Descoberto Novo Cavalo-marinho Pigmeu, o Primeiro do Seu Género em África

“É o mesmo que encontrar um canguru na Noruega”, diz um dos investigadores da nova espécie de peixe – que tem o tamanho de uma lentilha – encontrada a 8 mil quilómetros dos seus parentes mais próximos.

Wednesday, May 27, 2020,
Por Douglas Main
O Hippocampus nalu, também conhecido por cavalo-marinho pigmeu africano, tem o tamanho de um grão de ...

O Hippocampus nalu, também conhecido por cavalo-marinho pigmeu africano, tem o tamanho de um grão de arroz e foi encontrado bem camuflado entre algas e areia na Baía de Sodwana, na África do Sul.

Fotografia de Richard Smith

Nas águas agitadas e repletas de rochas no leste da África do Sul, uma equipa de investigadores descobriu uma nova espécie: um cavalo-marinho pigmeu do tamanho de um grão de arroz.

A descoberta surpreendeu a equipa porque todas as sete espécies de cavalos-marinhos pigmeus, exceto uma que existe no Japão, vivem no Triângulo de Coral, uma região de biodiversidade no sudoeste do Pacífico que tem mais de 5 milhões de quilómetros quadrados. Este novo cavalo-marinho vive a 8 mil quilómetros de distância, e é o primeiro cavalo-marinho pigmeu observado em todo o Oceano Índico e no continente africano.

“É o mesmo que encontrar um canguru na Noruega”, diz Richard Smith, biólogo marinho sediado no Reino Unido e coautor de um novo estudo sobre esta espécie conhecida por cavalo-marinho pigmeu africano, ou cavalo-marinho pigmeu da Baía de Sodwana. O segundo nome refere-se ao local onde foi encontrado, um sítio de mergulho muito conhecido perto da fronteira com Moçambique.

Esta nova espécie é parecida com outros cavalos-marinhos pigmeus, mas tem um conjunto de espinhos nas costas com pontas afiadas, diz o coautor do estudo, Graham Short, ictiologista da Academia de Ciências da Califórnia e do Museu Australiano de Sydney. Por outro lado, os outros cavalos-marinhos pigmeus têm espinhos de ponta plana.

“Não sabemos qual é o propósito destes espinhos”, diz Graham. “Muitas espécies de cavalos-marinhos são geralmente espinhosas, pelo que a sua presença pode ser devido à seleção sexual – as fêmeas podem preferir machos espinhosos.”

Esta descoberta surpreendente, descrita num estudo publicado no dia 19 de maio na revista ZooKeys, mostra o quão pouco sabemos sobre o oceano, principalmente quando se trata de pequenas criaturas, dizem os autores – e que provavelmente há muito mais espécies de cavalos-marinhos pigmeus por identificar.

“Uma dádiva do mar”
A instrutora de mergulho Savannah Nalu Olivier encontrou a criatura na Baía de Sodwana em 2017, enquanto examinava algas no fundo do mar. A baía é conhecida por ter muitas espécies raras de peixes, tubarões e tartarugas marinhas.

Savannah partilhou as fotografias do cavalo-marinho com os seus colegas e, em 2018, Richard Smith acabou por ter acesso às imagens. Richard e a sua colega Louw Claassens recolheram vários espécimes do animal a profundidades de 12 a 14 metros.

Os investigadores denominaram o novo cavalo-marinho de Hippocampus nalu, em homenagem a Savannah Olivier, cujo apelido é apropriadamente Peixe. (E Savannah também é do signo Peixes.) Nas línguas sul-africanas Xhosa e Zulu, “nalu” pode traduzir-se para “aqui está”.

“Eu disse à Savannah que isto era uma dádiva do mar”, diz Louis Olivier, pai de Savannah e dono da empresa de mergulho Pisces Diving Sodwana Bay. Louis acrescenta que está “muito entusiasmado com a descoberta dela”.

Anatomia misteriosa
Richard enviou vários exemplares desta nova espécie a Graham, que analisou a sua genética e estrutura corporal através de um aparelho de tomografia computadorizada.

A investigação revelou que, à semelhança do que acontece com outros cavalos-marinhos pigmeus, o animal recém-descoberto tem duas estruturas em forma de asa nas costas, em vez de uma, como acontece com os cavalos-marinhos maiores. Estas “asas” servem um propósito desconhecido nos cavalos-marinhos.

E tal como os outros cavalos-marinhos pigmeus, a espécie africana tem apenas uma guelra na parte superior das costas, em vez de duas por baixo das laterais na cabeça, novamente como os cavalos-marinhos maiores – outro mistério.

“É o mesmo que ter um nariz na parte de trás do pescoço”, diz Graham.

Mas este novo cavalo-marinho é único entre os seus parentes minúsculos porque foi encontrado a viver em algas semelhantes a turfa, no meio de rochas e areia. A Baía de Sodwana tem ondas enormes, mas os pequenos cavalos-marinhos parecem confortáveis a lidar com as forças do mar, diz Richard, que observou um cavalo-marinho pigmeu a ficar coberto de areia e depois a afastar-se.

“Eles são regularmente atingidos pela areia”, diz Richard Smith, que escreveu um livro sobre criaturas marinhas chamado The World Beneath. “Os outros cavalos-marinhos pigmeus, que se mantêm nas águas mais calmas em torno dos recifes de coral, são mais delicados. Mas esta [espécie] é feita de um material mais resistente.”

Acredita-se que esta versão africana, à semelhança do que acontece com os outros cavalos-marinhos pigmeus, se alimenta de pequenos copépodes e crustáceos. E o Hippocampus nalu também está bem camuflado para se misturar com o ambiente.

Muito por descobrir
“Esta descoberta demonstra que ainda há muitas coisas por encontrar nos oceanos, incluindo nas águas rasas perto da costa”, diz Thomas Trnski, chefe do departamento de ciências naturais do Museu de Auckland, na Nova Zelândia, que não participou no estudo. Quase todos os cavalos-marinhos pigmeus foram descobertos nos últimos 20 anos, acrescenta Thomas.

O único cavalo-marinho pigmeu encontrado fora do Triângulo de Coral é o cavalo-marinho pigmeu japonês, também conhecido por “porco do Japão”, descrito pela primeira vez em agosto de 2018.

Embora as populações de cavalos-marinhos “normais” tenham diminuído em muitas áreas devido à sua colheita para o uso na medicina tradicional chinesa e no comércio de aquários, esse problema não se verifica nos cavalos-marinhos pigmeus porque são difíceis de encontrar, diz Graham Short. “Dito isto, algumas destas espécies têm densidades populacionais muito baixas e não existem dados suficientes para se ter uma boa noção da sua quantidade.”

Estes cavalos-marinhos só conseguem percorrer curtas distâncias através das correntes e o estudo sugere que o Hippocampus nalu divergiu dos antepassados de todas as espécies conhecidas de cavalos-marinhos pigmeus há mais de 12 milhões de anos.

“Isto significa que é extremamente provável que existam muito mais espécies de cavalos-marinhos pigmeus por descobrir no oeste do Oceano Índico e não só”, diz Graham Short.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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