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Martina Panisi – Protege Caracóis Gigantes em São Tomé e Príncipe

O projeto 'Forest Giants' de Martina Panisi e da sua equipa dedica-se a difundir a importância da conservação da biodiversidade em São Tomé e Príncipe e ao papel de cada pessoa nessa proteção, usando como símbolo uma espécie nativa da ilha.terça-feira, 17 de setembro de 2019

Por National Geographic
Martina com um Búzio-d’Obô em São Tomé e Príncipe. As pessoas da comunidade tentam criar esta espécie por ser mais rara hoje em dia e pelo seu valor medicinal.

Em 2018 Martina Panisi recebeu uma bolsa Early Career da National Geographic com um dos objetivos enaltecer o valor e diversidade das espécies invertebradas e o seu papel fundamental na saúde dos ecossistemas. Atualmente, a Doutoranda da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa difunde uma história à população de São Tomé e Príncipe.

O projeto Forest Giants nasceu com a necessidade urgente de sensibilizar o público local e internacional acerca da proteção da biodiversidade nativa em São Tomé e Príncipe. Estudos recentes apontam para a existência de cerca de 80 espécies de caracóis e lesmas nas ilhas de São Tomé e Príncipe, sendo que mais do que metade delas são endémicas.

Para esse fim, Martina decidiu usar a história do desaparecimento rápido de uma espécie culturalmente importante nas ilhas: o Búzio-d'Obô (Archachatina bicarinata), um caracol gigante terrestre endémico das ilhas utilizado para fins medicinais e alimentares. Esta espécie, como outras nas ilhas, está a ser esquecida pelas novas gerações que, para além de não a conhecer, não sabe as ameaças associadas à floresta e às espécies que a habitam.  

As crianças de duas escolas primárias conhecem ao vivo os Búzios-d’Obô que estão a ser criados no Jardim Botânico, na primeira saída de campo escolar deles.

O seu projeto tem uma componente forte de educação, onde tenta facilitar o diálogo entre gerações diferentes e envolver públicos alvos diferentes, utilizando o búzio gigante como símbolo do Parque Natural das ilhas. Através de aulas e workshops, a equipa educa comunidades e escolas locais a conservar e proteger o Búzio-d’Obô. Isto é particularmente importante em um meio onde as visitas de estudo não são comuns.

Daqui a um mês, na sua próxima ida à ilha irá tentar trabalhar mais sobre o centro de conservação da espécie, que construiu com os restantes elementos da equipa em maio, onde conseguem reproduzir a espécie e começará a estudar a sua ecologia pela primeira vez.

Já disse que o seu coração e a sua cabeça estão cheios de perguntas e desafios. Pode partilhar algumas das suas inquietações?
Estou cheia de inquietações (risos). Quando dedicamos todo o nosso tempo a uma causa, acaba por ser um pedaço de nós. E, se não virmos as coisas avançarem rápido o suficiente, ficamos inquietos muito facilmente.
Além disso, há uma desconexão grande entre a sociedade e a natureza, que é algo que não pode ser desconectado. Tendemos a separarmo-nos da natureza e não podemos… A natureza somos nós. Tudo o que lhe fizermos vai acarretar consequências para nós.

O que a inspira?
Qualquer espécie tem uma sua história, os seus detalhes, as suas características, mesmo os seres vivos mais pequenos, que por vezes não têm a nossa atenção ou fogem ao nosso olhar. Quando as crianças, ou mesmo os adultos, reparam finalmente na importância destes pormenores da natureza que os rodeia, fico inspirada e com a força necessária para continuar a trabalhar para que seja construída esta conexão entre as pessoas e o ambiente.

OBSERVE: BÚZIOS-D'OBÔ, OS GIGANTES AMEAÇADOS DA FLORESTA

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Quando deixa São Tomé, que preocupações traz na mochila?
Quando deixamos São Tomé, deixo os meus bebés. No centro temos as primeiras crias de Búzio-d’Obô, onde fica um rapaz que estamos a formar para esse efeito. Contudo, a forma de trabalhar lá é diferente da forma em que trabalhamos na Europa e não podemos esperar as mesmas condições de trabalho e as mesmas motivações nas pessoas. Quando fico mais descansada com este assunto, consigo avançar na prática.   
O grande problema destes projetos em São Tomé e noutros países em desenvolvimento, é a falta de apropriação daquilo que é deixado lá. Assim que alguém vai embora, as coisas morrem.

Como combina a sua ação em prol da conservação e o espírito aventureiro?
É muito fácil e para mim é o ideal! No campo, onde fazemos trabalho de conservação, existe sempre algum imprevisto, nem que seja chuva. Aventuras não faltam, quando lá vou! Para mim conservação e aventura são a mesma coisa.

Como descobriu a história do Búzio-d'Obô?
Já cuidava de animais invertebrados quando era pequena, em Itália. Quando vim para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa procurei um invertebrado que estivesse em risco de desaparecer.
Com a ajuda do meu orientador Ricardo de Lima, consegui financiamento para lá ir e a população já tinha notado que havia um decréscimo desta espécie, classificada como vulnerável em 1996. Depois disso, não foi feito mais nenhum estudo, à exceção da ilha do Príncipe. Inicialmente era apenas um estudo ecológico na floresta, mas quando nos deslocávamos para as aldeias as pessoas sabiam e decidimos adicionar essa componente social ao projeto. 

Que impacto teve o projeto?
A nível local, um terço das escolas de São Tomé já sabem quem somos e já conhecem o Búzio-d’Obô e o que está a acontecer à espécie. Além disso, conseguimos mobilizar várias entidades.
No centro temos vários crias da espécie que já é uma grande vitória e a nível internacional, conseguimos que as pessoas se interessassem por uma espécie que é um pouco diferente e não dá tanto nas vistas.

Quais os próximos passos?
Garantir a sustentabilidade do projeto e encontrar uma forma de agir a um nível mais geral. Cada vez mais a conversa tem de ser ao nível da floresta e do ecossistema, incluindo soluções práticas do que as pessoas podem fazer hoje para assegurar o futuro.
Além disso temos de aumentar os números da espécie e a preocupação e dedicação das comunidades a esta causa.

Se não tivesse sido possível seguir o seu sonho de se tornar conservacionista, que carreira tinha seguido?
Para mim não haviam dúvidas, era mesmo este o meu sonho, desde pequena. Se não tivesse sido possível, gostava de ser educadora (que acabo por ser), ou música.

Se pudesse pedir um desejo para o Planeta, qual seria?
Eu desejo que as pessoas um dia acordem com olhos novos e percebam a beleza da natureza que nos rodeia. Qualquer ser, por menor que seja, é lindo.


Vasco Pissarra é cofundador do projeto Gigantes da Floresta, ecólogo marinho e usa a fotografia para facilitar a aproximação do público não cientista a causas de conservação de natureza.

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