Os Golfinhos Selvagens Têm Personalidades Ousadas ou Tímidas – Como os Humanos

Pela primeira vez, um cientista identificou as personalidades de golfinhos selvagens – características que podem afetar a sua sobrevivência.

terça-feira, 21 de abril de 2020,
Por Virginia Morell
Roazes-corvineiros a nadar no Canal Rangiroa, na Polinésia Francesa. Estes mamíferos marinhos vivem em grupos de ...

Roazes-corvineiros a nadar no Canal Rangiroa, na Polinésia Francesa. Estes mamíferos marinhos vivem em grupos de quatro a 30 animais.

Fotografia de Greg Lecoeur, Nat Geo Image Collection


Numa festa, é difícil ignorar as pessoas mais extrovertidas e barulhentas, aquelas que estão sempre dispostas a participar em qualquer jogo, música ou dança, enquanto que as almas mais reservadas ficam provavelmente resguardas e longe das luzes da ribalta.

As investigações que estão a decorrer sobre as personalidades dos animais – sejam insetos, aves canoras, polvos ou primatas – revelam divisões semelhantes: existem indivíduos mais tímidos ou ousados em todas as populações.

Estas diferenças podem afetar a sobrevivência de um animal. Em algumas situações, para procurar comida ou um parceiro, vale a pena ser aventureiro. Em várias espécies, incluindo o peixe-zebra, ser ousado ajuda o indivíduo a encontrar um parceiro para se reproduzir. Noutras situações, ser tímido é menos perigoso para o acasalamento – e resulta em proles maiores.

Agora, um cientista revelou a primeira descoberta de personalidades ousadas e tímidas numa população selvagem de golfinhos roazes-corvineiros, no Golfo de Aranci, em Itália.

Por exemplo, quando se trata de encontrar comida, os golfinhos mais ousados podem ser particularmente úteis para o seu grupo. Estes indivíduos extrovertidos podem ajudar a espalhar informações sociais importantes entre o grupo, como conhecimentos sobre oportunidades de alimentação.

“Pelos estudos feitos em animais em cativeiro, sabíamos que os golfinhos têm estes traços de personalidade, mas essa não é a sua vida normal”, diz Bruno Díaz López, ecologista comportamental do Instituto de Investigação do Roaz-Corvineiro, em Pontevedra, Espanha, e autor da nova investigação. “Agora, sabemos que os golfinhos selvagens têm personalidades e que estas são importantes no seu sistema social – tal como são no nosso.”

Para além disso, a análise revela que os golfinhos extrovertidos têm relações sociais mais fortes do que os tímidos – algo que os investigadores já demonstraram com outras espécies, mas apenas sob condições controladas, como peixes num aquário.

“O estudo deve ser aplaudido por demonstrar ligações que se esperam na vida real, onde a obtenção de dados é muito complicada” diz Orr Spiegel, ecologista comportamental da Universidade de Telavive que não participou no estudo.

Personalidades fortes
Os cientistas estudam os roazes-corvineiros no Golfo de Aranci há 16 anos, um trabalho integrado num estudo a longo prazo sobre estes mamíferos marinhos. Ao contrário de um grupo de orcas ou de babuínos, que vivem em grupos estáveis, os golfinhos vivem nas chamadas “sociedades de fusão-fissão”. Os indivíduos vêm e vão; o tamanho médio de um grupo é de quatro golfinhos, mas alguns podem ter até 30 elementos.


VEJA DEZ FOTOGRAFIAS INCRÍVEIS DE GOLFINHOS

No Golfo de Aranci, os golfinhos interagem regularmente com os pescadores, com os turistas e com os funcionários de uma quinta de aquicultura local, oferecendo a Díaz López uma excelente oportunidade para avaliar as suas personalidades em ação.

Através da análise de mais de mil fotografias de golfinhos do Golfo de Aranci, Díaz López identificou 24 indivíduos adultos – 13 fêmeas e 11 machos – que foram observados diversas vezes.

Os cientistas normalmente identificam a timidez ou ousadia de um animal através da sua resposta a situações novas, arriscadas ou desafiadoras. Um animal com uma personalidade arrojada, por exemplo, tem mais probabilidade de se aproximar de um objeto novo, ou de investigar um potencial predador, do que um animal tímido.

No passo seguinte da sua experiência, Díaz López filmou a reação destes 24 golfinhos a duas novas ameaças: A presença de uma pessoa com equipamento de mergulho e a ativação de um alarme subaquático, projetado para impedir que os golfinhos se aproximem das redes de pesca.

Entre 2004 e 2011, Díaz López fez 192 testes (96 na presença do alarme; 96 na presença de um mergulhador).

Depois, de acordo com o estudo publicado na edição de maio da revista Animal Behavior, o investigador reviu todas as filmagens e mediu a distância entre um golfinho e a nova ameaça.

Díaz López descobriu que alguns dos indivíduos eram muito ousados de forma consistente – ou seja, estavam dispostos a abordar de perto tanto um dispositivo estranho, que emitia um som desagradável, como uma pessoa estranha. E também observou golfinhos que eram consistentemente tímidos, que ficavam em média a aproximadamente 70 metros de distância, e outros que eram consistentemente intermédios nas suas abordagens – que se aproximavam ou evitavam os estímulos.

A consistência dos golfinhos mais ousados na sua aproximação aos objetos, e a dos golfinhos tímidos na sua distância, é “notavelmente alta”, diz por email Andy Sih, ecologista comportamental da Universidade da Califórnia, em Davis.

Elos de ligação familiar
Díaz López também observou com quem é que os outros 24 golfinhos do estudo passaram algum tempo e, a partir destas relações, construiu um modelo das ligações sociais dos animais.

A análise mostra que estas associações variam de acordo com o tipo de personalidade. Os golfinhos mais ousados revelaram ligações sociais mais profundas, com uma preferência acentuada por passar tempo com determinados indivíduos (embora não necessariamente com outros golfinhos ousados) do que os animais tímidos. E os golfinhos eram igualmente ousados ou tímidos independentemente de serem macho ou fêmea.

Como acontece noutros estudos, estas diferenças no comportamento social podem afetar o sucesso reprodutor dos golfinhos individuais ao construírem alianças cooperativas – sobretudo entre machos de outros grupos.

Como os golfinhos ousados passam a maior parte do tempo com outros golfinhos, Díaz López conclui que estes animais podem ter um papel significativo na manutenção dos seus grupos.

Porquê ousado ou tímido?
Tal como muitos dos estudos sobre personalidade animal, esta investigação também não aborda uma questão intrigante: Porquê? “É um estudo sólido e bem feito”, diz Sasha Dall, ecologista comportamental da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

“Porque é que existem traços de personalidade nos golfinhos ou em qualquer outra espécie? Não há uma razão evolutiva para pensar que todas as espécies devem ter indivíduos tímidos ou ousados.”

Sasha Dall pode estar correto. Mas saber que os golfinhos têm os seus aventureiros, e outros que gostam de se resguardar, também nos dá outra perspetiva sobre o seu mundo e, ao fazê-lo, talvez nos ajude a sentir mais proximidade com os golfinhos.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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