Mitos Polares: os Pinguins Não Vivem no Polo Sul

Um olhar sobre as espécies que vivem nas regiões mais frias do planeta.quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Com as suas vastas paisagens geladas e longos períodos de escuridão, ou de luz diurna, as regiões polares podem parecer todas semelhantes. Mas, na realidade, são mundos completamente diferentes.

A Antártida é um continente coberto de gelo, em isolamento completo no sul do planeta, cercado por oceanos repletos de vida. Na região norte do globo, o Ártico é constituído pelo Oceano Ártico e por outros corpos de água, todos perto dos continentes mais populosos da Europa e da América do Norte. O Ártico também é caracterizado por uma cobertura de gelo que oscila com as estações do ano.

Estas características únicas refletem-se na vida selvagem de cada região. Algumas espécies, como os ursos-polares, evoluíram para caçar e procriar nos blocos de gelo em constante mudança do Ártico, enquanto que outras espécies intimamente relacionadas, como as focas-aneladas e as focas-de-weddell, têm adaptações específicas para viver no norte ou no sul. E a andorinha-do-ártico – um animal incrível – vive nas duas extremidades da Terra, graças à migração mais longa do mundo. (Veja a vida dos animais polares nos locais mais frios do planeta.)

Os estereótipos e mitos polares são muito variados, portanto, vamos tentar esclarecer quais são os animais que vivem nas regiões mais frias do planeta.

Não existem pinguins no Ártico.
Um dos erros mais comuns é o de que os pinguins vivem no Ártico. Na realidade, esta região é o lar de outra ave carismática – o papagaio-do-mar. Estes pássaros coloridos têm uma plumagem preta e branca, com um bico e pés alaranjados, e parecem papagaios.

Tal como acontece com os pinguins, os papagaios-do-mar também são excelentes nadadores e mergulhadores – estão equipados com penas impermeáveis e conseguem beber água do mar – e reproduzem-se em grandes colónias ao longo da costa. (Conheça a história da fotografia deslumbrante de um papagaio-do-mar a banquetear-se com peixe.)

Porém, ao contrário dos pinguins, os papagaios-do-mar conseguem voar a uns incríveis 90 km por hora, fator que lhes permite levar rapidamente peixe para as suas crias em terra.

O maior animal terrestre é um inseto.
Quando se trata de predadores no Ártico, existe um animal que se sobrepõe a todos os outros – o urso-polar. Estes animais enormes têm um alcance vasto por toda a região e vivem durante o ano inteiro a sul da baía de James, que fica na mesma latitude de Londres.

O gelo é essencial para os ursos-polares, que o utilizam como uma plataforma de caça para capturar focas – quando estas surgem à superfície para respirar. “Simplificando, os ursos-polares evoluíram para tirar proveito da fonte mais rica de alimento disponível... as focas”, diz Ian Stirling, cientista na Environment Canadá e professor adjunto na Universidade de Alberta.

O Ártico tem outros predadores terrestres, incluindo o lobo-do-ártico, uma subespécie do lobo-cinzento, e a raposa-do-ártico.

“Por outro lado, o sul não tem predadores terrestres”, diz Andrew Derocher, ecologista na Universidade de Alberta.

A Antártida, o lugar mais frio, seco e ventoso da Terra, é maioritariamente um imenso deserto sem vida. O seu maior animal terrestre é um inseto sem asas (Belgica antarctica), cujo tempo de vida em adulto só dura uma semana.

Isto acontece porque os pinguins, que são abundantes ao longo das costas da Antártida – particularmente na península Antártica e no mar de Ross – são considerados animais costeiros, e não animais que vivem em terra.

Portanto, apesar do que possamos ver nos desenhos animados ou em outras formas populares de entretenimento, não existem pinguins no Polo Sul.

As águas geladas estão repletas de vida.
Com um interior tão inóspito, a vida selvagem da Antártida prospera dentro e fora das águas geladas do oceano.

“Na Antártida, o oceano é um reino de biodiversidade muito produtivo. Existem muitas espécies em abundância em alguns lugares”, diz Phil Trathan, chefe de biologia de conservação na British Antarctic Survey.

As águas da Antártida estão repletas de krill, um pequeno crustáceo que alimenta baleias enormes, incluindo baleias-azuis, baleias-jubarte e baleias-de-minke, para além de pinguins.

Os pinguins são sinónimo de Antártida, mas apenas os pinguins-imperador e os pinguins-de-adélia residem de forma permanente no continente. As outras espécies, como os pinguins-de-barbicha, os pinguins-gentoo e os pinguins-macarrão, reproduzem-se na península Antártica ou nas ilhas subantárticas. Os pinguins, nadadores que perseguem krill, peixes e lulas, não precisam de voar – não têm predadores naturais no gelo antártico.

Contudo, no oceano, os pinguins lutam com as focas-leopardo, caçadoras formidáveis especializadas em presas de sangue quente. Curiosamente, as focas-leopardo também comem krill: “têm caninos grandes para caçar aves e mamíferos, e dentes modificados para filtrar o krill da água”, diz Regina Eisert, investigadora na empresa neozelandesa Kosatka Consulting.

Os narvais só vivem no norte.
Apelidado de unicórnio do mar devido ao seu longo dente em espiral, o narval é um animal do Ártico que, como outras espécies de botos, pode ser visto a nadar em grupos de dezenas ou até mesmo centenas de indivíduos.

Tubarão Etiquetado de Submarino pela Primeira Vez na História

Os narvais vivem no Ártico durante o ano inteiro, e passam o verão em águas costeiras sem gelo. Quando confrontados com gelo costeiro impenetrável, estes mamíferos marinhos deslocam-se para o mar, para águas mais profundas, para se alimentarem sob o gelo movediço, e usam aberturas ou fendas no gelo para respirar.

Não existem tubarões na Antártida – mas existem no Ártico.
As águas da Antártida são demasiado frias para os tubarões, mas existem algumas espécies nos mares do Ártico. O tubarão da-gronelândia é um dos mais misteriosos: só foi fotografado um espécime vivo em 1995. Estes predadores, que têm uma esperança de vida de pelo menos 272 anos, comem tudo o que apanham, sejam peixes, focas ou carcaças de ursos-polares ou de caribus.

Existem alguns peixes que vivem na Antártida, como os Notothenioidei, que produzem o seu próprio “anticongelante” – proteínas que se ligam aos cristais de gelo no sangue e que impedem o seu congelamento. A espécie de peixe Chaenocephalus acteratus também é de forma notável o único vertebrado sem glóbulos vermelhos; o seu sangue branco confere-lhe uma aparência fantasmagórica.

As orcas vivem em ambos os polos.
As orcas vivem em muitos dos oceanos mundiais, incluindo os do Ártico e da Antártida. Nas águas austrais vivem cerca de 70.000 orcas especializadas em diferentes tipos de alimentos. As orcas do Tipo A comem baleias e elefantes-marinhos, as do Tipo B comem focas e pinguins, e as do Tipo C comem peixe, diz Regina Eisert.

Regina já observou orcas do Tipo C a nadarem quase 2 km sob uma camada de gelo – um comportamento arriscado para animais que respiram à superfície. “Estas orcas parecem ter habilidades de navegação excecionais para atravessar o gelo”, diz Regina.

As focas antárticas são mais relaxadas.
Ambas as regiões polares possuem inúmeras espécies de focas que se reproduzem durante a primavera no gelo das regiões costeiras, conhecido por “gelo permanente”.

Sem predadores de superfície, as focas antárticas prosperam tranquilamente – talvez por representarem metade de todos os pinípedes do mundo. No Ártico, por outro lado, as focas estão cientes do seu lugar na cadeia alimentar – um nível abaixo dos predadores terrestres como ursos-polares, raposas, lobos e humanos.

Ian Stirling comparou o estilo de vida das focas-de-weddell da Antártida com o das focas do Ártico. “A diferença mais palpável é a de que podemos caminhar até uma foca deitada no gelo na Antártida, porque não existem predadores terrestres a temer”, diz Stirling. “No Ártico, não nos podemos aproximar mais de 90 metros de uma foca-anelada sem que esta fuja.”

As focas-de-weddell também têm as suas crias no gelo, ao passo que as focas-aneladas escondem a sua prole em lares cobertos de gelo.

Um animal que migra entre ambos os polos.

A andorinha-do-ártico percorre o trajeto mais longo do mundo: cerca de 70.000 km por ano numa migração de ida e volta entre a Gronelândia, onde se reproduz, até à Antártida.

As razões pelas quais estas aves viajam para tão longe são desconhecidas, mas não existem dúvidas de que aperfeiçoaram a sua jornada: durante os seus 30 anos de vida, uma andorinha-do-ártico consegue facilmente voar 2.4 milhões de km, ou 3 viagens de ida e volta entre a Terra e a Lua.

É a isto que se chama de viagem de longo curso.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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