Ser Uma Pantera Negra é Benéfico? Depende.

De acordo com um novo estudo, o pelo escuro é uma ótima camuflagem noturna, mas pode prejudicar a comunicação visual entre felinos.

Thursday, January 16, 2020,
Por Mary Bates
Um jaguar negro a nadar nas águas do Brasil. O termo "pantera negra" é um termo ...
Um jaguar negro a nadar nas águas do Brasil. O termo "pantera negra" é um termo genérico que se refere às 14 espécies de felinos selvagens que podem ter melanismo.
Fotografia de Frans Lanting, Nat Geo Image Collection

Os felinos negros são um mistério que nos fascina há muito tempo, sejam heróis de banda desenhada ou símbolos supersticiosos. Mas também são mais comuns do que se pensa: pelo menos 14 das mais de 35 espécies de felinos selvagens – incluindo jaguares, leopardos e linces – podem ter um gene que provoca melanismo, ou um excesso de melanina, ou pigmentação, no pelo. O termo “pantera negra”, na realidade, é um termo genérico que se refere a qualquer felino selvagem com uma pelagem negra.

A persistência do melanismo entre os felídeos selvagens sugere que pode oferecer algum tipo de vantagem, seja em termos de camuflagem ou para regular a temperatura corporal.

Mas agora, uma nova investigação publicada no dia 18 de dezembro na PLOS ONE, revelou uma das possíveis desvantagens: interferir na comunicação. Muitas das espécies de felinos selvagens têm marcas brancas atrás das orelhas e na ponta da cauda, estas marcas servem para transmitir informações cruciais a outros animais – marcas que não existem em felinos com melanismo.

Para este estudo, o ecologista Maurício Graipel, da Universidade Federal de Santa Catarina, e os seus colegas modelaram a ligação entre o pelo negro e a comunicação. Os resultados sugerem que, embora a camuflagem noturna seja um dos benefícios, a ausência de marcas brancas pode ser um calcanhar de Aquiles, resultando num dilema evolutivo – é melhor ter melanismo ou não?

A resposta não é simples, mas esta investigação oferece uma visão convincente sobre os compromissos, que são sinais de evolução, diz Nicholas Pilfold, cientista especializado em sustentabilidade populacional no Zoo de San Diego que contribuiu para a confirmação científica de um leopardo negro em África.

"Muitas vezes concentramos a nossa atenção nas vantagens adaptativas de uma característica em específico, e acabamos por ignorar o lado negativo", diz Nicholas, que não participou neste novo trabalho. "A força deste estudo reside no facto de sugerir um revés que pode influenciar o comportamento dos grandes felinos com melanismo, e em que circunstâncias essa característica se pode manifestar."

Para além disso, o aprofundamento do nosso conhecimento sobre felinos com melanismo pode ajudar a proteger os animais, muitos dos quais estão em declínio devido à perda de habitat e à caça furtiva. De acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza, pelo menos 18 espécies de felinos selvagens estão vulneráveis ou em perigo de extinção.

Atrás da orelha
Maurício Graipel estava a investigar os padrões de atividade do Leopardus guttulus, um felino do tamanho de um gato doméstico, no sul do Brasil, quando as suas armadilhas fotográficas captaram animais com melanismo e sem melanismo.

Surpreendentemente, os dados revelaram que os animais com melanismo eram mais ativos durante as noites iluminadas pela lua do que os outros felinos. Maurício e a sua equipa atribuíram este padrão à eficácia superior da camuflagem negra, dado que são menos visíveis para os seus predadores e presas.


Porém, Maurício reparou noutra coisa: os animais sem melanismo têm manchas brancas atrás das orelhas, mas os felinos negros não.

O branco é bastante visível à noite, e todas as espécies de felinos são parcialmente ativas na escuridão. Maurício interrogava-se sobre o papel destas marcas brancas na comunicação visual – e o que poderia significar para os felinos com melanismo que não as têm.

Foi então que Maurício Graipel e a sua equipa tentaram recolher todos os registos que conseguiram encontrar de ocorrências cientificamente confirmadas de melanismo na família dos felinos. Depois, perscrutaram livros, artigos e a internet à procura de imagens de felinos com marcas brancas na parte de trás das orelhas. Para estes dados, levaram em consideração as características ecológicas das espécies, como os seus níveis de atividade durante o dia e a noite, e utilizaram modelagem estatística para investigar a associação entre o pelo negro e a comunicação.

“Levando em consideração que nos felinos a posição das orelhas pode significar muitas coisas, sobretudo entre indivíduos da mesma espécie, e que os felinos conseguem ver bem em condições de pouca luminosidade, as marcas brancas podem servir como um sinal de alerta para os que os seguem durante a noite ”, disse Maurício por email.

“Para além disso, as mães felinas conseguem alertar silenciosamente as suas crias para o perigo, levantando a cabeça e esticando as orelhas, exibindo as manchas brancas.”

Gatos pretos da sorte?
O papel vital desempenhado pelas marcas brancas na comunicação entre felinos pode limitar o número de indivíduos com melanismo na maioria das espécies de felinos. Contudo, se uma espécie for mais ativa durante o dia, ter uma pelagem escura pode não ser assim tão mau.

Por exemplo, o gato-mourisco da América do Sul é um gato selvagem que é mais ativo durante o dia, portanto a comunicação noturna feita pelas marcas brancas perde a sua importância em termos de sobrevivência. E para suportar esta teoria, cerca de 80% dos gatos-mouriscos têm melanismo, a maior frequência de melanismo entre todas as espécies de felinos, diz Graipel.

Imagens Registam Um Leopardo Negro a Viver No Quénia
12 de Fevereiro de 2019 - Investigadores do San Diego Zoo Global confirmam a presença de um raro leopardo negro a viver em Laikipia County, no Quénia

Mesmo entre populações da mesma espécie, a frequência do melanismo pode variar. É o que acontece com os leopardos, que vivem por toda a África e Ásia. Os leopardos com melanismo que vivem nas savanas abertas de África, onde caçam noite e dia, são extremamente raros. Mas nas densas florestas da Malásia, onde os leopardos são principalmente ativos durante o dia, as taxas de melanismo sobem para os 50% da população. Segundo Nicholas Pilfold, as novas descobertas fornecem um contexto para a existência de diferenças entre populações.

"Compreender a forma como a utilização do habitat pode ser influenciada pela presença do melanismo numa população, pode ajudar a garantir que protegemos os habitats apropriados para conservar estas espécies e as suas características únicas."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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