por isso, estes homens arriscam as suas vidas para evitar esta situação. Mas isso não significa que o animal tem uma morte rápida.

“A Fotografia Mais Difícil que Alguma Vez Tirei”
“A Fotografia Mais Difícil que Alguma Vez Tirei”
fotografia de NGM Maps

De acordo com a gíria oficial, este era um "crocodilo problemático". Em Arnhem Land, terra aborígene, o crocodilo esteve perto de matar uma mulher que estava a apanhar cobras aquáticas junto à margem de uma lagoa. O seu marido, Samuel Nayinggul, pediu que o animal fosse removido. E Aaron obteve uma autorização de emergência das autoridades de vida selvagem para o fazer.

A caçada começou pouco antes do pôr do sol e estendeu-se até às 3 da manhã. Roger conduziu o seu pequeno barco de alumínio pela lagoa, enquanto Aaron projetava um poderoso holofote de halogénio na superfície da água. Samuel serviu como guia. Eu estava na parte de trás do barco. Depois de 4 horas de busca, avistaram finalmente o crocodilo. Aaron espetou um arpão artesanal no animal, mas este conseguiu libertar-se do anzol e desapareceu debaixo de água. E passou mais uma hora.

Foi então que Roger me disse: “Sente-se já!” Aaron foi para a proa do barco com o holofote e com a sua arma improvisada, que tinha sido projetada para prender o animal, não para o matar. Enquanto Roger avançava com o barco, Aaron seguia o crocodilo com o holofote. Quando estávamos a cerca de um metro, Aaron espetou o arpão no seu pescoço. O crocodilo ficou completamente furioso. De repente, a embarcação guinou para o lado e derrubou Aaron para o chão do barco.

“O que aconteceu a seguir parecia um filme de Hollywood: o crocodilo começou a arrastar o barco.”

O que aconteceu a seguir parecia um filme de Hollywood: o crocodilo começou a arrastar o barco – não de uma forma violenta, mas o suficiente para demonstrar o quão forte era. Arrastou-nos pela lagoa durante mais de duas horas. Quando finalmente reapareceu à superfície, estava visivelmente exausto. Roger foi buscar uma corda e tentou atá-la em torno da sua mandíbula superior, para o subjugar.

E mais uma vez, o animal tinha outros planos. Lançou-se na nossa direção, abocanhou o barco de 5 metros e sacudiu-o como um cão faz com um brinquedo. Após uma longa batalha para o atar, Roger e Aaron conseguiram puxar a sua cabeça para dentro do barco. Depois, Roger prendeu as suas mandíbulas com fita adesiva. Com o animal dominado, colocaram um pano sobre os seus olhos para o acalmar e Roger usou um revolver de calibre 22 para acabar com a sua vida. Fiquei com uma profunda sensação de tristeza ao perceber que esta magnifica criatura já não existia.

A morte consegue ser trágica e bela, e eu dedico muito tempo a tentar captar imagens que o demonstrem. Tenho a noção de que nunca conseguiria tirar esta fotografia se Roger e Aaron estivessem com um ar de felicidade, ou triunfantes. Mas isso não aconteceu. Em vez disso, partilhámos todos um estranho momento de silêncio.

Depois desta imagem ter sido captada, o crocodilo foi desmembrado. Roger e Aaron removeram a sua cabeça, pele e cauda. Aaron salgou a pele, enrolou-a e colocou-a dentro de uma geleira, juntamente com a cabeça. Mais tarde, já em Darwin, a maior cidade no Território do Norte, a cabeça foi tratada com químicos para remover a carne. Algum tempo depois, o crânio foi vendido por cerca de €2.250. A pele foi enviada para curtume no sul da Austrália e vendida por cerca de €4.500. Foi o que Roger e Aaron receberam.

O homem que requisitou a remoção do crocodilo recebeu paz de espírito – e a cauda, para aproveitar a carne.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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