Gonçalo Costa – Luta pela Conservação de Cigarras em Marrocos

O projeto ‘The final cries of the unheard Moroccan cicadas’ de Gonçalo J. Costa dedica-se a (re)descobrir as espécies de cigarras marroquinas e a difundir o conhecimento sobre cigarras.quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Por National Geographic

Começou a sua investigação com cigarras na sua tese de Mestrado em Biologia Evolutiva e do Desenvolvimento, na Faculdade de ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Após descobrir duas novas espécies em Marrocos - Tettigettalna afroamissa e Berberigetta dimelodica Gonçalo J. Costa, apaixonado por insetos, sentiu a necessidade de mapear a fauna de cigarras desse país, muito indigente até então.

Em 2018, o biólogo recebeu uma bolsa Early Career da National Geographic na categoria de storytelling para investigar as cigarras de Marrocos e partiu com a sua equipa para as três grandes cordilheiras marroquinas. Nos seus estudos verificaram que existe uma pressão fulminante sobre os habitats das cigarras, quer pela desertificação acelerada pelas alterações climáticas, mas também pelo sobrepastoreio, sobretudo de gado caprino.

Gonçalo afirma “não conseguir dar estimativas precisas, pois ainda não há estudos que estudam o impacto do sobrepastoreio nessas populações, mas a situação é negra...”. Se a conservação imediata dessas espécies não for incentivada num futuro próximo, o biólogo teme que seja “tarde demais”. A isto juntam-se as alterações climáticas, o fraco mapeamento das espécies que vivem em Marrocos e uma taxonomia parca.

Gonçalo deixa uma questão e receio: “Quem nos garante que Portugal não é o próximo a passar por esta tempestade? Já temos os ingredientes: no Alentejo cada vez mais olivais super-intensivos, e agora abacateiros, cada vez menos água nas barragens ano após ano e a ameaça de que no próximo século – antes disso até! - Portugal irá ter um clima muito semelhante ao atual de Marrocos”.

O próximo passo do projeto será concluir a amostragem de Marrocos e passar para a Algéria que, segundo Gonçalo, será um desafio ainda maior. Com todos os estudos efetuados e informações recolhidas, a equipa vai produzir um documentário e uma exposição para veicular a sua mensagem e tentar estreitar a ponte entre o mundo científico e a população geral.

Explique o seu trabalho numa frase.
Eu vou a locais pouco ou nada explorados, gravo os sons e recolho cigarras, para depois as identificar no laboratório.

Como descobriu a história das cigarras de Marrocos?
Desde pequeno que adoro insectos, mas nunca olhei para as cigarras com a atenção que agora dedico! Descobri-as durante a minha tese, ao descrever duas novas espécies para a ciência. Comecei a preocupar-me quando comecei a ler sobre as pressões ambientais em Marrocos, que muitos dos habitats ameaçados eram aqueles que as cigarras preferem. Também, tive múltiplos relatos de colegas que foram em expedição, em anos anteriores, que a situação só mesmo documentada, pois chegava a níveis ridículos de sobrepastoreio.

O que o entusiasma no seu trabalho?
É aquele momento de pura descoberta, em que depois de todas as análises feitas, temos a indicação de que encontramos uma espécie nova para a ciência –  é indiscritível! É o clímax de uma epopeia que começa em Marrocos, todas aquelas horas no campo com mais de 40ºC, meses e meses no laboratório, na lupa a tirar medições e à frente do computador!

Como é que a bolsa da National Geographic o ajudou?
A bolsa ajudou-me a poder desenvolver e a continuar o trabalho desenvolvido na tese. Infelizmente, trabalhos baseados em taxonomia e sistemática, ainda que usem técnicas recentes não são atractivos para captar financiamento. Portanto, sem a ajuda da NG não estaria a estudar – e a proteger – quer as cigarras portuguesas, quer as marroquinas. Para além disso, a NG oferece aos seus exploradores muitas oportunidades de formação como na escrita, videografia, falar em público, que nos capacita para transmitirmos melhor a nossa mensagem.

Pode partilhar um dado que tenha aprendido com esta bolsa, até ao momento?
Posso! Temos mesmo muito trabalho em mãos. Uma análise preliminar apontou para muitas espécies novas e nunca antes vistas, por descrever. Por agora vamos avançar com a descrição de duas delas, que por serem muito distintas das restantes serão mais interessantes em descrever.

Quando deixa Marrocos, que preocupações traz na mochila?
Trago uma mala cheia de roupa por lavar. Fora de brincadeiras, trago sempre a dúvida comigo de que talvez não volte a ver uma determinada população ou espécie de cigarra. E isso é de certa forma desesperante, saber que no nosso tempo de vida estão a desaparecer espécies, com uma história singular que data milhões de anos, com particularidades únicas e irrepetíveis.

Quais os próximos passos?
Agora, o grupo está focado em avançar com o estatuto de proteção das cigarras portuguesas, sendo mais premente, o de Euryphara contentei. Estamos também focados em utilizar ciência cidadã para nos ajudar a mapear as cigarras portuguesas. O próximo passo para o Cicada Group será explorar a Argélia e Tunísia – também pouco exploradas –, para termos um quadro completo da história das cigarras norte-africanas e a sua relação com as suas homólogas europeias, muito melhor estudadas.

Se pudesse pedir um desejo para o Planeta, qual seria?
Estamos num ponto em que temos de deixar de desejar e partir para a ação. Nós temos de nos unir e fazer transparecer às nossas autarquias e representantes políticos que, como cidadãos informados, estamos preocupados com o futuro da geração vindoura, pois vão ser eles que vão apanhar com a força da tempestade que são as alterações climáticas.

Esquerda: Paisagens de tirar o fôlego são comuns por todo o país. Aqui em Djebel Lext, no Anti-Altas. Direita: A maior ameaça imediata à conservação de muitas espécies de animais, não só cigarras, em Marrocos, é o sobrepastoreio. Na foto vemos um dos muitos rebanhos de cabras que devoram a paisagem e deixando apenas para trás ervas tóxicas de flor amarela. Uma imagem que infelizmente se repete. Médio Atlas.
Fotografia de Miguel Ramirez

Pode acompanhar as notícias do projeto na conta de Instagram The Final Cries e no blog escrito por Gonçalo J. Costa.

 

A equipa do Cicada Group na FCUL, à qual Gonçalo Costa pertence, é composta por Paula Simões, Vera Nunes, Eduardo Marabuto e Raquel Mendes.

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