Golfinhos Aprendem a Usar Ferramentas Observando os Seus Pares – Tal Como os Hominídeos

Novo estudo contraria a crença de que apenas as mães é que ensinam a caçar, fomentando as evidências crescentes de inteligência nos golfinhos, dizem os especialistas.

Tuesday, June 30, 2020,
Por Liz Langley
Roazes-corvineiros procuram comida no Canal Rangiroa da Polinésia Francesa. Estes mamíferos marinhos usam dois tipos de ...

Roazes-corvineiros procuram comida no Canal Rangiroa da Polinésia Francesa. Estes mamíferos marinhos usam dois tipos de ferramentas para encontrar comida, um comportamento raramente observado na natureza.

Fotografia de Greg Lecoeur, Nat Geo Image Collection

Em Shark Bay, na Austrália, foram observados roazes-corvineiros sem afinidade direta a ensinarem uns aos outros uma nova forma de usar uma ferramenta, um comportamento que até agora os cientistas encontraram apenas nos humanos e noutros hominídeos.

E também é o primeiro exemplo conhecido de golfinhos a transmitirem este conhecimento dentro da mesma geração, e não entre gerações. Isto é importante, dizem os autores, porque esta aprendizagem social entre pares é rara na natureza.


Numa prática conhecida por concha, os golfinhos perseguem peixes que se escondem em conchas enormes abandonadas no fundo do mar e depois trazem as conchas para a superfície, sacudindo-as com o bico para drenar a água e capturar os peixes que caem das conchas.

Geralmente as mães golfinho é que ensinam os seus filhos a caçar: as mães de golfinhos de Shark Bay, por exemplo, ensinam a sua prole a esponjar, outra forma de utilização de ferramentas em que os golfinhos colocam esponjas nos bicos para se protegerem enquanto procuram comida entre as rochas.

Um golfinho de Shark Bay usa a técnica concha, um dos dois únicos exemplos conhecidos de utilização de ferramentas nos cetáceos.

Fotografia de Sonja Wild, Dolphin Innovation Project

“O facto de a prática concha ser socialmente transmitida entre pares de golfinhos, em vez de mãe para filho, estabelece um marco importante e revela semelhanças com determinados primatas, que também dependem da aprendizagem vertical e horizontal nos comportamentos de forrageio”, disse através de comunicado à imprensa Michael Krützen, autor sénior do estudo e antropólogo da Universidade de Zurique.

Embora os golfinhos e os hominídeos tenham histórias e habitats evolutivos muito diferentes, ambos são mamíferos de vida longa e têm cérebros grandes, com capacidades tremendas para a inovação e cultura, diz Krützen.

Maggie Stanton, psicóloga da Faculdade Franklin & Marshall, na Pensilvânia, que estudou golfinhos em Shark Bay e chimpanzés no Parque Nacional de Gombe Stream, na Tanzânia, concorda com esta afirmação. Maggie diz que, em Gombe, uma família de chimpanzés pode ter aprendido a usar ferramentas – para extrair formigas – com um chimpanzé fêmea que se juntou à comunidade.

Desvendar um mistério
Em 2007, Krützen iniciou um estudo sobre os golfinhos de Shark Bay, identificando mais de mil golfinhos individuais ao longo de 11 anos. Durante este período, os cientistas observaram 42 vezes a técnica concha entre 19 golfinhos. Metade destes eventos aconteceu em 2011, depois de uma vaga de calor marinha poder ter provocado um declínio entre os caracóis gigantes do mar, aumentando o número de conchas descartadas no fundo do oceano.

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Devido ao longo período de duração do estudo, os cientistas têm conhecimentos aprofundados sobre as histórias, as idades, os sexos e os comportamentos das famílias de golfinhos, facilitando assim o estudo dos 19 golfinhos que praticam a técnica concha. Por exemplo, os investigadores observaram que os golfinhos que praticam esta técnica costumam nadar com outros golfinhos que fazem o mesmo, pelo que é provável que copiem as ações dos indivíduos com quem passam o tempo, diz Sonja Wild, autora principal do estudo e investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Konstanz, na Alemanha.

De acordo com o estudo, publicado no dia 25 de junho na Current Biology, os golfinhos que usam esta técnica fazem todos parte da mesma faixa geracional.

A equipa sabia que os fatores ambientais – sobretudo se os golfinhos praticavam a técnica concha porque viviam perto de uma região rica em conchas – poderiam explicar a transmissão deste conhecimento entre pares. Outra das possíveis razões podia dever-se a um traço genético entre um grupo familiar.

Os investigadores combinaram os seus dados de observação de golfinhos, bem como os dados genéticos e ambientais, num modelo de computador para simular várias formas pelas quais a técnica concha podia ser transmitida entre golfinhos. De acordo com o estudo, o modelo que suporta a transmissão horizontal foi o que obteve resultados mais significativos.

Apesar de um conjunto de 42 observações oferecer poucos dados, os cientistas acrescentam que é provável que este comportamento seja comum; porque acontece apenas durante alguns segundos e pode ser difícil de avistar a partir de um barco.

Liberdade social
Os golfinhos, tal como os chimpanzés, vivem em comunidades ligeiramente abertas, onde os indivíduos se movem livremente de grupo em grupo. Isto significa que estão mais expostos a animais – e comportamentos – diferentes e de uma forma mais regular do que, digamos, uma comunidade de babuínos, que tem um grupo fixo de membros.

Sonja diz que é semelhante ao que acontece com os humanos, “umas vezes estamos com um grupo de amigos e outras vezes estamos com o nosso grupo familiar, e isso altera-se ao longo do dia”. (Relacionado: Os golfinhos têm personalidades ousadas e tímidas, como nós.)

Sonja acrescenta que esta nova investigação é notável pela sua magnitude, sobretudo porque leva em consideração as razões genéticas e ambientais no uso da técnica concha.

“Estes estudos de campo feitos a longo prazo oferecem dados inestimáveis – não é possível obtê-los de outra forma.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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