Animais

Porcos Registados a Usar Ferramentas Pela Primeira Vez

Estas observações podem sinalizar uma nova capacidade cognitiva previamente desconhecida nos suínos, que são bastante conhecidos pela sua inteligência.terça-feira, 15 de outubro de 2019

Por Christine Dell'Amore
Só existem cerca de 300 javalis das Visayas em cativeiro (animal aqui retratado no Zoo do Minnesota). A sua população na natureza é desconhecida.
Só existem cerca de 300 javalis das Visayas em cativeiro (animal aqui retratado no Zoo do Minnesota). A sua população na natureza é desconhecida.

Em outubro de 2015, a ecologista Meredith Root-Bernstein estava a observar uma família de porcos raros, num jardim zoológico em Paris, quando algo lhe despertou a atenção.

Um dos javalis das Visayas, uma espécie ameaçada de extinção, nativa das Filipinas, abocanhou um galho e começou a cavar, removendo o solo. "Eu pensei, uau, isto é impressionante", diz Root-Bernstein, investigadora visitante no Musée de l'Homme em Paris e Exploradora National Geographic. "Quando pesquisei utilização de ferramentas e porcos, não havia nada."

Intrigada, a cientista começou a visitar frequentemente o zoológico, no Jardin des Plantes, para tentar observar aquele comportamento novamente, mas sem sucesso. Meredith levantou a hipótese de poder ter observado a construção dos ninhos, algo que os javalis das Visayas fazem a cada seis meses para se prepararem para a chegada dos leitões. De facto, na primavera seguinte, um colega regressou ao recinto dos javalis e filmou 3 dos 4 animais a usarem ferramentas para completarem o ninho, um buraco na terra cheio de folhas.

Apesar de muitas espécies selvagens usarem ferramentas, desde chimpanzés a corvos e golfinhos, ninguém tinha registado o fenómeno nos porcos, incluindo nas 17 espécies de suínos selvagens e suínos domésticos. Isto surpreendeu Root-Bernstein, sobretudo se considerarmos a inteligência bem documentada da família Suidae.

Os porcos selvagens são pouco estudados e, na maioria dos casos, estão em perigo crítico de extinção. Talvez por isso esta inovação tenha escapado aos olhos humanos, diz Root-Bernstein, cujo estudo foi publicado em setembro na revista Mammalian Biology.

Meredith diz que o estudo do uso de ferramentas é particularmente fascinante, porque é uma característica partilhada com os seres humanos, representando também um traço capaz de realçar uma história evolutiva comum. "Isto aproxima-nos dos animais e ajuda-nos a compreender que está tudo interligado.”

Sequência de eventos
Para a investigação, Root-Bernstein e a sua equipa filmaram os pais dos javalis e os seus dois leitões a usarem ferramentas. Em 2016 registaram 4 utilizações e em 2017 observaram mais 7. Partindo do princípio que os animais podiam preferir ferramentas mais fáceis de usar, a equipa colocou 4 espátulas de cozinha no recinto, mas os javalis só usaram uma dessas espátulas durante duas ocasiões. (Leia sobre macacos que estão há 3 mil anos na sua própria ‘Idade da Pedra’.)

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A equipa reparou que os animais – sobretudo a mãe, chamada Priscilla – utilizavam sempre ferramentas no processo de construção dos ninhos. Segundo Root-Bernstein, esta sequência consistente, combinada com o facto de as ferramentas usadas pelos porcos conseguirem remover o solo fisicamente, corresponde à definição científica para a utilização de ferramentas: “O esforço de controlo sobre um objeto externo livremente manipulável (a ferramenta) com o objetivo de (1) alterar as propriedades físicas de outro objeto, substância, superfície ou meio... através de uma interação mecânica dinâmica ou (2) mediante o fluxo de informação.”

Os cientistas suspeitam que a mãe Priscilla pode ter aprendido a usar ferramentas e que transmitiu esse conhecimento ao seu parceiro e prole.

Meredith reconhece que o seu conjunto de dados é pequeno e que o comportamento ocorreu em cativeiro, o que pode fazer com que os animais atuem de maneira diferente do que aconteceria na natureza. Porém, também destaca que a maioria dos comportamentos induzidos pelo cativeiro são marcados por repetições frequentes, como a estimulação, e que o uso desta ferramenta foi escasso e aconteceu apenas dentro do contexto específico da construção de ninhos.

‘Coisa certa a fazer’
É provável que os javalis das Visayas também usem ferramentas, acrescenta Meredith. O presidente da organização sem fins lucrativos Talarak Foundation, Inc., Fernando “Dino” Gutierrez, que trabalha para proteger esta espécie, concorda.

Há alguns anos, Gutierrez testemunhou um grupo de porcos selvagens a empurrar pedras em direção a uma vedação elétrica – estavam a testá-la. "Assim que empurravam as pedras e estas faziam contacto, os porcos esperavam pelo som do clique, ou sua ausência. Clicar significava que a vedação estava quente e eles afastavam-se; senão fizesse barulho, significava que era seguro investigar o que estava para além da vedação.”

“São umas criaturas muito espertas”, diz Gutierrez.

Rafael Reyna-Hurtado, Explorador National Geographic e ecologista de vida selvagem que estuda o porco-gigante-da-floresta africano, refere o tamanho reduzido da amostra e o ambiente em cativeiro do estudo, mas também diz que os resultados devem incentivar os cientistas de porcos selvagens a estarem atentos à utilização de ferramentas – incluindo ele próprio.

Para Meredith, existem muitas questões por esclarecer. Por exemplo, para quê usar uma ferramenta se o focinho é igualmente eficiente? A resposta mais provável é a de que não existe uma explicação funcional clara, como os chimpanzés que dão as mãos quando se estão a catar e quem está a fazer o trabalho só tem uma mão livre.

“As coisas que se aprendem e as coisas culturais funcionam desta forma”, diz Meredith. “Talvez isto aconteça porque aparentemente é a coisa certa a fazer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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