Descubra a Partenogénese – Animais que Têm “Nascimentos Virgens”

Alguns animais conseguem ter proles sem acasalar. Descubra como funciona.

Friday, August 28, 2020,
Por Corryn Wetzel
Uma cria de dragão de Komodo sobe uma árvore no Parque Nacional de Komodo, na Indonésia. ...

Uma cria de dragão de Komodo sobe uma árvore no Parque Nacional de Komodo, na Indonésia. Os dragões de Komodo são um dos poucos vertebrados que podem ter “nascimentos virgens”, que são possibilitados pela partenogénese.

Fotografia de Stefano Unterthiner, Nat Geo Image Collection

A grande maioria dos animais precisa de acasalar para reproduzir. Mas um pequeno subconjunto de animais pode ter proles sem acasalar.

Este processo, denominado partenogénese, permite que criaturas desde abelhas a cascavéis tenham os chamados “nascimentos virgens”.

Estes eventos podem surpreender as pessoas que cuidam de animais. Alguns dos exemplos incluem um tubarão-zebra fêmea chamado Leonie, que vive com outros tubarões fêmea no Reef HQ Aquarium da Austrália, e que surpreendeu os seus tratadores em 2016 quando três dos seus ovos eclodiram em crias vivas.


Alguns anos antes, no Zoo de Louisville, nos EUA, uma cobra pitão-reticulada chamada Thelma – que nunca tinha visto uma cobra pitão macho – pôs seis ovos que se desenvolveram em jovens cobras saudáveis. E em 2006, no Zoo Chester de Inglaterra, um dragão de Komodo fêmea chamado Flora conseguiu um feito semelhante, surpreendendo os seus tratadores.

O termo partenogénese vem de duas palavras gregas que se traduzem literalmente para “criação virgem”.

Como funciona
A reprodução sexual envolve dois ingredientes: um óvulo e um espermatozóide. Cada um fornece metade da informação genética necessária para criar um organismo vivo. Mas, na partenogénese, o corpo encontra uma forma única de preencher os genes que normalmente são fornecidos pelo esperma.

Os ovários produzem óvulos através de um processo complexo chamado meiose, no qual as células se replicam, reorganizam e separam. Estes óvulos contêm apenas metade dos cromossomas da mãe, com uma cópia de cada cromossoma. (Estas células chamam-se haploides; as células que contêm duas cópias cromossomáticas chamam-se células diploides.)

O processo de meiose também cria um subproduto: células mais pequenas chamadas corpos polares, distintas do óvulo fértil. Numa das versões da partenogénese, chamada autogamia, um animal consegue fundir um corpo polar com um óvulo para ter crias. Este processo, que já foi documentado em tubarões, mistura ligeiramente os genes da mãe para criar descendentes que são semelhantes à mãe, mas que não são clones exatos.

Noutra das formas de partenogénese, chamada apomixia, as células reprodutoras replicam-se através da mitose, um processo onde a célula se duplica para criar duas células diploides – uma espécie genética de “colar e copiar”. Como estas células nunca passam pelo processo de mistura de genes da meiose, os descendentes produzidos desta forma são clones geneticamente idênticos aos pais. Esta forma de partenogénese é mais comum nas plantas.

Para a maioria dos organismos que se reproduzem da primeira forma, através da autogamia, a prole fica geralmente com dois cromossomas X da mãe. Dois cromossomas X, o principal depósito genético ligado ao sexo, dão apenas origem a descendentes fêmea.

Mas há ocasiões raras em que insetos como os afídios conseguem produzir descendentes macho férteis que são geneticamente idênticos à mãe, exceto pela ausência de um segundo cromossoma X. Estes machos são geralmente férteis, mas como só conseguem produzir espermatozóides que contêm cromossomas X, todos os seus descendentes serão fêmeas.

Criaturas grandes e pequenas
Há milhões de anos que os animais se reproduzem através da partenogénese, que surgiu pela primeira vez em alguns dos organismos mais pequenos e simples. Nos animais mais evoluídos, como os vertebrados, os cientistas acreditam que a capacidade de reprodução assexuada surgiu como um último recurso para as espécies que enfrentavam condições adversas. Isto pode explicar por que razão a partenogénese é possível em tantas espécies de desertos e ilhas.

Muitos dos animais que procriam através partenogénese são pequenos invertebrados, como abelhas, vespas, formigas e afídios, que podem alternar entre reprodução sexual e assexuada.

A partenogénese já foi observada em mais de 80 espécies de vertebrados, e cerca de metade são peixes ou lagartos. É raro encontrar vertebrados complexos como tubarões, cobras ou grandes lagartos que dependam da reprodução assexuada, razão pela qual Leonie e os outros animais confundiram inicialmente os cientistas.

Dada a dificuldade em rastrear a frequência com que a partenogénese acontece na natureza, muitas das “novidades” na reprodução assexuada foram observadas em animais que estão aos cuidados de humanos. Para os vertebrados, seja na natureza ou em cativeiro, estes “nascimentos virgens” são eventos raros desencadeados por condições invulgares.

Não há conhecimento de mamíferos que se reproduzam desta forma porque, ao contrário dos organismos mais simples, os mamíferos dependem de um processo chamado impressão genómica – como se fosse um carimbo molecular que imprime rótulos que identificam quais são os genes do pai e os da mãe. Para os mamíferos como os humanos, isto significa que determinados genes são ativados ou desativados dependendo do progenitor contribuinte. Se houvesse apenas um dos pais, alguns genes não seriam sequer ativados, impossibilitando uma reprodução viável.

Contudo, a partenogénese já foi induzida experimentalmente em vários mamíferos, incluindo em coelhos.

Estratégia de sobrevivência a solo
Em alguns casos muito raros, há espécies de animais que se reproduzem exclusivamente através de partenogénese. Uma dessas espécies é o lagarto Aspidoscelis uniparens – são todos fêmeas.

Em alguns insetos, salamandras e minhocas, a presença de espermatozóides serve apenas para desencadear a partenogénese. As células de esperma iniciam o processo ao penetrarem no óvulo, mas o espermatozóide degenera posteriormente, deixando apenas os cromossomas maternos. Neste caso, o espermatozóide só serve para estimular o desenvolvimento do óvulo – não tem uma contribuição genética.

A capacidade de reprodução assexuada permite que os animais transmitam os seus genes sem gastarem energia a encontrar um parceiro, e assim podem ajudar a sustentar uma espécie em condições difíceis. Por exemplo, se um dragão de Komodo fêmea estiver numa ilha desabitada, consegue criar por si só uma população através de partenogénese.

Mas como todos os indivíduos seriam geneticamente idênticos, os dragões de Komodo – mães e filhas – seriam mais vulneráveis a doenças e alterações ambientais do que um grupo geneticamente diverso. Em áreas do Novo México, por exemplo, algumas populações fêmeas de lagartos Aspidoscelis uniparens partilham perfis genéticos quase idênticos.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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