Ratos Saem dos Esconderijos à Medida que o Confinamento Elimina Lixo Urbano

Com menos lixo no chão e nas traseiras dos restaurantes, os ratos estão a procurar comida noutros lugares.

Monday, April 13, 2020,
Por Emma Marris
Um rato a espreitar através de uma grelha de captação de águas pluviais na cidade de ...

Um rato a espreitar através de uma grelha de captação de águas pluviais na cidade de Nova Iorque. À medida que o confinamento se torna obrigatório devido à pandemia de COVID-19, os ratos estão a ficar mais ousados na sua procura por comida.

Fotografia de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

À medida que os humanos alteram os seus comportamentos diários pelo mundo inteiro, para tentarem retardar a propagação do novo coronavírus, a nossa ausência nas ruas está a ter efeitos colaterais no ecossistema urbano. Entre as alterações mais evidentes: os ratos estão a sair dos seus esconderijos. Os ratos estão a sair à rua em plena luz do dia e a invadir casas numa busca desesperada por comida.

No famoso Bairro Francês de Nova Orleães, os turistas – e o seu lixo – desapareceram. De repente, ratos famintos estão a aventurar-se durante o dia pela cidade, e fazem-no em grandes números. Em Seattle, durante a tarde, foram vistos ratos a lutar nos parques públicos. “E não se assustam, nem fogem disparados”, escreve Charles Mudede, do The Stranger. “Em vez disso, andam todos empolgados no meio das aparas de madeira como se fossem adolescentes num musical do liceu.”

As pessoas que nunca tiveram problemas com ratos estão subitamente a lidar com visitantes indesejados que perturbam o seu isolamento social. Annette e Andreas Spreer guardam frutas e legumes na sua cave desde 1995. Este casal vive em Estugarda, na Alemanha, onde os restaurantes estão encerrados desde o dia 22 de março, e as pessoas ficam em casa o máximo possível. Há alguns dias, pela primeira vez, Annette reparou que algumas das suas batatas pareciam ter sido roídas. “Os ratos não comeram maçãs, couves ou cenouras, apenas batatas”, diz Annette. “Eu não conseguia acreditar que isto podia acontecer.”

De acordo com Robert Corrigan, um especialista muito conhecido em roedores urbanos que colabora com cidades do mundo inteiro, histórias como esta estão provavelmente a acontecer um pouco por todo o lado. Robert diz que, como determinadas colónias de ratos perdem as suas fontes de alimentação estabelecidas – sejam caixotes do lixo nos parques, ou contentores junto aos restaurantes – os ratos começam a lutar por quaisquer restos de comida que encontrem. E alguns ratos até matam e comem a sua própria espécie para sobreviver. (Corrigan diz que os ratos no parque de Seattle estavam provavelmente a “lutar pela presa”.) E outros aventuram-se pelo desconhecido à procura de novas fontes de alimento.

Ratos à procura de comida numa lata do lixo, na baixa de Manhattan, antes da pandemia de coronavírus. Normalmente, os nova-iorquinos que vivem na baixa e no centro da cidade deixam lixo suficiente nas ruas para os ratos viverem as suas vidas a menos de 50 metros de onde nasceram, mas agora é provável que se aventurem nas casas das pessoas à procura da refeição seguinte.

Fotografia de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

Em casa para jantar
Quando os ratos estão famintos e sentem o cheiro a comida vindo da nossa casa, existem boas probabilidades de tentarem entrar. “Se conseguirem, vão seguir o olfato e tentar entrar por baixo da porta”, diz Corrigan.

E uma vez dentro de casa, farão tudo o que é preciso para encontrar comida e sobreviver. “São animais selvagens, vão procurar comida pela casa”, diz Corrigan. “Se houver um bebé num berço com um biberão, eles vão seguir esse odor. E podem mastigar fios e até trazer os seus próprios vírus. Ratos em casa é um caso sério.”

Os próprios ratos podem transmitir doenças. Não existem evidências de que possam ficar infetados pelo SARS-CoV-2, o vírus que provoca a COVID-19. Mas Corrigan teme que os ratos possam deslocar o vírus quando andam pelos canos de esgoto repletos de fezes e depois passeiam pelas nossas casas. “Se nós podemos transmitir o vírus com a ponta dos nossos dedos, é óbvio que os ratos também o podem transmitir com as suas patas, pelos e caudas”, diz Corrigan.

Mas se um rato do esgoto trouxer fezes humanas para a nossa casa, não devemos entrar em pânico. Apesar de o vírus ter sido encontrado em fezes de pacientes infetados, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA diz que o risco de transmissão a partir de fezes é reduzido.

Higiene caseira
De qualquer forma, este pode ser um bom momento para melhorarmos a nossa higiene caseira, tal como muitos de nós intensificámos a lavagem das mãos. Os recipientes do lixo ao ar livre devem ter tampas seguras e bem ajustadas. As fendas debaixo das portas e outras aberturas para o exterior devem ser seladas. Os ratos conseguem espremer-se debaixo de uma porta que fique a menos de 2 centímetros do chão, e conseguem passar entre fendas do mesmo tamanho, diz Corrigan.

Se ratos ou ratazanas entrarem na nossa casa, sobretudo durante este período de confinamento, nem tudo está perdido. Os serviços de controlo de pragas são considerados “serviços essenciais” e estão em funcionamento, diz Jim Fredericks, entomologista chefe da Associação Nacional de Gestão de Pragas dos EUA. “As pessoas encaram o controlo de pragas como um luxo, ou acham que as pragas são apenas um incómodo, mas existem muitas pragas que ameaçam não só a saúde pública como o abastecimento de alimentos e as nossas propriedades”, diz Fredericks.

Ratos a emergirem de uma fenda no passeio de Pearl Street, na cidade de Nova Iorque.

Fotografia de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

O risco apresentado pelos roedores é bastante significativo, diz Fredericks, e caso seja necessário, vale a pena deixar entrar um especialista em controlo de pragas na nossa casa. Fredericks recomenda que, se for preciso ligar para agendar uma marcação, devemos perguntar à empresa quais são as medidas tomadas para minimizar o risco de coronavírus com a entrada do técnico. “As empresas de controlo de pragas estão a adaptar-se a esta nova realidade”, diz Fredericks. “Temos relatos de membros que estão a obter formação adicional em termos de distâncias de segurança, métodos de higienização e lavagem das mãos.”

Fredericks acrescenta que, se os roedores estiverem famintos o suficiente, ao ponto de se mudarem para novos lugares à procura de comida, provavelmente também terão fome o suficiente para cair em armadilhas. (Lembre-se de que alguns métodos utilizados nas armadilhas são mais dolorosos do que outros: as armadilhas de veneno e cola matam lenta e dolorosamente, enquanto que as boas armadilhas matam de forma instantânea. Também existe a opção das chamadas armadilhas vivas, seguidas da libertação no campo ou na floresta.)

Existem ratos diferentes que ocupam diferentes nichos ecológicos na cidade. Os ratos nos parques podem ser particularmente atingidos porque as lixeiras estão vazias e não há piqueniques. Estes ratos, que são forçados a procurar comida ao ar livre, podem tornar-se presas fáceis para algumas aves e outros animais.

Pelo menos a curto prazo, enquanto estamos fechados em casa, estes predadores podem ser os reis da selva urbana e engordar alegremente nas ruas desertas.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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