Porque Razão os Animais Marinhos Comem Plástico?

Baleias com os estômagos cheios de plástico estão a dar à costa pelo mundo inteiro. Eis o que sabemos.

Friday, December 20, 2019,
Por Natasha Daly
Cegonhas-brancas procuram comida num aterro em Espanha. Existe tanto lixo que as cegonhas deixaram de migrar ...
Cegonhas-brancas procuram comida num aterro em Espanha. Existe tanto lixo que as cegonhas deixaram de migrar porque conseguem encontrar comida o ano inteiro no meio do lixo.
Fotografia de Jasper Doest, Nat Geo Image Collection

Porque razão um predador de topo iria querer comer umas luvas? Ou cordas? Ou copos de plástico? Como é que uma baleia acaba com mais de 90 quilos de lixo no estômago?

No final de novembro foi encontrada uma baleia de 10 anos morta numa praia na Escócia. A necropsia revelou 100 quilos de plástico e outros tipos de lixo no seu sistema digestivo. A tragédia apareceu nos noticiários – a enorme quantidade de detritos eclipsou a que se tem encontrado num número crescente de casos semelhantes: baleias enormes encontradas mortas pelas praias do mundo inteiro com os estômagos cheios de lixo.

Em novembro de 2019, um jovem cachalote foi encontrado morto numa praia na Ilha de Harris, na Escócia. A necropsia revelou um emaranhado de 100 quilos de lixo no seu estômago.
Fotografia de Scottish Marine Animal Stranding Scheme

Não se sabe se estes avistamentos se estão a tornar cada vez mais comuns, ou se estamos simplesmente mais sintonizados com a situação agora que o público está ciente da crise do plástico, mas a produção de plástico é cada vez mais exponencial – em 1950, produzimos 2.3 milhões de toneladas; em 2015, produzimos 448 milhões de toneladas; e esta produção pode duplicar até 2050.

Ainda não sabemos realmente quais são os efeitos da ingestão de plástico e de outros resíduos nos animais marinhos, ou porque razão comem este lixo. Apesar de as necropsias revelarem uma quantidade chocante de material não comestível, a ingestão de plástico geralmente não mata de imediato. Os efeitos revelam-se de forma lenta, prejudicando algumas espécies mais do que outras, de uma maneira furtiva e subtil. Eis o que sabemos.

Porque Razão os Animais Marinhos Comem Plástico?
Os cientistas têm dificuldades em responder a esta questão, diz Matthew Savoca, investigador de pós-doutoramento na Estação Marinha Hopkins da Universidade de Stanford e Explorador National Geographic. Sabemos que o plástico está por toda a parte. Cerca de 8 milhões de toneladas de plástico acabam anualmente nos oceanos. E sabemos que os animais estão a comer este plástico. Mas saber a razão que os leva a fazer isso ainda é uma incógnita. "Sabemos muito pouco sobre o que realmente está a acontecer no oceano", diz Savoca.
A sabedoria convencional sugere que os animais comem plástico porque está acessível, e porque não sabem que faz mal (para alguns animais, como as anchovas, o plástico pode cheirar a comida). Mas isso não explica porque razão só alguns tipos de baleias – baleias dentadas de mergulhos profundos, como cachalotes, baleias-piloto e baleias-de-bico – aparecem mortas nas praias com os estômagos cheios de plástico.
Estas espécies caçam nas profundezas do oceano, às vezes a mais de 500 metros de profundidade, na escuridão total, e usam a ecolocalização para caçar – normalmente lulas. É possível, diz Savoca, que o lixo plástico pareça comida para as baleias dentadas.

O plástico não flutua?
Na realidade, muitos tipos de plástico, incluindo garrafas de água, afundam naturalmente. E outros plásticos que geralmente flutuariam podem ter algas que alteram a sua massa, arrastando-os para baixo. Já foram encontrados pedaços minúsculos de plástico na Fossa das Marianas – a 11 quilómetros de profundidade, o ponto mais profundo do mundo – onde são comidos por criaturas parecidas com camarões.

IMAGENS DE ANIMAIS QUE SE MOVIMENTAM NUM MUNDO DE PLÁSTICO

As outras espécies de baleias não aparecem com os estômagos cheios de plástico?
Algumas baleias, como as baleias-jubarte e as baleias-azuis, têm filtros naturais para os alimentos. As barbas em forma de escova que têm no lugar dos dentes e as gargantas estreitas impedem-nas de ingerir qualquer coisa que seja muito maior do que krill – pequenos crustáceos aglomerados em grupos enormes – que formam a base da sua dieta. Isto ajuda a explicar porque razão não acabam encalhadas com os estômagos cheios de detritos, mas Savoca e a sua equipa estão atualmente a estudar se estas barbas deixam passar partículas mais pequenas de plástico. "Existem muitas questões por responder.”

As baleias comem mais plástico do que as outras espécies?
Não necessariamente. As pardelas-de-patas-rosadas – aves marinhas que nidificam nas ilhas ao largo da costa da Austrália e da Nova Zelândia – comem proporcionalmente mais plástico em relação à sua massa corporal do que qualquer outro animal marinho.
Mas as mortes das baleias saltam mais à vista porque raramente testemunhamos esse acontecimento. A grande maioria das baleias morre no mar, afundando-se no oceano longe de terra. Muitos dos animais, incluindo pardelas, albatrozes e peixes, não são destacados quando dão à costa mortos, diz Savoca. “Mas uma baleia de 15 ou 20 metros dá nas vistas e aparece nas notícias.”

Como é que a ingestão de plástico afeta os animais?
Por vezes, os efeitos da ingestão de plástico são óbvios se, por exemplo, crias de albatrozes forem encontradas mortas só com plástico, e sem comida, no estômago, ou se a necropsia de uma baleia revelar intestinos perfurados por plásticos afiados.
Mas, na maioria das vezes, os danos são dissimulados e provavelmente manifestam-se sob a forma de fome ou letargia crónica.

Porque é Que Estas Criaturas Marinhas Minúsculas Comem Plástico

As baleias precisam de emergir para respirar, o que significa que os mergulhos de profundidade para se alimentarem são sensíveis ao tempo. "Por exemplo, se um cachalote conseguir apanhar 30 pedaços de comida durante um mergulho, e se 5 ou 10 desses pedaços forem lixo, isso significa menos 10 a 30% de comida”, diz Savoca.

“Este fator pode fazer com que seja difícil para um animal ter energia suficiente para fazer tudo o que precisa, como procriar, migrar e continuar a alimentar-se.”

E o plástico surge no topo de outros fatores de stress que afetam a vida nos oceanos – alterações climáticas, pesca em excesso, tráfego marítimo, poluição sonora, entre outros. "É muito triste porque as vidas destes animais já são suficientemente difíceis, mesmo sem as pressões adicionais que colocamos sobre eles, sobretudo na rapidez com que estamos a alterar o seu ambiente”, diz Savoca.

“Há 50 anos atrás, quase não havia plástico no oceano. E uma baleia grande pode viver o dobro desse tempo, ou seja, durante a vida de uma única baleia, passámos de um oceano sem plástico para um oceano com milhões de toneladas de plástico.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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