Comer Polvo Está na Moda, mas Será Ético Fazer Criação em Cativeiro?

Os polvos, criaturas muito inteligentes e uma iguaria culinária, estão no centro de uma controvérsia que coloca a conservação de polvo selvagem em colisão com a ética de criação em cativeiro.segunda-feira, 9 de março de 2020

SISAL, YUCATÁN, MÉXICO – Num laboratório húmido e escuro, na costa perto da cidade portuária de Sisal, em Yucatán, Carlos Rosas Vázquez levanta uma das várias dezenas de conchas que enchem um contentor preto de plástico. Carlos conseguiu coagir um ocupante desconfiado do tanque a subir-lhe para a mão. Um polvo do tamanho de um rato que tem tentáculos fantasmagoricamente pálidos e olhos negros enormes, e que se contorce na palma da sua mão e enrosca nos dedos. Até Carlos Rosas, um biólogo da Universidade Nacional Autónoma do México, que trabalha há anos para transformar criaturas como esta em mercadoria lucrativa, fica maravilhado com a sua majestosidade aderente. “Maravilloso!” murmura Carlos.

Pelo mundo inteiro, os polvos são objeto de desejo e admiração. Mas agora também se estão a transformar num ponto de discórdia, à medida que investigadores como Carlos Rosas descobrem formas de viabilizar a criação comercial de polvos e, segundo este investigador, aliviam a pressão crescente que se abate sobre as populações selvagens. Isto não é bom, afirma um novo contingente de críticos: a aquicultura de polvo vai esgotar ainda mais os ecossistemas marinhos e atormentar de forma desnecessária os invertebrados mais sensíveis e inteligentes do planeta.

O polvo (pulpo em espanhol e tako em japonês), um alimento básico da culinária mediterrânica e do leste asiático, é agora uma iguaria a nível mundial impulsionada pela popularidade do sushi, das tapas e pelo desejo de proteínas de alta qualidade. Nos últimos anos, a procura e os preços subiram, mas nas mecas tradicionais de polvo, como em Espanha ou no Japão, as capturas baixaram e, com o aquecimento e acidificação dos oceanos, este declínio pode acentuar-se ainda mais.

À primeira vista, estas criaturas saborosas parecem adequadas para a aquicultura. Mas, para muitas pessoas, significam muito mais do que um petisco. “As pessoas desenvolvem um caso estranho de amor com os polvos”, diz o biólogo Rich Ross, da Academia de Ciências da Califórnia, em São Francisco. “Conheço pessoas que nunca seriam capazes de comer polvo, mas não têm escrúpulos em comer carne de porco, e existem muitas evidências de que os porcos são altamente inteligentes.”

Mas os porcos não são tão graciosos, misteriosos ou carismáticos quanto os polvos. Os cérebros enormes, o comportamento complexo e curiosidade precoce colocaram estes moluscos improváveis no centro das atenções – e também estão no centro de uma batalha emergente sobre a ética e os possíveis impactos ambientais da sua criação em cativeiro. (Leia sobre a nova tendência de ter polvos como animais de estimação.)

Este debate incendiou-se no ano passado, quando Jennifer Jacquet, professora de estudos ambientais na Universidade de Nova Iorque, e vários coautores publicaram uma dissertaçãoO Processo Contra a Criação de Polvo – que rapidamente se tornou viral. A dissertação argumenta que as sombrias “consequências éticas e ambientais” da produção industrial de carne “devem fazer com que nos interroguemos sobre se queremos repetir com os animais aquáticos os erros que cometemos com os animais terrestres, sobretudo com os polvos”.

Grande parte dos métodos utilizados na pesca de polvo continua a ser mais artesanal do que industrial, com pequenas embarcações e técnicas tradicionais. No México, nos estados de Yucatán e Campeche, milhares de pescadores atraem as suas presas com caranguejos presos a longas varas de bambu. De acordo com os relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, grande parte da captura global – que ronda as 420.000 toneladas métricas por ano – vai para os grandes consumidores na Coreia do Sul, Japão, Espanha, Itália, Portugal e, mais recentemente, nos Estados Unidos. Em Espanha, pulpo a la gallega pode ser o prato nacional da região da Galiza, mas esta região importa 20 vezes mais polvo do que consegue capturar.

“Hoje, vou ao mar e apanho 10 ou 20 quilos de polvo”, disse um pescador português a um jornal nacional, “mas antigamente apanhava mais de 100 quilos”. Este pescador e outros pediram um defeso temporário na pesca para as populações conseguirem recuperar.

“Raramente saio para pescar”, diz Antonio Cob Reyes, um pescador de Yucatán. “O mar está cada vez mais lotado – mais pescadores, menos polvo.” Marrocos e a Mauritânia, dois dos principais produtores, têm capturas limitadas para proteger a sustentabilidade.

Os defensores da aquicultura alegam que a criação de polvo é a única forma de garantir esta sustentabilidade e satisfazer a procura. Alguns dos aspetos do ciclo de vida dos polvos também fazem com que estes sejam candidatos atraentes para a aquicultura. Tal como acontece com os salmões, os polvos têm uma vida curta e crescem depressa; as espécies mais comuns vivem entre 1 e 2 anos, e algumas variedades maiores vivem entre 3 a 5 anos. E conseguem ganhar cerca de 5% do seu peso corporal num dia. Mas este ciclo de vida apresenta um obstáculo enorme: não é fácil cuidar das delicadas crias de polvo, chamadas paralarvas, até que estas consigam atingir o referido crescimento vertiginoso.

O problema das crias de polvo
Em 2015, uma empresa australiana alegou ter conseguido obter um sucesso notável no cultivo de lotes de polvo-comum de Sydney. Mas fracassou na criação das paralarvas e regressou a um método antigo – onde se aumenta em cercados aquáticos o tamanho dos polvos selvagens capturados no mar, um sistema que também é usado em Espanha.

O único esforço de criação de polvos feito nos EUA, pela Kanaloa Octopus Farms, na Ilha Havai, deparou-se com a mesma “obstrução”, termo usado pelo fundador Jake Conroy. A Kanaloa Octopus Farms está agora a trabalhar no cultivo de zooplâncton para criar um alimento que consiga sustentar as paralarvas. Mas Jake consegue pagar as contas com o dinheiro que cobra aos visitantes que querem ver, tocar e alimentar os polvos adultos. Jake Conroy, biólogo que se voltou para a aquicultura para fugir da corrida aos escassos financiamentos de investigação, admite que estes encontros de proximidade acabam por desencorajar o consumo. “Nove em cada dez pessoas sai daqui convencida de que não vai comer polvo”, diz Jake. “Vivemos bem com isso.”

Em 2017, a companhia pesqueira japonesa, Nisui, anunciou que tinha “concluído o ciclo de vida” – conseguiu gerações sucessivas de culturas, libertando assim a aquicultura da dependência das capturas selvagens – e antecipou a produção comercial para 2020. Contactada em janeiro, a Nisui disse apenas: “Infelizmente, ainda estamos na fase de investigação e desenvolvimento.”

Atualmente, o grupo Nueva Pescanova, a multinacional de pesca e marisco da Galiza, está a dar continuidade ao trabalho do Instituto Oceanográfico Espanhol naquela que provavelmente pode ser a pesquisa mais avançada em “octocultura”, mas a produção comercial só está prevista para 2023. Ricardo Tur Estrada, chefe de pesquisa da Pescanova e veterano do instituto, diz que, para além de ter criado gerações sucessivas de Octopus vulgaris, o polvo-comum do Atlântico, também prolongou a interrupção de vida útil do polvo.

Na natureza, os polvos reproduzem-se uma vez, depois deixam de caçar e desvanecem; as fêmeas passam as últimas semanas de vida a cuidar dos ovos. (Os polvos do género Nautilus são os únicos membros da família dos cefalópodes, que também inclui lulas e chocos, que se reproduzem repetidamente.) Agora, com uma alimentação cuidadosa e “condições ideais”, diz Tur, “conseguimos salvar a vida das fêmeas, e isso nunca foi documentado antes”. Neste verão, Tur e a sua equipa querem tentar fazer com que uma fêmea “ressuscitada”, criada em cativeiro, consiga voltar a reproduzir. E assim atinge os dois anos de idade, aproximadamente o dobro do tempo de vida útil do Octopus vulgaris.

Para além disso, Tur também diz que “eliminamos a competição e o canibalismo, que são marcas registadas dos polvos, e identificámos um quarto estágio previamente não documentado sobre o ciclo de vida do polvo-comum – o alevim transparente, um estágio de transição entre paralarva e juvenil completamente formado”. Tur acredita que este estágio, quando os animais aprendem a usar os tentáculos e a desenvolver a sua notável pigmentação, ou alteração de cor, pode oferecer informações biológicas importantes. “Também pode ser o estágio perfeito para isolar células estaminais e tentar compreender e, quiçá, talvez imitar a capacidade dos polvos na regeneração de membros perdidos.”

Do outro lado do Atlântico, Carlos Rosas não tem tantos problemas com o ciclo de vida dos polvos. O Octopus maya, a espécie com a qual trabalha, é um dos vários que saltam o estágio paralarval e eclodem logo como mini-polvos completamente formados.

Mas Carlos enfrenta outros desafios: os orçamentos apertados, um problema comum nas investigações feitas no México. A sua resposta foi recrutar mulheres locais – esposas dos pescadores de polvo – para limpar e manter as dezenas de tanques do seu laboratório, em troca de todos os polvos comercializáveis. Estas assistentes de laboratório, que formaram uma pequena cooperativa com Carlos, removem os ovos recém-postos, matam as mães e criam novas gerações para investigação e colheita. “Os dados ficam para mim, os polvos ficam para vocês”, diz Carlos Rosas em tom de brincadeira para duas das assistentes. Impressionados com os resultados, os seus maridos e filhos também se juntaram à cooperativa.

Toda a operação é artesanal. Para alimentar os polvos, as assistentes enchem centenas de pequenas conchas de moluscos com pasta de camarão e peixe, reproduzindo o efeito de presas selvagens e reduzindo o desperdício de alimentos. Os produtos são vendidos por cerca de 6 dólares o quilo; e também podem vender polvos mais pequenos e tenros – que os chefs preferem – mas as autoridades piscatórias protegem e fornecem polvo durante os seis meses em que a pesca está no defeso. Rosas e o governo de Yucatán esperam que esta experiência resulte na criação de mais instalações de aquicultura de polvo, criando empregos nas comunidades mais necessitadas, para além de servir como um amortecedor para os efeitos do aquecimento que está a reduzir as capturas.

‘Particularmente inadequados para uma vida em cativeiro’
No referido Processo Contra a Criação de Polvo, Jennifer Jacquet e os seus coautores – Becca Franks, da Universidade de Nova Iorque, Walter Sanchez-Suarez, ativista dos direitos dos animais, e o filósofo australiano Peter Godfrey-Smith – citam os problemas gerais da criação industrial e da aquicultura. E apontam a tensão e a monotonia do confinamento; as taxas elevadas de mortalidade e o aumento da agressividade; as infeções de parasitas e os problemas do trato digestivo associados à cultura intensiva; e o desperdício de alimentar peixes com peixes que os humanos poderiam comer, esgotando assim os mares.

E também argumentam que, por razões éticas e ecológicas, os polvos são particularmente inadequados para uma vida em cativeiro e produção em massa. O confinamento é particularmente cruel para animais com estes “sofisticados sistemas nervosos e cérebros grandes”, animais capazes de imitar, brincar, e criar complexas estratégias de navegação e de caça, e também de algo que Jacquet chama de “vidas preenchidas”. Os defensores da aquicultura “não levam em consideração o quão rica é a zona entremarés”, referindo-se ao habitat profusamente variado onde as espécies comuns de polvo se alimentam. “Eles não conseguem reproduzir isso.”

Carlos Rosas reconhece a importância das condições dignas e do enriquecimento (a presença de conchas para se esconderem) e diz que o seu laboratório tenta providenciar estes elementos. “Estamos a trabalhar para reduzir a sensibilidade dos polvos à dor quando os sacrificamos”, acrescenta Rosas – adormecendo-os com água gelada e cortando rapidamente o cérebro. “Vamos participar num projeto do Laboratório de Cefalópodes em Nápoles para determinar a melhor forma de os matar mais humanamente.”

Rosas e Tur (ambos amantes declarados de polvo cujos escritórios estão repletos de brinquedos em forma de polvo) usam os restos e desperdícios dos processadores de peixe locais para alimentar os polvos. Jake Conroy, da Kanaloa Octopus Farms, teve menos sorte com os desperdícios da pesca, mas considera usar peixes de espécies invasoras, como garoupas, como alimento.

Este tipo de abastecimento sustentável pode ser mais viável para estes projetos experimentais, ou artesanais, do que para as explorações a nível industrial – contra as quais Jacquet adverte. No entanto, Tur contesta de forma veemente a afirmação feita por Jacquet de que é necessário mais de 1 quilo e meio de comida para cultivar meio quilo de polvo. Tur alega uma taxa de conversão de dois para um.

“Isso não é sustentável, é mais insustentável”, responde Jacquet, acrescentando que, “mesmo que os investigadores consigam reduzir outros impactos ecológicos, o polvo de aquicultura nunca será eticamente correto”. O polvo é um produto de luxo, desnecessário para a segurança alimentar; proibir a sua criação “significaria apenas que os grandes consumidores teriam de pagar mais pelos cada vez mais escassos polvos selvagens”.

Conroy diz que é exatamente por isso que se deve fazer criação de polvo: para aliviar as reservas naturais. “A aquicultura é uma espécie de plano B. Num mundo perfeito, todos estaríamos de acordo, mas é muito difícil convencer todas as pessoas a tornarem-se vegetarianas. Se adotarmos uma visão mais intransigente e se, na natureza, as populações ficarem ameaçadas ou atingirem um ponto onde é impossível recuperar, como é que ficamos?”

Rosas e Tur também justificam a “octocultura” de outra forma: o desenvolvimento comunitário e as investigações a nível básico. Tur passou pelo mesmo que Conroy e também voltou as suas atenções para a aquicultura, porque o financiamento para as investigações era muito escasso. E Tur também acredita que o estudo dos polvos pode trazer enormes dividendos nos antibióticos (devido ao revestimento protetor da mucosa), na regeneração de neurónios e tecidos, e até na robótica. As empresas de robótica conseguiram copiar a elasticidade da sua pele, a mudança de cor, e imitar a sensibilidade dos tentáculos em termos de aderência e para fins de navegação cirúrgica. E um laboratório italiano até inventou um octobot que consegue explorar recantos subaquáticos.

Os defensores e oponentes da “octocultura” estão de acordo sobre uma coisa: as capacidades notáveis dos maravilhosos moluscos. Até agora, nenhuma destas pessoas falou diretamente com as outras. “Não é que eu me oponha a dialogar”, diz Jacquet, “mas não quero ser persuadida pelas personalidades de indivíduos no setor”. Assim, o debate vai permanecer indireto, mas os pratos de tako sashimi e pulpo a la gallega continuam a sair.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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