Tartarugas Marinhas Podem Transportar Mais de 100 Mil Animais Minúsculos nas Carapaças

O estudo das inúmeras criaturas que vivem nas carapaças das tartarugas-marinhas-comuns pode ajudar os cientistas a rastrear e compreender melhor estes répteis.

Monday, June 22, 2020,
Por Corryn Wetzel
Uma tartaruga-marinha-comum perscruta ervas marinhas. Quando agitam o fundo do mar, as tartarugas podem dar boleia ...

Uma tartaruga-marinha-comum perscruta ervas marinhas. Quando agitam o fundo do mar, as tartarugas podem dar boleia a milhares de animais minúsculos – animais como nematoides, crustáceos e hidroides.

Fotografia de Brian Skerry, Nat Geo Image Collection

As tartarugas-marinhas-comuns fazem migrações de milhares de quilómetros pelos oceanos do planeta, mas não viajam sozinhas – investigações revelam que transportam populações surpreendentemente diversas e abundantes de criaturas minúsculas nas suas carapaças.

Um novo artigo publicado no dia 20 de maio na revista Diversity mostra que as tartarugas marinhas transportam em média 34 mil meiofauna individuais – organismos minúsculos com menos de um milímetro. E uma tartaruga-marinha-comum leva quase 150 mil animais individuais na sua carapaça, incluindo nematoides, larvas de crustáceos e camarões.


“Existe literalmente um mundo inteiro ali”, diz Jeroen Ingels, ecologista marinho na Universidade Estadual da Flórida. “É extravagante encontrar este tipo de diversidade sobre outro organismo.”

Jeoen Ingels e a sua equipa descobriram mais de uma centena de novas espécies de meiofauna, sobretudo nematoides, que nunca tinham sido encontradas anteriormente em tartarugas-marinhas-comuns ou noutras tartarugas. A equipa fez as suas descobertas analisando 24 tartarugas-marinhas-comuns que chegaram à Ilha St. George, na Flórida, em junho de 2018.

Já se sabia que as tartarugas davam boleia a algumas criaturas, mas esta quantidade e grau de diversidade nunca tinham sido documentados, diz Ingels.

O estudo dos pequenos viajantes pode ajudar os investigadores a rastrearem os trajetos destas e de outras tartarugas marinhas, visto que determinadas meiofauna são exclusivas de regiões específicas, para além de poder ajudar nos futuros esforços de proteção das tartarugas-marinhas-comuns. A investigação também pode ajudar a explicar como é que os pequenos animais se movem pelo oceano, algo que ainda permanece um mistério.

Mundos flutuantes
“A meiofauna ocupa todos os pequenos espaços que outros organismos não conseguem”, diz Ingels, “por isso é normal encontrá-la nas tartarugas. Mas a enorme quantidade foi uma surpresa”.

Estes animais microscópicos incluem nematoides que parecem vermes minúsculos e que existem em praticamente todos os ambientes da Terra, desde as profundezas do mar até ao solo das montanhas mais elevadas. A equipa também encontrou criaturas parecidas com camarões, chamadas anfípodes, pequenos crustáceos chamados copépodes, e predadores parecidos com alforrecas, chamados hidroides.

A vida na carapaça é muito competitiva, diz Ingels. Muitos dos viajantes maiores, como camarões e caranguejos, costumam atacar os habitantes das carapaças mais pequenas. Os nematoides comem bactérias e detritos que ali se depositam e, nalguns casos, até chegam a comer outros nematoides.

Na imagem vemos uma espécie de camarão-esqueleto, um tipo de anfípode muito abundante nas carapaças de tartarugas-marinhas-comuns. Os investigadores encontraram mais de 100 mil camarões-esqueleto nas 24 tartarugas estudadas.

Fotografia de Dr. Jeroen Ingels

“É um mundo microscópico extremamente diversificado que está em interação, e sobre o qual sabemos muito pouco”, diz Ingels.

Alguns dos animais maiores, como as cracas, conseguem incrustar-se e danificar a carapaça de uma tartaruga, aumentando assim a força de arrasto, mas também podem ajudar como forma de camuflagem. É pouco provável que a minúscula meiofauna prejudique as tartarugas. “As tartarugas têm parasitas e pragas, sem dúvida, mas a meiofauna não faz parte disso.”

Nathan Robinson, investigador de tartarugas marinhas da Fundación Oceanogràfic, em Valência, Espanha, que não participou nesta investigação, diz que faz sentido que as carapaças das tartarugas marinhas estejam abundantemente cobertas de vida. “Temos um tipo perfeito de plataforma, uma jangada, para navegar pelo oceano”, diz Nathan. “Isto significa que somos constantemente arrastados por uma corrente maravilhosa repleta de comida, e é um grande benefício para os animais filtradores, como as cracas e esponjas.”

Coleção criteriosa
Ingels e os seus colegas estudam as tartarugas-marinhas-comuns na Ilha de St. George porque é um dos locais de nidificação mais densos no norte do Golfo do México. Para encontrar os animais, os investigadores usam lâmpadas de tons avermelhados, um comprimento de onda de luz menos perturbador para as tartarugas que também não interfere na visão noturna humana. Para trabalhar com as tartarugas, a equipa fez formação e obteve uma certificação da Comissão de Conservação de Peixe e Vida Selvagem da Flórida.

A recolha de amostras é feita de forma rápida, e a equipa só se aproxima de uma tartaruga quando esta já está a regressar ao mar. “É crucial não interferir nas probabilidades que uma tartaruga tem para colocar todos os ovos”, diz Ingels.

Durante a recolha de amostras, os cientistas agacham-se em torno de um animal e usam facas de plástico para libertar gentilmente as criaturas que viajam à boleia. Depois, usam esponjas embebidas em água doce para recolher os organismos minúsculos que são invisíveis a olho nu.

Os investigadores tentam remover pequenos animais da carapaça de uma tartaruga-marinha-comum. Esta fotografia foi tirada durante as atividades de pesquisa permitidas pela Comissão de Conservação de Peixe e Vida Selvagem da Flórida, em condições não prejudiciais para o animal. Normalmente, é ilegal manusear ou tocar nas tartarugas marinhas. Esta imagem foi captada sob uma luz vermelha, menos perturbadora para as tartarugas, e convertida a preto e branco em pós-processamento.

Fotografia de Dr. Matthew Ware

No laboratório, a equipa usa peneiras de malha fina para separar os organismos maiores, como moluscos ou caranguejos mais pequenos, da minúscula meiofauna. Com o microscópio, começam a classificar e a identificar o que encontraram.

“A primeira vez que vemos aquelas amostras, é sempre muito emocionante, porque não sabemos o que vamos encontrar”, diz Ingels.

Ingels não vai poder estudar as tartarugas que regressam para nidificar em junho, devido às restrições associadas à pandemia do novo coronavírus, mas está ansioso para ver quais serão as novas criaturas que vão chegar com as tartarugas no ano que vem – sobretudo as que já foram estudadas e marcadas.

Ferries de microrganismos
O estudo levanta questões sobre como é que estes pequenos animais conseguem aceder às tartarugas – e sobre a importância das tartarugas na sua movimentação.

É provável que as tartarugas apanhem muitos dos viajantes quando se alimentam junto ao fundo do mar – uma zona de foco para a meiofauna – e agitam a área circundante, fazendo com que muitas criaturas consigam uma habitação nas suas carapaças, diz Ingels.

Theodora Pinou, bióloga de tartarugas marinhas e professora na Universidade Estadual Western Connecticut, que não participou nesta investigação, diz que as tartarugas podem entrar em contacto com as criaturas simplesmente através das suas atividades, ou devido ao ambiente que as rodeia, e não porque existe algo de especial ou de hospitaleiro na carapaça.

“Não creio que a tartaruga tenha algum magnetismo”, diz a bióloga. Theodora Pinou descobriu que as tartarugas-marinhas-comuns que vivem no Oceano Atlântico transportam mais animais do que as suas homónimas do Oceano Pacífico. E suspeita que isso se possa dever às diferentes condições ambientais e diferentes níveis de abundância de meiofauna.

Independentemente da forma como os pequenos animais chegam às carapaças, as tartarugas atuam como jangadas, e transportam animais ao longo de enormes distâncias durante as migrações. Isto pode ajudar a explicar como é tantos animais minúsculos se tornaram tão bem distribuídos, algo que permanece um mistério, pois muitas destas criaturas não conseguem nadar muito, nem sobreviver no mar aberto durante longas distâncias.

“Um pedaço flutuante de cracas ou até de gelo marinho pode transferir determinados organismos de um lado para o outro, mas com uma escala e frequência muito diferentes das verificadas com as tartarugas marinhas”, diz Ingels.

Rastreio biológico
O rastreio das longas viagens das tartarugas marinhas é difícil e dispendioso. Ingels espera que a análise destes pequenos viajantes – e do que comem – possa oferecer pistas sobre as viagens das tartarugas e sobre os locais onde apanharam os animais ao longo do caminho. Ingels espera conseguir fazer estes testes no futuro.

Ainda não foram realizados estudos deste género na meiofauna, mas os investigadores examinaram a composição química das cracas presentes nas carapaças de tartarugas-verdes e comuns. Este trabalho mostra que os isótopos, ou variantes químicos dentro das cracas, fornecem um registo das condições presentes nos locais por onde viajaram, como a temperatura e salinidade, e isto pode ser utilizado para inferir as rotas de migração.

“Quanto mais de perto observamos estes animais, mais há para descobrir”, diz Robinson.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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