Cada Vez Há Mais Baleias no Porto de Nova Iorque. Porquê?

Em 2011, foram avistados alguns cetáceos nestas águas, mas agora são às centenas, surpreendendo cientistas e turistas.quarta-feira, 25 de setembro de 2019

PORTO DE NOVA IORQUE – "Está ali uma!", diz a naturalista Celia Ackerman ao comandante. "Atrás da bóia verde!"

O American Princess, uma embarcação de 29 metros que faz cruzeiros de observação de baleias, começou a sua viagem há 30 minutos e já avistou uma baleia, mas não estamos no Havai ou no Alasca. Estamos no porto de Nova Iorque, com vista para Coney Island e para a costa de Brooklyn.

Cerca de 30 turistas correm para ver o que está a acontecer e, momentos depois, surge o contorno distinto de uma baleia-jubarte. Gritos de alegria ecoam pelo barco. "Nunca vi uma baleia", diz Milo Bartolotta, de 15 anos, que está de férias com a sua família – vieram de Florença, em Itália. "Estou muito contente."

Este avistamento teria sido praticamente inimaginável há 20 anos atrás, quando as águas da cidade de Nova Iorque estavam entre as mais poluídas do mundo – um ensopado tóxico de produtos químicos e lixo. No entanto, graças às políticas ambientais bem-sucedidas, como a Lei da Água Limpa, a Lei das Espécies Ameaçadas e a Lei de Proteção dos Mamíferos Marinhos, as baleias estão de regresso à Big Apple.

Desde 2011, altura em que a organização sem fins lucrativos Gotham Whale registou 5 baleias-jubarte, o número de cetáceos avistados na cidade de Nova Iorque tem aumentado dramaticamente. Em 2018, os avistamentos subiram para os 272. Este ano promete bater esse recorde, com 377 baleias de espécies diferentes já avistadas nas águas em torno da cidade – a maioria são baleias-jubarte.

Como é que esta recuperação aconteceu? "Acho que elas estão aqui para me ver", brinca Paul Sieswerda, fundador da Gotham Whale, que faz parceria com a American Princess Cruises, uma empresa comercial de observação de baleias que oferece aos turistas a oportunidade de ver estes gigantes.

Na realidade, à medida que a qualidade da água foi melhorando e os níveis de poluição descendo, pequenas formas de vida oceânicas, como algas e zooplâncton, começaram a recuperar, fornecendo uma base alimentar essencial para o ressurgimento de peixes menhaden, um peixe de cardume que as baleias gostam de comer.

Nós não encontramos menhaden – coloquialmente chamado bunker – nos cardápios dos restaurantes porque são peixes oleosos que cheiram mal. Mas, para as baleias, é como se fosse caviar. As baleias devoram estes peixes durante o verão para aumentar as suas reservas de gordura, antes de regressarem aos trópicos, durante o inverno, para acasalar.

Quando espreitamos do barco, conseguimos ver cardumes enormes de menhaden à sua volta, amontoados para se protegerem dos predadores, um processo que os pescadores chamam de "bola de isca".

Outro motivo para o regresso das baleias deve-se às leis que protegem os mamíferos marinhos da caça e de outras atividades humanas – os séculos de caça às baleias, por exemplo, deixaram as baleias-jubarte à beira da extinção.

Historicamente, não se sabe quais são os tipos de baleia, ou quantas, cruzaram as águas da cidade de Nova Iorque, mas os cientistas acreditam que as baleias são um predador importante – e que o seu regresso à maior cidade do Atlântico é um bom presságio para a saúde do oceano a longo prazo.

Desafios urbanos
A vida perto desta cidade não é fácil.

Por um lado, as baleias enfrentam alguma competição pela sua comida favorita: as operações de pesca comercial ao largo da costa leste dos EUA estão agora direcionadas para a pesca de menhaden, para transformar o peixe em rações para animais e suplementos para humanos. Por exemplo, a Omega Protein, sediada na Virgínia, contrata pilotos para sobrevoar e observar as águas americanas na costa do Atlântico e do Golfo, para localizar os maiores cardumes de peixe.

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Paul está preocupado com o facto de a Omega Protein estar a pescar perto da zona de restrição – a 8 km da cidade de Nova Iorque – onde as baleias se costumam reunir para comer. Paul fez uma petição para alargar a zona de restrição até aos 320 km. A Omega Protein não respondeu ao pedido da National Geographic para fazer comentários sobre esta petição.

Para além disso, a cidade de Nova Iorque tem agora o porto mais movimentado da costa leste dos EUA, com mais de 20 navios alinhados para ancorar e descarregar a qualquer momento. Isto é sinónimo de colisões com baleias, que podem ser fatais.

"De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, desde 2016 registaram-se 103 mortes de baleias-jubarte", diz Howard Rosenbaum, cientista no Aquário de Nova Iorque da Wildlife Conservation Society.

“Cerca de 50% das baleias mortas apresentam sinais de traumas relacionados com a atividade humana, como colisões com navios, ou ficam presas em materiais de pesca. Em Nova Iorque e Nova Jersey foram registadas 28 mortes.”

Sons do mar
Para combater esta ameaça, a Instituição Oceanográfica Woods Hole e o Aquário de Nova Iorque uniram-se para fazer uma boia acústica de alta tecnologia, chamada Melville, que foi colocada 35 km a sul de Fire Island. As baleias comunicam entre si sobretudo através de sons, e cada espécie tem chamamentos distintos (e até dialetos).

Em 2016, quando o Melville foi ativado, começou imediatamente a detetar chamamentos de baleias, que são analisados e publicados online para os comandantes dos navios saberem a localização dos mamíferos marinhos e diminuir a velocidade de acordo com a situação.

"A bóia regista o que chamamos de percursos", diz Mark Baumgartner, da instituição Woods Hole, que estuda os dados do Melville no seu laboratório, em Massachusetts. "É o mesmo que ter um dispositivo mágico no piano e, quando tocamos, o piano produz as partituras. Só precisamos de entregar as partituras a um músico, que nos vai dizer o que estamos a tocar.”

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Melville – que tem o nome do autor de Moby Dick – captou vocalizações de baleia-sei, uma baleia que raramente é avistada, com 20 metros de comprimento, e vocalizações de uma das baleias mais ameaçadas do mundo, a baleia-franca-do-atlântico-norte. Só existem cerca de 400 baleias destas na Terra, uma espécie particularmente vulnerável a qualquer ameaça, incluindo as colisões com navios. (Leia sobre as mortes recentes de baleias-francas-do-atlântico-norte.)

Em dezembro deste ano, a Wildlife Conservation Society e a Instituição Woods Hole pretendem lançar ao mar mais duas bóias, financiadas pela empresa energética Equinor, que está a desenvolver um parque eólico na região. Mark está preocupado que a construção do parque eólico possa ser demasiado ruidosa, perturbando as baleias e interrompendo a sua comunicação.

“Temos a esperança de que a monitorização em tempo real das bóias nos ajude a mitigar estes efeitos”, acrescenta.

‘Uma coisa espantosa’
Com o barco a regressar lentamente ao ponto de partida, em Far Rockaway, fazemos um balanço do dia.

Duas baleias. Saltos fora da água: zero. Não vimos nenhuma baleia a saltar, com a boca toda aberta, para devorar milhares de peixes de uma vez.

Pergunto a Celia Ackerman, a naturalista a bordo do American Princess, se está dececionada. "Não", responde com firmeza. "Sempre que vemos uma baleia nestas águas, é uma coisa espantosa."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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