Rato Encontrado no Topo de Vulcão com 6.700 Metros Bate Recorde Mundial

Uma nova expedição nos Andes encontrou ratos a viver em altitudes ainda mais elevadas do que se pensava – fazendo destes os mamíferos que vivem nas regiões mais altas do mundo.

quinta-feira, 2 de abril de 2020,
Por Douglas Main
O pequeno rato ‘Phyllotis xanthopygus’ em cima da luva de um investigador, nas enormes altitudes da ...

O pequeno rato ‘Phyllotis xanthopygus’ em cima da luva de um investigador, nas enormes altitudes da encosta do vulcão Llullaillaco. Esta espécie habita em elevações superiores às de qualquer outro mamífero.

Fotografia de Marcial Quiroga-Carmona

No verão passado, uma equipa de cientistas encontrou o mamífero que vive nas regiões mais elevadas do mundo, um rato Phyllotis xanthopygus que foi visto no topo do Llullaillaco, o vulcão mais alto e historicamente ativo do mundo, e que se estende entre a Argentina e o Chile.

Localização do Vulcão Llullaillaco.

É incrível que qualquer coisa consiga viver a esta altitude, a mais de 6.000 metros – onde não há vegetação e aparentemente também não há nada para comer. Aqui, nos limites do deserto de Atacama, há pouca chuva, e as temperaturas chegam a mergulhar abaixo dos 60 graus negativos.

“É difícil exagerar o quão inóspito é aquele ambiente”, diz Jay Storz, biólogo da Universidade de Nebrasca-Lincoln e Explorador National Geographic.

Intrigado com a descoberta, Storz organizou uma expedição ao vulcão em fevereiro especificamente para procurar os roedores – e encontrou-os. Storz descobriu outro Phyllotis xanthopygus a uma altitude superior à que se conhecia anteriormente, no topo do Llullaillaco, a 6.739 metros – batendo assim o recorde anunciado no ano passado.

A investigação, descrita num estudo publicado no dia 14 de março na bioRxiv – onde os artigos estão disponíveis antes da revisão por pares – é o começo de uma jornada científica para compreender como é que estes animais se adaptam e sobrevivem em condições tão hostis. Os resultados podem ajudar-nos a perceber como é que outras criaturas se adaptam a situações extremas e podem até ter aplicações médicas para os humanos que lidam com baixos níveis de oxigénio, seja devido a doença, esforço ou doença da altitude.

Muitos dos ratos, que pertencem a quatro espécies diferentes, foram capturados com recurso a pequenas armadilhas durante a expedição feita em fevereiro, para serem estudados mais aprofundadamente. Mas no cume do Llullaillaco, Storz apanhou um rato com as mãos, exatamente quando estava a chegar ao topo do vulcão. Foi uma questão de sorte, pois só é possível permanecer no cume durante alguns minutos devido às condições de baixo oxigénio e à possibilidade de tempestades violentas.

“Ninguém esperava encontrar os ratos a viver em altitudes tão elevadas”, diz Storz. “E os ratos conseguem viver até onde é possível subir.” O companheiro de escalada de Storz, o alpinista profissional Mario Perez-Mamani, captou o momento em vídeo.


Rato poderoso
O rato Phyllotis xanthopygus é uma espécie conhecida que vive no sopé e nas montanhas dos Andes, e também pode ser encontrada ao nível do mar.

Isto significa que o rato tem uma faixa de alcance de elevação sem precedentes – de mais de 6.700 metros. “Esta faixa de alcance é extraordinária”, diz Scott Steppan, especialista em ratos e professor de biologia na Universidade Estadual da Flórida. “Não há mais nenhuma espécie que faça isto.”

Na expedição de fevereiro, Storz e os seus colegas também encontraram um rato Phyllotis limatus a 5.069 metros, ultrapassando em muito o recorde conhecido para esta espécie. As outras duas espécies foram encontradas próximo, ou no máximo, da sua capacidade de altitude previamente conhecida.

No geral, a expedição sugere que “provavelmente subestimámos os limites de altitude e as capacidades fisiológicas de muitos animais, porque os cumes dos picos mais altos do mundo são relativamente inexplorados pelos biólogos”, diz Storz.

Tudo começou em 2013, quando os alpinistas americanos Matt Farson, médico socorrista, e o antropólogo Thomas Bowen avistaram no vulcão o que mais tarde se viria a supor ser um rato Phyllotis xanthopygus. Em 2016, uma expedição com Steven Schmidt, da Universidade do Colorado, encontrou outro rato no mesmo local e recolheu uma amostra de ADN perto da sua toca, confirmando que se tratava de um Phyllotis xanthopygus. O resultado foi anunciado no final de junho de 2019 na edição anual da reunião da Sociedade Americana de Mamíferos, em Washington D.C.

Adensar de um mistério
O rato Ochotona macrotis, o anterior detentor do recorde de altitude, foi observado a 6.126 metros. Também há relatos de avistamentos de iaques e carneiros-azuis a cerca de 6.096 metros – fora da sua zona habitável conhecida. No caso dos ratos Phyllotis, acredita-se que os indivíduos encontrados façam parte de populações estabelecidas.

Esta descoberta vem adensar o mistério de Llullaillaco, que também é o lar do sítio arqueológico mais alto do mundo, com uma série de múmias incas preservadas quase na perfeição que foram descobertas em 1999 por Johan Reinhard, explorador da National Geographic. Reinhard também reparou nos roedores em altitudes elevadas, embora na altura tivesse assumido que os ratos seguiam os alpinistas e sobreviviam da sua comida. Llullaillaco também possui um dos lagos de maior altitude do mundo e micróbios resistentes que parecem ter vindo de outro mundo.

Esta descoberta levanta muitas questões. Como é que os ratos sobrevivem em altitudes tão elevadas, com temperaturas incrivelmente frias e onde há menos de metade do oxigénio encontrado ao nível do mar? E o que comem?

Os animais podem comer pedaços de detritos soprados pelo vento, mas não parecem ser muito substanciais, diz Storz, que estuda ratos Peromyscus que também vivem ao nível do mar e em elevações acima dos 4.200 metros – são basicamente o equivalente norte-americano dos ratos Phyllotis, diz Storz.

O rato ‘Phyllotis xanthopygus’ tem um alcance de elevação de mais de 6.700 metros, o maior alcance do mundo para qualquer mamífero.

Fotografia de Illustration by Historic Collection, Alamy

Estes animais conseguem sobreviver em altitudes elevadas através de “uma série completa de alterações fisiológicas”, como um metabolismo muscular mais lento e um sistema cardiovascular especializado.

Ainda não terminou
Storz planeia regressar ao Llullaillaco para compreender melhor a capacidade destes animais em suportar estilos de vida tão extremos. Mais especificamente, Storz planeia colocar ratos vivos em câmaras metabólicas para medir o seu VO2 máximo – um indicador do consumo de oxigénio – e realizar outros testes. Este trabalho recebeu financiamento da National Geographic Society e dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, porque uma compreensão mais aprofundada sobre as adaptações à vida em grandes altitudes é “potencialmente relevante no tratamento de várias doenças humanas relacionadas com... problemas de entrega e utilização de oxigénio”, diz Storz.

Estas doenças incluem problemas cardíacos e condições pulmonares como enfisema ou doença pulmonar obstrutiva crónica. Os resultados também podem ajudar os médicos a tratar doenças da altitude e a lidar com a vida a grandes altitudes, ou noutros lugares com baixos níveis de oxigénio.

“A descoberta é completamente inesperada e, portanto, merece uma investigação crucial sobre este animal, para além de pesquisas de campo focadas em outras zonas semelhantes no resto do mundo, para casos paralelos, como os Himalaias”, diz James Patton, professor emérito da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que não participou nesta investigação.

Patton está maravilhado com o facto de um rato conseguir sobreviver nestas condições, e está muito entusiasmado para descobrir mais sobre como é que isto é possível. “É no mínimo espantoso.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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