Libertação de Baleias da Infame ‘Prisão de Baleias’ Russa

Passados quase 5 meses, as autoridades libertaram as 97 orcas e baleias-brancas.quinta-feira, 21 de novembro de 2019

No verão de 2018, quatro empresas russas – que fornecem mamíferos marinhos para aquários – capturaram quase 100 baleias-brancas e orcas ao longo de vários meses. Estas capturas foram declaradas ilegais, mas os animais ficaram retidos em cercados na Baía de Srednyaya, no extremo oriente da Rússia.

No dia 20 de junho, durante o programa de televisão anual do presidente Vladimir Putin, o vice-primeiro-ministro Alexey Gordeyev anunciou que o governo russo tinha iniciado o processo de devolução dos animais à natureza.

As autoridades do Instituto Russo de Pesca e Oceanografia (VNIRO) começaram por libertar 8 animais. Seis baleias-brancas e duas orcas, içadas por guindastes e preparadas para o transporte. Foram libertadas no mar de Okhotsk, a cerca de 1800 km de distância de onde foram originalmente capturadas. A viagem, feita por camião e de barco, demorou 5 dias, de acordo com Charles Vinick, diretor executivo do Whale Sanctuary Project, com sede nos EUA. Charles esteve sempre em contacto com Vyacheslav Bizikov, vice-diretor do VNIRO, que supervisionou o transporte e a libertação dos animais.

De acordo com as informações da Reuters, Gordeyev disse que o processo de libertação dos animais, que seria feito faseadamente e em pequenos grupos, iria demorar 4 meses. De acordo com uma declaração do VNIRO, o transporte dos cetáceos foi monitorizado por 70 especialistas, incluindo veterinários e cientistas. Durante o transporte, cada baleia foi acompanhada por duas pessoas, e foram equipadas com rastreadores de GPS antes de serem libertadas.

"Fizemos a abordagem mais sensata, tendo em conta as recomendações dos cientistas que dizem que os animais devem ser devolvidos aos habitats naturais onde foram capturados", disse Gordeyev.

Estas orcas e baleias-brancas atraíram as atenções internacionais em finais de 2018  quando um drone captou imagens aéreas das instalações que mostravam 98 orcas e baleias amontoadas em cercados pequenos. As imagens levaram os órgãos de comunicação social a rotular as instalações de Prisão de Baleias. A situação provocou indignação em todo o mundo, não só pela captura em si, como pelo tratamento dado aos cetáceos.

Na altura, 3 das 4 empresas sustentaram que os animais tinham sido capturados de forma legal, e a quarta empresa não quis tecer comentários. Nenhuma das empresas fez uma declaração pública desde o início do processo de libertação.

Início do transporte

Segundo a EastRussia, uma agência russa de notícias em inglês, Putin monitorizou pessoalmente o início da operação através de uma transmissão televisiva feita ao vivo. De acordo com as informações da BBC, o presidente russo fez o seguinte comentário: "As orcas, por si só – pelo que sei – valem cerca de 100 milhões de dólares. Quando se trata de muito dinheiro, os problemas são sempre difíceis de contornar. Graças a Deus, as coisas começaram a mudar."

Os aquários ocidentais estão a diminuir o número de cetáceos em cativeiro (o Canadá proibiu a prática em junho). Mas na China, os parques aquáticos com golfinhos selvagens são um negócio em expansão: existem agora 78 parques de mamíferos marinhos, com outros 26 atualmente em construção.

Charles Vinick diz que o transporte de regresso às águas em torno da ilha Sakhalin, no mar de Okhotsk, “era a decisão certa”. Em abril, Charles foi convidado pelas autoridades russas, juntamente com Jean-Michel Cousteau, fundador da organização sem fins lucrativos Ocean Futures Society, com sede na Califórnia, para avaliar o estado das baleias e elaborar um plano de reabilitação. Após a visita, publicaram um relatório conjunto onde diziam que a maioria dos animais apresentava lesões na pele, algo que podia indicar problemas de saúde que exigiam avaliações adicionais. Mas também observaram que os animais pareciam estar bem alimentados e que tinham sido minimamente treinados. O relatório concluiu que as 97 baleias podiam passar por um processo de reabilitação para serem posteriormente libertadas.

Charles diz que a equipa recomendou uma reabilitação mais significativa, antes de se efetuar o transporte e libertação, para garantir que os animais estavam de boa saúde. "Embora os detalhes não sejam perfeitos", diz Charles, "fomos informados de que eles estavam a tentar seguir as recomendações fornecidas pela nossa equipa internacional".

Alterações monumentais?

O vice-primeiro-ministro Gordeyev também disse que a Rússia iria reprimir a captura de cetáceos e que o governo mudaria a lei que atualmente permite a captura de cetáceos para "fins educacionais e culturais". Esta brecha no sistema, explorada há muito pelas pescarias russas, é usada na captura legal de baleias-brancas e orcas para serem exibidas nos aquários russos e noutros, principalmente na China. Mas a exportação de orcas para fins comerciais é ilegal desde 2018.

Baleias-brancas, ou beluga, a atuar num aquário que viaja por todo o lado, debaixo de uma tenda insuflável, em Saratov, na Rússia. As baleias-brancas capturadas nas águas russas não conseguem sobreviver muito tempo nestas condições. No dia 20 de junho, o vice-primeiro-ministro da Rússia anunciou que o governo planeava acabar com uma brecha na lei que permite a captura de cetáceos para aquários.
Fotografia de Kirsten Luce

Se estas alterações forem efetivamente aprovadas, algo que exigiria alterações na lei, os cetáceos só poderiam ser capturados legalmente para fins científicos. Isto significaria o fim da  exploração comercial de cetáceos na Rússia. Seria um desenvolvimento "monumental", diz Charles. “Mudava tudo sobre a captura destes animais para fins de entretenimento. Seria uma verdadeira demonstração de liderança do governo russo, com o mundo inteiro a assistir.”

No dia 31 de maio, o Tribunal da Cidade de Sakhalin do Sul, que tem jurisdição sobre a área onde os cetáceos foram capturados, declarou que todas as quotas de captura, emitidas pela Agência Federal de Pesca para baleias-brancas e orcas em 2018, eram consideradas ilegais. Por outras palavras, o argumento apresentado pelas quatro empresas, mais o facto de terem capturado os animais com a permissão do governo, foi anulado retroativamente. Como resultado, duas das quatro empresas russas foram multadas. No dia 7 de junho, a White Whale LLC foi multada em 395.000 euros. Segundo o Moscow Times, no dia 14, a Oceanarium DV foi multada em 790.000 euros. Os processos contra as outras duas empresas, a Afalina LLC e a Sochi Dolphinarium LLC, ainda estão a decorrer.

Prisão de gelo

Em fevereiro, Dmitry Lisitsyn disse à National Geographic que, durante os meses que estiveram em cativeiro, os animais estiveram em sofrimento. Lisitsyn chefia a Sakhalin Environment Watch, uma ONG sedeada na ilha de Sakhalin, perto de onde os cetáceos foram originalmente capturados, e acompanha a situação desde o verão passado.

Em novembro de 2018, depois de as imagens dos drones terem sido publicadas, as autoridades regionais abriram uma investigação sobre a suposta captura ilegal de mamíferos marinhos. Mas enquanto a investigação decorria, os animais permaneceram nos cercados. Durante o inverno, com a descida das temperaturas, a superfície dos cercados começou a criar gelo, alarmando os especialistas em cetáceos, tanto na Rússia como no resto do mundo.

No final de fevereiro, uma das orcas, chamada Kirill, que já estava doente há algum tempo, desapareceu. Os proprietários das instalações apresentaram um relatório à polícia que dizia que, provavelmente, a orca tinha escapado. Os ambientalistas da coligação Free Russian Whales, que estão familiarizados com as instalações, disseram que a hipótese de fuga era muito improvável. E a orca não foi encontrada.

E agora?

No dia 10 de novembro de 2019, o governo russo libertou o último grupo de animais da Prisão de Baleias. As autoridades do VNIRO transportaram as 50 baleias-brancas restantes, em 3 grupos, durante 10 dias, desde o cercado marinho até à Baía Uspeniya, que fica a cerca de 100 km de distância. A Baía de Uspeniya não é um habitat nativo para estas baleias, mas as autoridades russas dizem que esta foi a melhor opção para os animais que restavam – devido a questões de financiamento e condições climáticas. Através de uma declaração conjunta, os defensores dos animais dizem que o local de libertação "não é o ideal", e a presença de navios norte-coreanos na região também não ajuda. Todo o processo de libertação das 97 orcas e baleias-brancas demorou quatro meses e meio.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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