Cangurus Expostos a Herbicida Comum Apresentam Malformações nos Órgãos Reprodutores

Um novo estudo sobre a atrazina contribui para um crescente número de trabalhos científicos que mostram que este pesticida pode interferir no desenvolvimento sexual de vários animais.

Wednesday, September 23, 2020,
Por Corryn Wetzel
Os pequenos cangurus conhecidos por wallaby, quando nascem, são do tamanho de um feijão, e só ...

Os pequenos cangurus conhecidos por wallaby, quando nascem, são do tamanho de um feijão, e só acabam o seu desenvolvimento nas bolsas das mães. Isto faz com que sejam mais vulneráveis a ameaças externas, como poluentes químicos, do que muitos outros mamíferos.

Fotografia de Auscape, Getty Images

Um dos herbicidas mais utilizados pode interferir no desenvolvimento sexual de animais, de acordo com um crescente corpo de investigação. Aplicado em campos agrícolas, relvados residenciais e noutros lugares para matar ervas daninhas, o pesticida atrazina é frequentemente encontrado em baixas concentrações em riachos, lagos e na água potável dos EUA e da Austrália, os dois maiores utilizadores mundiais deste pesticida.

Um estudo publicado em agosto na revista Reproduction, Fertility and Development descobriu que a atrazina afeta o desenvolvimento genital dos Macropus eugenii, um marsupial australiano conhecido por wallaby que é da mesma família dos cangurus. Quando os investigadores deram água com o herbicida a cangurus fêmea durante o período de gravidez e amamentação, as crias macho desenvolveram pénis cada vez mais pequenos.

Esta investigação oferece mais evidências de que a atrazina “interfere na forma como as nossas hormonas mantêm o equilíbrio no corpo”, diz Andrew Pask, autor do estudo e geneticista da Universidade de Melbourne. Andrew não se refere apenas aos cangurus, mas a todos os mamíferos – incluindo os humanos.

O estudo é o primeiro a explorar os impactos da atrazina nos marsupiais, cujas crias nascem subdesenvolvidas e acabam de se formar na bolsa da mãe. O desenvolvimento genital dos marsupiais só acontece depois do nascimento, o que significa que são mais propensos à influência de fatores externos, como a poluição química, diz Jennifer Graves, investigadora de marsupiais da Universidade La Trobe, em Melbourne, que não participou neste estudo. Estes animais tendem a mostrar mais claramente os efeitos da atrazina, efeitos que podem estar a acontecer de forma mais subtil em mamíferos placentários, diz Jennifer.

A Syngenta, empresa sediada na suíça que é a maior produtora de atrazina, insiste que o produto é seguro. A empresa realizou os seus próprios estudos sobre os impactos da atrazina e afirma que “não existem evidências consistentes ou convincentes para concluir que a atrazina afeta negativamente a vida selvagem em concentrações ambientalmente relevantes”, disse por email Chris Tutino, porta-voz da empresa.

A concentração de atrazina no estudo de Andrew Pask é superior ao que os cangurus podem encontrar no ambiente, diz Chris Tutino, acrescentando que “é um cenário de exposição implausível”. Andrew discorda, citando evidências de picos elevados de atrazina nos riachos australianos. Embora a maior concentração documentada nas águas australianas seja de cerca de um oitavo da usada no estudo, os animais podem ficar expostos a mais atrazina quando comem plantas pulverizadas com este químico, diz Andrew.

Os pequenos cangurus – wallaby – como os do Parque Nacional de Narawntapu, podem ficar expostos ao herbicida atrazina nos riachos e quando comem plantas borrifadas com este químico, algo que pode prejudicar o seu desenvolvimento sexual.

Fotografia de Ewen Bell, Nat Geo Image Collection

Desenvolvimento perturbado
A atrazina é o segundo herbicida mais usado nos EUA, onde mais de 30 milhões de quilos são pulverizados anualmente nas lavouras – sobretudo em milho, cana-de-açúcar e sorgo. A Austrália, o segundo maior mercado deste produto químico, usa perto de 3 milhões de quilos por ano. A União Europeia baniu a atrazina em 2004 devido à falta de evidências sobre a sua segurança e devido a preocupações com a regulamentação da sua concentração nas bacias hidrográficas.

De acordo com o Environmental Working Group, uma organização sem fins lucrativos que defende a redução do uso de pesticidas e padrões mais rígidos para a água potável nos EUA, a atrazina é o pesticida mais encontrado na água canalizada. Uma análise feita em 2010 pelo Conselho de Defesa de Recursos Naturais dos EUA a 153 sistemas de água potável descobriu que mais de um terço tinha picos de atrazina acima do limite estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) – 3 partes por milhar de milhão. Alguns sistemas em Ohio, Illinois e Indiana tiveram picos acima das 10 partes por milhar de milhão.

A atrazina tem tendência para aumentar a conversão de testosterona em estrogénio, diz Andrew Pask, podendo influenciar o perfil hormonal de um animal para desenvolver características femininas. A investigação sugere que isto pode perturbar o sistema endócrino, a rede de glândulas e hormonas corporais que controla tudo, desde o desenvolvimento dos órgãos sexuais até às funções neurais.

Como o sistema endócrino é semelhante em todos os mamíferos, estes estudos também têm potenciais implicações para os humanos, diz Jennifer Freeman, toxicologista ambiental da Universidade Purdue que não participou no estudo.

Apesar de não existir uma extensa investigação sobre os efeitos da atrazina na saúde humana, um estudo feito em 2013 com rapazes nascidos no Texas relacionou a elevada exposição pré-natal à atrazina a malformações genitais, incluindo pénis mais pequenos. E um estudo de 2012 mostrou que as mulheres em áreas com muita utilização de atrazina tinham mais propensão para ter partos prematuros. Uma revisão de 2003 da Agência para Substâncias Tóxicas e Registo de Doenças do governo dos Estados Unidos descobriu que “a exposição materna à atrazina através de água potável estava associada a um baixo peso fetal e a problemas cardíacos, urinários e malformações ao nível dos membros”.

Mesmo com níveis abaixo do padrão estabelecido para a água potável nos EUA, a atrazina demonstrou ter efeitos nocivos para os animais. Um estudo de 2002 encontrou malformações genitais em sapos expostos a água que tinha apenas uma parte por milhar de milhão de atrazina. E um estudo de 2010 mostrou que a atrazina, em concentrações de 2.5 partes por milhar de milhão, pode alterar o desenvolvimento dos órgãos reprodutores dos sapos macho. Grande parte destes sapos tinha níveis baixos de testosterona, contagem anormal de esperma e diminuição de fertilidade. Entre estes sapos, que anteriormente eram machos, um em cada dez transformou-se numa fêmea completamente funcional.

Qualquer coisa que interfira com a saúde reprodutora dos wallaby pode colocá-los em risco, dizem os investigadores, embora as suas populações estejam de momento relativamente estáveis.

Fotografia de imageBROKER, Alamy Stock Photo

Num estudo anterior conduzido por Andrew Pask, publicado em 2019, a sua equipa descobriu que os ratos expostos a um nível de atrazina considerado “sem efeitos observados em humanos” levaram a um aumento de peso e à diminuição na contagem de espermatozoides nos animais.

O tratamento das águas pode reduzir os níveis de atrazina para os humanos, mas os animais podem encontrá-la em concentrações muito mais elevadas na natureza. Nos riachos australianos que ficam perto de terras agrícolas, a atrazina foi medida em concentrações de até 53 partes por milhão após a época de pulverização.

Nas terras agrícolas do sudoeste da Austrália, onde vivem os wallaby, os riachos e lagoas com escoamento de atrazina “são alguns dos únicos lugares onde existe uma fonte permanente de água para estes animais”, diz Andrew. “Por isso, eles percorrem grandes distâncias para beber água destas fontes que, infelizmente, estão contaminadas.”

Efeitos dramáticos
Os cangurus podem ingerir atrazina quando comem plantas que foram pulverizadas, ou quando bebem água contaminada. Andrew e os seus colegas deram água normal a 20 fêmeas de canguru grávidas, e água com atrazina a outras 20, com 450 partes por milhão – uma concentração elevada, diz Andrew, mas que ainda assim é um nível que os cangurus podem encontrar na natureza. As fêmeas beberam água livremente durante o período de gravidez, parto e lactação.

A equipa de Andrew queria ver se, e de que forma, os órgãos genitais das crias do sexo masculino – conhecidas por joeys – nascidas de fêmeas expostas a atrazina poderiam ter um crescimento diferente. O desenvolvimento do pénis é um bom indicador para o equilíbrio hormonal geral de um animal durante a gestação, porque é facilmente afetado pelas alterações hormonais, diz Andrew.

Os joeys nascidos de mães que beberam água contaminada tinham pénis 20% mais curtos e significativamente mais finos do que os do grupo de controlo, e os genes responsáveis pela função testicular também estavam alterados. De acordo com o estudo, estes resultados sugerem que houve um desequilíbrio hormonal durante o desenvolvimento embrionário inicial.

“Foi realmente muito surpreendente conseguirmos ver efeitos tão dramáticos”, diz Andrew.

Gestão de marsupiais
Os wallaby macho demoram dois anos a atingir a idade reprodutiva, pelo que os investigadores ainda não sabem se a exposição à atrazina vai afetar a reprodução, mas Andrew diz que os pénis mais pequenos podem dificultar o sucesso da inseminação.

“São efeitos realmente dramáticos que eles estão a relatar”, diz Jennifer Sass, cientista sénior e toxicologista do Conselho de Defesa de Recursos Naturais. Encontrar anormalidades significativas no desenvolvimento dos wallaby, mesmo com uma dosagem elevada, é “simplesmente de arrepiar”, diz Jennifer, porque o químico é muito usado e os seus efeitos no desenvolvimento dos mamíferos ainda não são completamente percetíveis.

Porém, Chris Tutino discorda, dizendo que “quase 7 mil estudos concluíram que a atrazina em níveis de exposição relevantes era segura para os humanos e para o ambiente”.

Os cangurus Macropus eugenii são atualmente considerados uma espécie de “pouca preocupação” pela União Internacional para a Conservação da Natureza, mas estão sob ameaça crescente porque os seus habitats de pastagem estão a ser substituídos por quintas e ranchos. “Qualquer pressão adicional que coloquemos sobre [uma] espécie, algo que dificulte a sua reprodução, pode ter impactos profundos”, diz Andrew.

A próxima etapa da investigação, segundo Andrew, passa por estudos adicionais com dosagens mais baixas de atrazina para determinar qual é a dose mínima que despoleta os problemas. Andrew espera que o estudo ajude a alterar a forma como estes químicos são usados na pulverização de terras agrícolas da Austrália – onde a atrazina é usada de forma mais intensa e onde vivem muitos marsupiais.

“No mínimo, precisamos de levar isto em consideração nos planos de gestão de marsupiais que temos para algumas destas espécies que estão realmente em perigo de extinção”, diz Andrew Pask.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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