O Sangue de Caranguejo-ferradura é Essencial Para Uma Vacina COVID-19 – Mas o Ecossistema Pode Sofrer

Os conservacionistas estão preocupados porque estes animais, que são uma fonte de alimento vital para muitas das espécies ao largo da Costa Este dos EUA, podem entrar em declínio.

Wednesday, July 8, 2020,
Por Carrie Arnold
Um caranguejo-ferradura do Atlântico na praia de Stone Harbor, em Nova Jersey, perto da Baía de ...

Um caranguejo-ferradura do Atlântico na praia de Stone Harbor, em Nova Jersey, perto da Baía de Delaware.

Fotografia de Joel Sartore, Nat Geo Image Collection

Todas as primaveras, guiados pela lua cheia, centenas de milhares de caranguejos-ferradura chegam à costa atlântica dos EUA para colocarem os seus ovos. Para as aves famintas, são um banquete. Para as farmacêuticas, são um recurso essencial para tornar os medicamentos seguros.

Isto acontece porque o sangue azulado destes animais fornece a única fonte natural conhecida de lisado de amebócitos de límulo, uma substância que deteta um contaminante chamado endotoxina. Mesmo que uma quantidade ínfima de endotoxina – um tipo de toxina bacteriana – apareça nas vacinas, nos medicamentos injetáveis, ou noutros produtos farmacêuticos esterilizados, como joelhos ou ancas artificiais, os resultados podem ser letais.


“Todas as companhias farmacêuticas do mundo dependem destes caranguejos. Se pensarmos sobre isto, é incrível como dependemos destas criaturas primitivas”, diz Barbara Brummer, diretora estadual da The Nature Conservancy em Nova Jersey.

Todos os anos, as companhias farmacêuticas recolhem meio milhão de caranguejos-ferradura do Atlântico, sangram-nos e devolvem-nos ao oceano – muitos acabam por morrer devido a este processo. Esta prática, juntamente com a apanha em excesso destes caranguejos para fazer isco para a pesca, provocou nas últimas décadas um declínio da espécie nesta região.

Em 1990, os biólogos estimaram que 1.24 milhões de caranguejos-ferradura tinham desovado na Baía de Delaware, uma zona de eleição para a postura de ovos e para as farmacêuticas recolherem os caranguejos. Em 2002, este número tinha caído para os 333 500. Nos últimos anos, os números de desova na Baía de Delaware rondavam valores semelhantes, e uma sondagem feita em 2019 estimou valores perto dos 335 211. (A pandemia obrigou ao cancelamento da contagem de 2020.)

A apanha de caranguejo e a colheita de sangue é morosa, e o lisado daí resultante custa cerca de 15 mil dólares o litro. Em 2016, foi aprovada como alternativa na Europa uma opção sintética para o lisado de caranguejo – fator C recombinante (rFC) – e várias empresas farmacêuticas dos EUA também começaram a usar esta alternativa.

Mas no dia 1 de junho de 2020, a Farmacopeia Americana, entidade que estabelece os padrões científicos para medicamentos e outros produtos nos EUA, recusou-se a colocar a rFC em pé de igualdade com o lisado de caranguejo, alegando que a sua segurança ainda não tinha sido comprovada.

No início de julho, a empresa Lonza, sediada na Suíça, começou a fabricar uma vacina contra a COVID-19 para ensaios clínicos em humanos – e tem de usar o lisado na vacina se a quiser vender nos EUA (Relacionado: Como iremos saber que a vacina contra a COVID-19 está pronta?)

Uma rola-do-mar come um caranguejo-ferradura na Baía de Delaware, em Nova Jersey. Os caranguejos são fontes vitais de alimento para as rolas-do-mar e para outras aves migratórias.

Fotografia de Doug Wechsler, Minden Pictures

A saúde e a segurança humanas, sobretudo em algo tão importante como uma vacina contra o coronavírus, são fundamentais, diz Barbara Brummer. Mas os conservacionistas temem que, sem a rFC e sem outras alternativas disponíveis, os efeitos da recolha continuada de sangue de caranguejo-ferradura – para vacinas contra a COVID-19 e medicamentos relacionados – possa comprometer os caranguejos e os ecossistemas marinhos que dependem deles.

Uma declaração escrita pela Lonza diz que os testes da vacina contra a COVID-19 da empresa não exigem mais do que um dia de produção de lisado por parte dos três maiores laboratórios dos EUA.

Um destes três laboratórios – o Laboratório Charles River, sediado em Massachusetts – deu à National Geographic a mesma estatística. John Dubczak, do Laboratório Charles River, explicou por email que, para fazer 5 mil milhões de doses da vacina contra a COVID-19, serão realizados 600 mil testes, que usarão uma quantidade de lisado criada num único dia.

“Isto não sobrecarrega indevidamente a cadeia de abastecimento [de lisado] ou os caranguejos-ferradura”, disse Dubczak, diretor executivo de desenvolvimento de reagentes e programas piloto.

Sangue azul
Os caranguejos-ferradura, que se mantiveram praticamente inalterados durante centenas de milhões de anos, têm algumas características incomuns. Apesar do nome, estas criaturas estão mais relacionadas com as aranhas e os escorpiões do que com os caranguejos. E também têm nove olhos – dois olhos compostos e sete simples.

Em 1956, o investigador médico Fred Bang reparou noutra característica invulgar: quando o sangue do caranguejo-ferradura interage com a endotoxina, as células chamadas amebócitos coagulam e formam uma massa sólida. Bang percebeu que estes amebócitos – parte do sistema imunitário dos caranguejos-ferradura – conseguiam detetar contaminantes bacterianos mortíferos na crescente variedade de produtos farmacêuticos que eram projetados para entrar na corrente sanguínea humana.

Os cientistas descobriram eventualmente como usar o lisado de amebócitos para testar medicamentos e vacinas e, em 1977, a agência Food and Drug Administration dos EUA aprovou o lisado de caranguejo-ferradura para esse fim.

Processo de sangramento de caranguejos-ferradura no Laboratório Charles River, em Charleston, na Carolina do Sul.

Fotografia de Timothy Fadek, Corbis/Getty

Desde então, todos os anos em maio, estas criaturas em forma de capacete são levadas em massa para laboratórios especializados ao longo da Costa Este dos EUA, onde técnicos extraem o sangue de uma veia perto do coração dos animais, antes de os devolverem ao mar. (O sangue azul provém do cobre metálico das proteínas – chamadas hemocianinas – que transportam oxigénio.)

Na década de 1980 e início da década de 1990, este processo parecia sustentável. A indústria farmacêutica alegou que morriam apenas 3% dos caranguejos sangrados. As sondagens populacionais mostravam que os caranguejos eram abundantes e os conservacionistas não valorizavam muito a espécie, diz Larry Niles, biólogo da Fundação Conserve Wildlife de Nova Jersey.

Mas, no início dos anos 2000, a situação começou a mudar. A contagem anual de caranguejos-ferradura durante a época de desova revelou números inferiores, e um estudo de 2010 descobriu que 30% dos caranguejos sangrados acabavam por morrer – 10 vezes mais do que o número estimado pela primeira vez.

“Esta luta não se limita apenas aos caranguejos-ferradura. Trata-se de manter os ecossistemas produtivos”, diz Niles, que passou a sua carreira a investigar o meio ambiente e as espécies da Baía de Delaware.

A empresa suíça Lonza diz que “está empenhada na proteção e no bem-estar dos caranguejos-ferradura e que apoia ativamente os esforços de conservação”.

De acordo com o comunicado da Lonza, o Laboratório Charles River e outro fabricante de lisado, a Associates of Cape Cod Inc., criam caranguejos-ferradura em incubadoras e libertam-nos no oceano. A Lonza diz que, em 2019, a empresa de Cape Cod reintroduziu 100 mil caranguejos juvenis nas águas de Massachusetts e Rhode Island.

A declaração da Lonza também diz que a empresa prefere usar alternativas de lisado e que patenteou a sua própria marca rFC, chamada PyroGene. E a decisão da Farmacopeia Americana reflete parte da declaração da empresa suíça: “Ainda existem obstáculos regulatórios. Continuamos esperançosos de que as barreiras que impedem os criadores de medicamentos de usar alternativas sintéticas estejam a começar a cair.”

Perturbações na cadeia alimentar
Entretanto, os conservacionistas estão a monitorizar o impacto que isto tem nas espécies que dependem de ovos de caranguejo-ferradura como uma fonte vital de alimento.

Niles diz que os peixes de pesca recreativa, que antigamente eram numerosos, como o robalo e o linguado, caíram em número na região, em parte devido ao menor número de ovos de caranguejo-ferradura. As tartarugas-de-diamante, um tipo de réptil vulnerável à extinção, também dependem deste alimento sazonal.

Tanto Niles como Brummer estão particularmente preocupados com as aves migratórias, como as seixoeiras e as rolas-do-mar, que param na Baía de Delaware na sua jornada de 24 mil quilómetros, desde Tierra del Fuego, no Chile, até às zonas de reprodução no Ártico. Estas aves precisam de enormes quantidades de energia para os seus voos de longa distância, e os ovos de caranguejo, ricos em calorias, são o combustível perfeito.

Durante a sua estadia de duas semanas na Baía de Delaware, as rolas-do-mar quase que duplicam o seu peso corporal para se prepararem para a etapa final da viagem. Contudo, as temperaturas frias deste ano atrasaram a desova dos caranguejos, e apenas 30 mil rolas-do-mar permaneceram na baía, uma descida de cerca de 40 mil aves em comparação com 2019.

Niles alerta que o enfraquecimento de um elo na cadeia alimentar pode reverberar, com consequências potencialmente desastrosas. O declínio dos caranguejos-ferradura pode, em última análise, eliminar os benefícios que turistas, pescadores e outros retiram da baía.

“O valor de um recurso natural”, diz Niles, “não pertence às companhias que o exploram. É algo que nos pertence.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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