Cães Podem Ser ‘Sistemas de Alerta Precoce’ Para a Presença de Químicos Tóxicos em Casa

Os cães e as pessoas têm quantidades notavelmente semelhantes de produtos químicos no corpo, e isto pode traduzir-se num benefício para a saúde humana.

Tuesday, June 16, 2020,
Por Carrie Arnold
Os cães domésticos têm características físicas e doenças semelhantes às dos humanos, sobretudo doenças oncológicas.

Os cães domésticos têm características físicas e doenças semelhantes às dos humanos, sobretudo doenças oncológicas.

Fotografia de Robin Siegel, Nat Geo Image Collection


Mais de 10 mil anos de domesticação tornaram os cães muito semelhantes aos humanos, desde a capacidade de ler expressões faciais até aos genomas intimamente relacionados. Agora, um novo estudo revela que os cães e os humanos também têm os mesmos químicos tóxicos nos seus corpos – uma descoberta que pode melhorar a saúde humana.

Muitos dos itens do nosso dia a dia, sejam embalagens de alimentos ou cosméticos, contêm substâncias nocivas, como pesticidas; retardadores de incêndio; e ftalatos, que são utilizados para amolecer o plástico. A exposição crónica a longo prazo a estes três grupos de químicos comuns tem sido associada a doenças nas pessoas, incluindo vários tipos de cancro.

Como os cães são muito parecidos connosco e partilham o mesmo espaço de habitação, os cientistas decidiram fazer a primeira investigação sobre a forma como os produtos químicos industriais afetam não só os humanos, mas também os cães que vivem na mesma casa.

Usando pulseiras e colares de silicone – uma tecnologia relativamente recente que deteta a exposição a substâncias químicas – a equipa encontrou semelhanças notáveis entre as cargas químicas dos cães e dos seus donos, de acordo com o estudo, publicado recentemente na Environmental Science and Technology.

Estes resultados são encorajadores, diz Catherine Wise, líder do estudo, porque mostram que os cães podem agir como sistemas de alerta precoce para a saúde humana, fornecendo pistas valiosas sobre os efeitos nocivos destas exposições.

Muitas vezes, passam-se décadas até que as doenças relacionadas com produtos químicos se manifestem nas pessoas, mas o impacto nos animais de estimação pode demorar apenas alguns anos, diz Catherine, doutoranda na Universidade Estadual da Carolina do Norte. Assim, por exemplo, se os cientistas descobrissem que os ftalatos davam origem a cancro de forma consistente nos cães, poderiam oferecer orientações para que as pessoas ficassem mais vigilantes em relação ao contacto que mantêm com os plásticos.

Catherine acrescenta que a sua investigação é particularmente relevante neste momento devido à pandemia de coronavírus.

“Quando muitos de nós estamos mais tempo fechados em casa com os nossos cães, a importância do nosso ambiente partilhado é mais importante do que nunca.”

Canino na mina de carvão
Saber que a exposição a produtos químicos afeta os nossos animais de estimação não é assim tão surpreendente, mas o que ninguém sabia era o quão intimamente correlacionadas estas exposições eram, nem como se desenrolavam ao longo da vida de um animal de estimação, diz Matthew Breen, coautor do estudo e especialista em oncologia canina na Universidade da Carolina do Norte.

“Os cães têm cancros muito semelhantes aos nossos, pelo que faz sentido que possam estar nesta situação porque partilham o mesmo espaço que nós”, diz Breen. “Um cão respira o mesmo ar e bebe a mesma água, e quando atiramos uma bola para o cão ir buscar no parque, ele corre pela mesma relva tratada com herbicida.”

Para o estudo, Matthew Breen e Catherine Wise enviaram 30 pares de pulseiras e coleiras de silicone para os donos e respetivos cães em Nova Jersey e na Carolina do Norte, e pediram aos participantes do estudo para as usarem durante cinco dias. Os participantes enviaram depois os itens de volta a Catherine e Matthew, que embeberam as pulseiras e as coleiras num solvente químico para extrair os compostos recolhidos.

Os níveis de poluentes eram semelhantes nos cães e nos humanos. Por exemplo, os cientistas encontraram um tipo de bifenilo policlorado (PCB) em 87% das pulseiras humanas e em 97% das coleiras dos cães. Estes produtos químicos eram amplamente utilizados em fluidos refrigerantes para circuitos eletrónicos e numa variedade de processos industriais, até que o governo dos EUA proibiu a sua utilização em 1979. (Descubra como a contaminação por PCB pode dizimar metade da população mundial de orcas.)

O silicone é muito eficaz porque absorve passivamente os químicos de uma forma muito semelhante ao que acontece com as células humanas, dando aos cientistas uma ideia não só dos químicos com que uma pessoa entra em contacto enquanto usa a pulseira, mas também das quantidades. Até agora, os cientistas só conseguiam medir os químicos encontrados no sangue e na urina, diz Kim Anderson, toxicologista ambiental da Universidade Estadual do Oregon, que desenvolveu a tecnologia das pulseiras.

“Nós podemos estar expostos exatamente à mesma coisa, durante o mesmo período de tempo, mas isso vai aparecer de formas muito diferentes na nossa urina”, diz Kim, e isso dificulta uma avaliação concreta sobre a exposição de uma pessoa a um químico.

Mas Kim alerta que os estudos deste género não conseguem provar que um determinado composto provoca um resultado específico: só podem revelar associações.

Ligações químicas
O estudo baseia-se em trabalhos feitos anteriormente com outros animais, incluindo cavalos e gatos. Em 2019, Kim Anderson descobriu uma associação entre os retardadores de incêndio e uma doença nos gatos – conhecida por hipertireoidismo felino. Isto acontece porque os gatos gostam de dormir em móveis estofados, que geralmente contêm retardadores de incêndio.

Kim Anderson também adaptou a coleira de silicone para ser usada por cavalos e publicou um estudo em abril onde revelava um vínculo forte entre os potros doentes e os químicos libertados por uma operação de fraturamento hidráulico perto da Pensilvânia.

10 FOTOGRAFIAS ADORÁVEIS COM CÃES

Agora que Catherine Wise e Matthew Breen estabeleceram esta ligação com os cães, planeiam usar o mesmo método para estudar a forma como os produtos químicos estão ligados ao cancro da bexiga nos cães. E investigações feitas anteriormente descobriram ligações entre a exposição de um cão a herbicidas na relva e o desenvolvimento de cancro da bexiga.

Mas o estudo só vai prosseguir quando o laboratório reabrir. Neste momento, Catherine ainda está em casa a perseguir Simbaa, a sua cadela adotada. “Ela faz-me companhia e, de vez em quando, ainda dá um ar da sua graça nas videochamadas por Zoom, mas tem de competir pela atenção com os nossos outros dois gatos, o Loki e a Nebula.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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