China Promove o Uso de Bílis de Urso Para Tratar Coronavírus

A Comissão Nacional de Saúde da China publicou uma lista de tratamentos recomendados, incluindo injeções que contêm bílis de urso em pó.

Monday, April 6, 2020,
Por Rachel Fobar
Nas quintas de criação de ursos, na China e no Sudeste Asiático, é extraída bílis para ...

Nas quintas de criação de ursos, na China e no Sudeste Asiático, é extraída bílis para a medicina tradicional através da inserção de um cateter, seringa ou de um tubo nas vesículas biliares dos animais – um processo invasivo e doloroso. Este urso-negro-asiático, no Centro de Resgate de Ursos do Vietname, foi um dos mais de mil ursos resgatados em 2017 das quintas ilegais de bílis do país.

Fotografia de Roberto Schmidt, AFP/Getty

Menos de um mês depois de tomar medidas para banir de forma permanente o comércio e consumo de animais selvagens vivos, o governo chinês recomendou o uso de Tan Re Qing, uma injeção que contém bílis de urso, para tratar casos graves de COVID-19. Este é um dos vários tratamentos recomendados para o coronavírus que figuram numa lista publicada no dia 4 de março pela Comissão Nacional de Saúde da China, o órgão governamental responsável pela política nacional de saúde do país. Esta recomendação salienta o que os defensores de vida selvagem dizem ser uma abordagem contraditória: por um lado, encerram o comércio de animais vivos para consumo, mas por outro promovem o comércio de partes de animais.

Segregada pelo fígado e armazenada na vesícula biliar, a bílis de várias espécies de ursos, incluindo a dos ursos-negros-asiáticos, tem sido usada na medicina tradicional chinesa desde meados do século VIII. Esta bílis contém níveis elevados de ácido ursodesoxicólico, também conhecido por ursodiol, e está clinicamente comprovado que este ácido ajuda a dissolver cálculos biliares e a tratar doenças hepáticas. O ácido ursodesoxicólico está disponível há décadas sob a forma de droga sintética no mundo inteiro.

A Organização Mundial de Saúde diz que ainda não existe uma cura para a COVID-19, apesar de alguns medicamentos, como os analgésicos e xaropes para a tosse, poderem tratar sintomas associados à doença.

Os praticantes de medicina tradicional chinesa usam geralmente Tan Re Qing para tratar bronquite e infeções respiratórias das vias aéreas superiores. Clifford Steer, professor na Universidade do Minnesota, em Minneapolis, estudou os benefícios médicos do ácido ursodesoxicólico. Steer não conhece evidências de que a bílis de urso seja um tratamento eficaz para o novo coronavírus. Mas diz que o ácido ursodesoxicólico é diferente de outros ácidos biliares porque tem capacidade para manter as células vivas e que pode aliviar os sintomas da COVID-19 devido às suas propriedades anti-inflamatórias e capacidade de acalmar a resposta imunitária.

A lei de proteção de vida selvagem da China, promulgada em 1989, encara os animais selvagens como um recurso que deve ser utilizado em benefício dos humanos. Em 2016, esta lei foi alterada para legitimar ainda mais o uso comercial de animais selvagens, afirmando explicitamente que os animais podem ser usados na medicina tradicional chinesa, escreveu Peter Li, especialista em política na Humane Society International da China.

O governo chinês recomendou o tratamento de casos graves de COVID-19 com uma injeção que contém bílis de urso em pó. Não existem evidências que demonstrem que estes tratamentos sejam eficazes contra a doença.

Fotografia de STR, AFP/Getty

Apesar de o uso de bílis de urso de animais em cativeiro ser legal na China, a bílis de ursos selvagens é proibida, e a importação de bílis de urso de outros países também está interditada. De acordo com Aron White, defensor de vida selvagem da Agência de Investigação Ambiental (EIA) – uma organização sem fins lucrativos sediada em Londres que expõe crimes de vida selvagem – a sua agência tomou conhecimento das recomendações do governo chinês para os tratamentos de COVID-19 através de publicações feitas pelos comerciantes ilegais nas redes sociais.

“Estávamos a testemunhar como é que esta recomendação do governo estava a ser adotada pelos traficantes para anunciarem os seus produtos ilegais como uma forma de tratamento”, diz White. “A bílis ilegal de ursos selvagens é produzida na China e também é importada – de ursos selvagens ou em cativeiro – do Laos, do Vietname e da Coreia do Norte.” O comércio ilegal persiste, embora os ursos-negros asiáticos, uma das espécies mais cultivadas para a extração de bílis, estarem protegidos do comércio internacional pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção, a entidade que regulamenta o comércio transfronteiriço de animais selvagens e produtos de animais selvagens.

Os defensores de vida selvagem temem que esta recomendação da China para o uso de injeções de Tan Re Qing, que contêm chifre de cabra em pó e extratos de várias plantas, para além da bílis de urso em pó, aumente o comércio de produtos ilegais de animais selvagens e justifique o abuso de animais. “Existe uma preferência consistente entre os consumidores pelos produtos de animais selvagens, porque geralmente são considerados mais poderosos ou genuínos”, diz White. “Portanto, ter este mercado legal de animais em cativeiro não reduz a pressão sobre as populações selvagens – na verdade, fomenta a demanda que impulsiona a caça furtiva.”

Nas quintas de extração de bílis de urso, na China e no Sudeste Asiático, os animais podem ser mantidos durante décadas em jaulas minúsculas. A bílis é extraída de forma rotineira com a inserção de um cateter, seringa ou de um tubo na vesícula biliar. De acordo com a Animals Asia – uma organização sem fins lucrativos dedicada ao fim da criação de ursos para a extração de bílis – todos os métodos de extração de bílis são invasivos e “provocam dores e infeções”. A Animals Asia também diz que nestas quintas a negligência e as doenças são comuns, e que os consumidores correm o risco de ingerir bílis de ursos doentes que podem estar contaminadas com sangue, fezes, pus, urina e bactérias.

Extração de bílis da vesícula biliar de um urso-negro-asiático sedado. De acordo com a organização sem fins lucrativos Animals Asia, nestas quintas as doenças são comuns e a bílis de animais doentes pode estar contaminada com sangue, fezes, pus, urina e bactérias que podem ameaçar a saúde humana.

Fotografia de Mark Leong, Nat Geo Image Collection

Outro dos medicamentos tradicionais aprovados pela lista da Comissão Nacional de Saúde da China que pode ter muita procura contra a COVID-19 é um comprimido chamado Angong Niuhuang Wan. Este medicamento, usado para tratar febre e diversas doenças, contém tradicionalmente chifre de rinoceronte, algo que é estritamente proibido no comércio global. White diz que, segundo as leis chinesas, os comprimidos devem conter chifre de búfalo, mas alguns comerciantes ilegais continuam a alimentar a venda de comprimidos que contêm chifre de rinoceronte.

A promoção de injeções de Tan Re Qing e de outros tratamentos à base de animais selvagens, numa altura em que Pequim parece ter a intenção de parar com o comércio de animais selvagens vivos, “diz muito sobre as mensagens contraditórias que atualmente saem da China”, diz White.

Mas na China, o uso da medicina tradicional, que na sua grande maioria é feita à base de plantas, tem um legado de milhares de anos e foi a principal forma de assistência médica até ao início do século XX, quando o último imperador da dinastia Qing foi derrubado por um médico de formação ocidental. As curas tradicionais são frequentemente defendidas pelo governo como um pilar da cultura chinesa e, em 2018, a Organização Mundial de Saúde incluiu diagnósticos de medicina tradicional no seu compêndio médico. De acordo com o Ministério de Ciência e Tecnologia da China, durante a pandemia de coronavírus, as autoridades enfatizaram a sua utilização e 85% dos pacientes com COVID-19 recebem algum tipo de tratamento à base de plantas.

A Comissão Nacional de Saúde da China não respondeu aos pedidos para comentar.

Riscos para a saúde humana
White diz que todas as quintas de criação de animais selvagens representam riscos para a saúde humana, e que não faz diferença se os animais são criados pela sua carne ou para medicamentos tradicionais. Por exemplo, em ambos os casos, centenas de animais selvagens vivem amontoados e as pessoas costumam interagir com as suas carcaças.

“Independentemente de os animais selvagens ser consumidos pela sua carne, ou como medicamento, existem sempre riscos na forma como os animais são abatidos, armazenados, processados e consumidos”, diz White. “Se a China está a encerrar as quintas que produzem carne de animais selvagens – sejam pavões, porcos-espinhos ou javalis – porque estes apresentam riscos de doença, então por que razão não estão a olhar também para as outras quintas, para as quintas de ursos e de tigres?”, pergunta White. “Os problemas são muitos e são todos os mesmos. Para além disso, grande parte da medicina tradicional chinesa não usa quaisquer partes de animais selvagens. Isto não precisa de ser uma ameaça para os animais.”

“Quando se trata de COVID-19, o que precisamos é óbvio”, diz Clifford Steer, da Universidade do Minnesota. “No final de contas, o que o mundo precisa é de desenvolver uma vacina que consiga proteger as pessoas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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