Coronavírus: Pressão Aumenta Para China Acabar com Mercados de Vida Selvagem

A cobertura mediática sobre os mercados de vida selvagem na China passa a ideia de que estes são muito populares. Mas, muitos dos chineses não se identificam com esta realidade.

Monday, February 10, 2020,
Por Natasha Daly
Num mercado de vida selvagem em Shenzhen, os vendedores exibem répteis e mamíferos vivos. Na China, ...
Num mercado de vida selvagem em Shenzhen, os vendedores exibem répteis e mamíferos vivos. Na China, podem ser legalmente comercializadas 54 espécies de animais para consumo humano. O surto de coronavírus colocou o comércio de vida selvagem no centro das atenções mundiais.
Fotografia de AFP, Getty

Em setembro do ano passado, numa quinta perto de Pequim, um grupo de conservacionistas telefonou para a polícia: tinham encontrado milhares de aves vivas armazenadas num celeiro. A polícia apreendeu e soltou as aves – cerca de 10 mil no total – que tinham sido apanhadas ilegalmente com armadilhas e estavam destinadas a restaurantes e mercados no sul da China. Entre estes pássaros estavam as escrevedeiras-aureoladas, aves canoras em perigo crítico de extinção cujas populações entraram em queda livre, sobretudo porque são consumidas nalgumas regiões da China.

No mercado de vida selvagem de Wuhan, onde surgiu o surto de coronavírus em dezembro de 2019, um trabalhador transporta uma salamandra viva depois de o mercado ter sido encerrado.
Fotografia de Feature China, Barcroft Media/Getty

A disseminação de uma vertente mortal de coronavírus, originária de um mercado de vida selvagem em Wuhan – evento agora declarado emergência de saúde global pela Organização Mundial de Saúde – colocou o comércio de animais selvagens na China no centro das atenções. No dia 26 de janeiro, a China anunciou a interdição do comércio de vida selvagem até a crise acabar. As imagens de animais doentes e em sofrimento nos mercados, e vídeos de morcegos a serem cozidos vivos em tigelas de sopa, têm circulado pelos órgãos de comunicação social, provocando ondas de indignação pelo mundo inteiro e criando a noção de que a compra de animais selvagens vivos para consumo é um fenómeno com uma escala gigante na China.

Mas esta realidade não é assim tão pronunciada. Em Guangzhou, uma cidade com 14 milhões de habitantes, e destino frequente das referidas escrevedeiras-aureoladas, o consumo de animais selvagens parece extremamente comum. Mas em Pequim, parece muito raro.

Para muitos dos chineses, o consumo de animais selvagens é uma aberração cultural. Alguns dos meios de comunicação chineses, mesmo que controlados pelo estado, como o China Daily, fizeram publicações onde denunciam esta prática e exigem uma interdição permanente ao comércio de vida selvagem. Estas publicações, por sua vez, foram amplificadas pelos milhares de cidadãos chineses nas redes sociais controladas pelo estado, como a Weibo, sugerindo que o governo parece estar a deixar este movimento crescer.

A demanda pelas escamas de pangolim, usadas na medicina tradicional chinesa, fez com que o pangolim se tornasse no mamífero mais traficado do mundo.
Fotografia de Fritz Hoffmann, Nat Geo Image Collection

Os especialistas dizem que não se conhece na totalidade a dimensão do comércio de animais selvagens vivos na China. Muitos dos animais são caçados, importados e exportados de forma ilegal – seja para consumo, para a medicina tradicional ou enquanto animais de estimação. A indústria da medicina tradicional chinesa, que se apoia fortemente na antiga crença dos poderes curativos de partes de animais, é um dos grandes impulsionadores deste comércio.

O governo permite a criação de 54 espécies selvagens para o comércio de consumo, incluindo martas, avestruzes, hamsters, tartarugas e crocodilos-siameses. “Muitos dos animais selvagens, como cobras e aves de rapina, são caçados ilegalmente e levados para quintas de criação licenciadas pelo estado”, diz Zhou Jinfeng, secretário-geral da Fundação para a Conservação de Biodiversidade e Desenvolvimento Ecológico da China, uma ONG sediada em Pequim que ajudou no resgate das aves em setembro. Zhou diz que alguns dos agricultores alegam que os seus animais foram criados para conservação de forma legal em cativeiro, mas na realidade vendem-nos aos mercados ou a colecionadores.

Não se sabe quantos mercados de vida selvagem existem na China, mas os especialistas estimam que podem chegar às centenas. Algumas lojas também vendem carne selvagem e anfíbios vivos para consumo. Nos mercados, os sapos são uma refeição muito comum e barata, diz Peter Li, especialista em política chinesa na Humane Society International e professor de política na Universidade de Houston-Downtown, nos EUA. Por um lado, diz Peter Li, só os ricos é que conseguem comprar sopa feita com civeta-das-palmeiras (um mamífero do tamanho de um gato nativo das selvas do Sudeste Asiático), cobra frita ou patas de urso assadas.

Este tipo de comida não fez parte da experiência de vida de Peter Li. “Os meus pais nunca cozinharam animais selvagens, e nunca os comemos. Eu nunca comi cobras ou serpentes.”

Sapos vivos à venda no mercado de Xangai, no dia 26 de janeiro, dia em que, dada a crise do coronavírus, o governo chinês anunciou a proibição do comércio de animais vivos.
Fotografia de Edwin Remsberg, VWPics/AP

Rebecca Wong, professora assistente de sociologia e ciências comportamentais na Universidade de Hong Kong, argumenta no seu livro de 2019 – sobre o comércio ilegal de animais selvagens na China – que o consumo de animais selvagens é um fenómeno comum na China continental. Mas Rebecca Wong adverte contra a criação de estereótipos sobre esta prática, e diz que a ideia do consumidor asiático é um mito, e que existem motivações complexas em jogo, incluindo a pressão da sociedade e o impulso de perseguir um determinado estatuto.

Um estudo de 2014, onde foram entrevistadas mais de mil pessoas de cinco cidades chinesas, encontrou práticas radicalmente diferentes em diversas regiões do país. Em Guangzhou, 83% das pessoas entrevistadas tinham comido animais selvagens nos últimos 12 meses. Em Xangai, este número baixa para os 14%, e em Pequim está nos 5%. Em todo o país, mais de metade dos entrevistados disse que os animais selvagens não deviam ser comidos de todo.

Uma cidade, experiências culturais diferentes
Charles, 22 anos, e Cordelia, 18 anos, são estudantes universitários na área de Guangzhou, onde o consumo de animais selvagens é supostamente elevado. A National Geographic falou com ambos através do Instagram, onde usam nomes em inglês. (Ambos pediram à National Geographic para não usar os seus sobrenomes – o Instagram é proibido na China, mas estes jovens, tal como muitos outros no país, usam ligações VPN protegidas para aceder a estas redes sociais.)

Em Pequim, os comerciantes usam máscaras faciais enquanto vendem vegetais. Um estudo de 2014 constatou que apenas 5% dos residentes de Pequim tinham comido animais selvagens nos últimos 12 meses.
Fotografia de Kevin Frayer, Getty

Charles diz que que o consumo de animais selvagens é comum na sua comunidade, mas a sua família não consome muito, e ele diz que come apenas ocasionalmente e por curiosidade. “Atualmente, os idosos consomem mais do que os jovens.” Charles acredita que isto se deve a questões de educação.

Cordelia, que vive no centro de Guangzhou, diz que a prática não é de todo comum na sua família ou comunidade. “Os meus amigos e familiares não gostam muito de comer animais selvagens, e achamos que é nojento.” Cordelia explica que encara isto como um “desrespeito e uma forte violação da mãe natureza”. E também acredita que a recente epidemia pode levar outras pessoas a abandonar esta prática. “Acredito que, depois desta terrível disseminação do coronavírus, os cidadãos vão perceber que o consumo de animais selvagens não é benéfico ou saudável.”

Tanto Cordelia como Charles apoiam a proibição permanente do comércio de animais selvagens e dizem que, na rede social chinesa Weibo, existe um apoio muito grande a esta interdição.

Cordelia diz que a crença nos benefícios à saúde ajuda a impulsionar o consumo e os mercados. Os animais vivos são vendidos por um preço mais elevado – geralmente duas ou três vezes mais caros – do que os animais mortos. “As pessoas acreditam que a comida tem mais nutrientes se estiver viva e fresca”, diz Peter Li. “Um animal pode estar a morrer, mas ainda está vivo.”

Um “caldeirão de contágio”
“Nos mercados, os animais estão a morrer, têm sede, e estão em jaulas enferrujadas e completamente insalubres”, diz Peter Li. Alguns dos animais não têm todos os membros, ou têm feridas abertas devido à forma como foram capturados na natureza, ou ferimentos infligidos durante o transporte. “Os comerciantes não os tratam com cuidado – atiram as gaiolas para o chão durante o carregamento e descarregamento. Os animais sofrem muito.”

O caos presente neste comércio permite a disseminação de doenças zoonóticas – doenças que são transmitidas de animais para humanos – diz Christian Walzer, veterinário-chefe da ONG norte-americana Wildlife Conservation Society. Os animais selvagens, explica Christian, podem ter vírus que, num mundo normal, não entrariam em contacto com os humanos. “Estes animais portadores não estão doentes – são simplesmente reservatórios passivos. Mas, à medida que invadimos os seus habitats, aumentamos a nossa exposição.”

Cerca de 70% das doenças zoonóticas têm origem na vida selvagem, diz Erin Sorrell, professora assistente de investigação no departamento de microbiologia e imunologia da Universidade de Georgetown, em Washington. Estas doenças conseguem ser devastadoras: VIH, Ébola e SARS estão entre as doenças que saltaram de animais para os humanos, gerando surtos internacionais.

Nos mercados de vida selvagem da China e do Sudeste Asiático podem existir 40 espécies diferentes – aves, mamíferos e répteis – empilhadas umas sobre as outras, diz Walzer. A mistura do ar com secreções corporais permite a troca de vírus, potencialmente criando novas vertentes. Walzer descreve esta situação como um “caldeirão de contágio”.

As evidências sugerem que os morcegos podem ser a fonte do coronavírus de Wuhan. Mas ainda não se sabe exatamente qual foi a espécie que transmitiu a doença aos humanos. Numa das avaliações feitas no mercado de Wuhan, o coronavírus foi detetado na secção de animais selvagens vivos.

Prevenir um déjà vu
Muitos dos conservacionistas acreditam que esta proibição temporária da China ao comércio de animais selvagens – que se aplica a todos os mercados, supermercados e vendas online, incluindo uma quarentena que se estende a todas as instalações de criação – pode ter um enorme sucesso. O governo criou uma linha direta para as pessoas denunciarem violações. “Esta é uma situação de emergência”, diz Peter Li. “O planeta está de olhos postos na China. Qualquer comerciante que viole esta proibição pode ser denunciado.” Para além disso, o medo do coronavírus pode reduzir a demanda – mesmo que os vendedores estejam dispostos a oferecer animais vivos ilegalmente, as pessoas podem não os querer comprar.

Uma civeta presa numa jaula, à venda num mercado no sul da China, em 2003, no auge da epidemia SARS. Acredita-se que as civetas foram responsáveis pela transmissão do vírus SARS aos humanos. Atualmente, a sopa de civeta continua a ser uma iguaria para algumas pessoas na China.
Fotografia de AFP, Getty

A China já recorreu a uma interdição semelhante anteriormente. Em 2003, no auge da epidemia  SARS, que se acredita ter originado nas civetas, o governo proibiu temporariamente o comércio de animais selvagens. Seis meses mais tarde, suspendeu a proibição, permitindo às instalações de reprodução retomarem as suas práticas. Peter Li diz que é difícil dizer se o comércio de animais selvagens cresceu nas últimas duas décadas, mas acredita que muitas das transações foram ocultas para evitar a aplicação da lei.

“Existe sempre o risco de isto voltar a acontecer novamente”, diz Sorrell. “Tivemos um intervalo de 15 ou 16 anos desde a SARS, mas quem sabe se vão passar mais 16 anos até testemunharmos outra doença a surgir num mercado de animais vivos?”

Para garantir que esta proibição temporária consegue obter um estatuto permanente, é necessário esclarecer o que abrange realmente. Alguns dos termos da proibição são muito vagos, ficando assim abertos a interpretação em termos de aplicação da lei localmente. Por exemplo, será que a proibição inclui partes de animais selvagens, como ossos ou escamas? Vários especialistas dizem que sim, mas da forma como as coisas estão escritas, não é possível afirmar com certeza.

Uma proibição permanente é capaz de enfrentar uma oposição muito forte por parte dos interesses comerciais, diz Peter Li. A Administração Estadual de Florestas e Pastagens da China, órgão responsável pela emissão de licenças para criadores de animais selvagens, é há muito tempo um porta-voz do interesse pela vida selvagem. (A Administração de Florestas não respondeu aos nossos pedidos para comentar.)

Sorrell enfatiza que devemos ser cautelosos na exigência de uma proibição permanente.

“Eu adoraria ver a vida selvagem removida dos mercados, ponto final”, diz Sorrell. “Mas, se tentarmos aplicar uma proibição sem uma consideração muito cuidadosa, todo o comércio de animais selvagens pode passar à clandestinidade, tornando-o ainda mais perigoso, porque não sabemos onde está a ser consumido ou quais são as suas origens.”

“Para que qualquer proibição seja eficaz, é importante obter a adesão dos cidadãos”, acrescenta Caroline Dingle – bióloga evolucionária no laboratório forense de conservação da Universidade de Hong Kong – que estuda crimes de vida selvagem. “Para que qualquer proibição consiga funcionar a longo prazo, as pessoas precisam de acreditar que o consumo de animais selvagens é perigoso.”

Se uma proibição permanente for adotada, diz Peter Li, é importante que o governo compense os agricultores, para permitir uma forma de subsistência diferente.

Enquanto isso, para as escrevedeiras-aureoladas – aves à beira da extinção – é preciso ir ainda mais longe. Atualmente, a sua captura já é proibida, mas isso não diminuiu a sua comercialização.

Para Cordelia, a estudante universitária de 18 anos de Guangzhou, a vida está num impasse. A escola está fechada e não pode visitar a sua família. Refletindo sobre a crise biológica que surgiu de uma prática cultural com a qual ela não se identifica, diz: “Eu acredito que a natureza retribui o que lhe damos.”

Mas Cordelia salienta a unidade existente no país devido à crise e aos protestos na rede Weibo e nos jornais chineses. “Eu acredito que as probabilidades de assistirmos a alterações revolucionárias são muito elevadas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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