Os Coalas Estão Funcionalmente Extintos?

À medida que os coalas são afetados pelos incêndios florestais na Austrália, a especulação em torno do seu estado de conservação também aumenta. Eis o que sabemos.terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A Austrália está a atravessar antecipadamente uma temporada de incêndios sem precedentes – com efeitos devastadores. Enquanto que dezenas de incêndios florestais assolam a costa leste do país, desde Sydney até à Baía de Byron, incinerando casas, florestas e até pântanos, um dos animais mais emblemáticos da Austrália está no centro das atenções.

As imagens de coalas queimados e moribundos revelaram os efeitos devastadores dos incêndios. "São criaturas pequenas e desamparadas", diz Christine Adams-Hosking, investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Queensland, na Austrália. “Um pássaro consegue voar, um canguru consegue saltar rapidamente, mas os coalas são muito lentos. Basicamente, ficam presos onde estão.”

A situação enfrentada por estes animais indefesos provocou uma onda de consternação – e confusão. Em finais de novembro, as declarações pouco informadas de que os animais tinham perdido a maior parte do seu habitat, e que a espécie estava "funcionalmente extinta", inundaram as páginas dos jornais e as redes sociais, ilustrando a rapidez com que a desinformação se consegue disseminar em tempos de crise.

O coala é uma espécie considerada vulnerável à extinção – a um passo de ficar em perigo – e os relatórios indicam que, até agora, nas zonas devastadas pelo fogo no norte de Nova Gales do Sul, foram encontrados entre 350 a 1000 coalas mortos.

Contudo, de acordo com os especialistas, ainda não estamos a assistir ao extermínio de uma espécie. "Os coalas não vão desaparecer assim tão depressa", diz Chris Johnson, professor de conservação de vida selvagem na Universidade da Tasmânia. "As populações de coalas vão continuar em declínio devido a inúmeros fatores, mas ainda não atingimos um ponto em que um destes fatores consegue ditar o seu desaparecimento.”

Eis a situação atual.

Porque sofrem tanto os coalas com os incêndios?
Quando se trata de fogo, parece que está tudo contra os coalas. Para estes animais, a única defesa real contra os incêndios consiste em subir o mais alto possível aos eucaliptos onde vivem – que não é propriamente uma defesa no meio de um incêndio florestal.

Esquerda: Voluntários do Hospital Koala, em Port Macquarie, procuram coalas feridos depois de um incêndio ter destruído as suas principais zonas de acasalamento. Direita: Funcionários do hospital cuidam dos ferimentos de Peter, um coala macho gravemente desidratado e em estado de choque, com patas e ouvidos severamente queimados. Se Peter for reabilitado com sucesso, será devolvido à natureza.
Fotografia de NATHAN EDWARDS (ESQUERDA) E NATHAN EDWARDS (DIREITA)

Os eucaliptos são uma das vegetações mais adaptadas ao fogo na Terra, capazes de brotar e crescer imediatamente a seguir aos incêndios. Em condições normais de fogo, as chamas normalmente não alcançam o topo das árvores, deixando os coalas relativamente incólumes. Mas o aumento no número de mortes de coalas é um indicador de que algo está errado, diz David Bowman, diretor do Centro de Investigação de Incêndios da Universidade da Tasmânia.

Segundo Bowman, a escala dos incêndios atuais – derivada em grande parte das alterações climáticas e da morte lenta dos métodos aborígenes na gestão de incêndios – não tem precedentes. "As chamas queimam com uma intensidade particularmente alta.”

As árvores, repletas de óleos e resinas, ardem com temperaturas e velocidades avassaladoras, explodindo e enviando faíscas em todas as direções.

Mas a Austrália ainda está na primavera. "Em termos de crise de incêndios florestais, ainda estamos na cerimónia de abertura", diz Bowman. “Receio que a situação seja muito pior em janeiro e fevereiro, já que as temperaturas vão continuar a subir e a seca a aumentar.”

Existem quantos coalas?
Em 2016, os especialistas estimavam que na Austrália existiam cerca de 329.000 coalas, representando um declínio populacional a rondar uma média de 24% nas últimas três gerações.

"É muito difícil fazer estimativas sobre as populações de coalas, mesmo na melhor das hipóteses, porque os coalas têm um raio de alcance muito amplo no leste da Austrália e, para além disso, são tímidos em relação aos humanos e vivem na copa das árvores”, diz Christine. "Algumas populações estão a extinguir-se localmente, mas outras estão a prosperar.”

Os coalas estão ameaçados por diversos fatores: o desenvolvimento de terras; a degradação dos alimentos (o aumento do dióxido de carbono na atmosfera diminuiu a qualidade nutricional das folhas de eucalipto); as secas; os ataques de cães; e as bactérias do género clamídia.

E claro, também estão em risco por causa do fogo. “Em algumas das regiões mais fustigadas pelos incêndios, é possível que as populações locais de coalas não consigam recuperar, mas ainda é muito cedo para dizer”, diz Christine. “Precisaríamos de uma monitorização feita ao longo dos anos.”

Os incêndios dizimaram 80% do habitat dos coalas?
Não. O alcance dos coalas é muito vasto e abrange toda a costa leste da Austrália. Os incêndios florestais mais recentes, em Nova Gales do Sul e Queensland, cobrem cerca de 1 milhão de hectares, diz Fisher (e algumas estimativas indicam até 2.5 milhões de hectares), mas a área de floresta no leste da Austrália, onde os coalas vivem, tem mais de 100 milhões de hectares.

Grant Williamson, pós-doutorando em ecologia paisagística na Universidade da Tasmânia, diz que, “mesmo que uma área seja afetada pelo fogo, não significa que fique 'destruída' e que já não sirva de habitat para os coalas”.

Os coalas estão ‘funcionalmente extintos’?
“Funcionalmente extinto” é um termo que se refere a uma espécie que já não tem membros individuais suficientes para produzir gerações futuras, ou para desempenhar um papel no ecossistema.

“Os fogos podem ter matado muitos coalas, mas isso não é suficiente para alterar o seu estatuto geral de ameaça enquanto espécie”, diz Fisher.

As notícias que alegam que os coalas estão funcionalmente extintos parecem ter nascido de uma afirmação feita por um grupo de conservação de coalas no início de 2019. Na altura, estas informações foram contestadas pelos cientistas – e continuam a ser. “Os coalas estão ameaçados nalgumas zonas do seu alcance, mas não estão noutras”, diz Diana Fisher, professora na escola de ciências biológicas da Universidade de Queensland.

“Para algumas populações locais de coalas nas zonas de incêndio, sobretudo no norte de Nova Gales do Sul, o impacto pode ter sido catastrófico", diz Christine. “Nestas zonas de incêndio, um terço dos coalas pode ter desaparecido.”

Mas, de acordo com Johnson, existem outras populações mais a sul, no estado de Victoria, que não foram afetadas pelos incêndios.

E agora?
"A situação não é muito favorável para os coalas, mas também não o era antes dos incêndios", diz Christine. “Apesar de os coalas terem proteção governamental – é ilegal matar um coala, por exemplo – o seu habitat é altamente vulnerável. E os habitats de coalas designados como áreas protegidas são quase inexistentes.” Christine argumenta que o governo precisa de colocar o ambiente à frente do crescimento económico. "Enquanto a mentalidade política não se alterar – e na Austrália ainda não se alterou – as condições enfrentadas pelos coalas não vão melhorar.”

Entretanto, o Hospital Koala, em Port Macquarie, que fica a 400 km a norte de Sydney, numa das zonas mais afetadas pelo fogo, está a resgatar e a cuidar dos coalas. Até agora, recuperaram pelo menos 22 animais.

Christine Adams-Hosking e David Bowman argumentam que, para além da proteção da terra, é vital começar a olhar para a devolução dos coalas à natureza. "Temos de  acompanhar as coisas e começar a adaptar-nos", diz Bowman. "Se queremos coalas, precisamos de cuidar deles. Temos de nos chegar à frente.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler