Estes Papagaios Desenvolveram Novos Dialetos em Cativeiro. Será que os Seus Parentes Selvagens os Conseguem Compreender?

A reprodução em cativeiro salvou estas aves da extinção, mas também alterou a forma como comunicam, levantando preocupações sobre o seu futuro.

Friday, September 25, 2020,
Por Erica Tennenhouse
Um papagaio-de-porto-rico que foi recentemente libertado na natureza alimenta-se de plantas Henriettea. Atualmente, só restam pouco ...

Um papagaio-de-porto-rico que foi recentemente libertado na natureza alimenta-se de plantas Henriettea. Atualmente, só restam pouco mais de 600 papagaios destes.

Fotografia de Tanya Martinez

Hoje, os sibilos e assobios dos papagaios reverberam pela floresta tropical de Porto Rico. Mas, há algumas décadas atrás, estes sons quase desapareceram.

A desflorestação teve consequências para os papagaios de Porto Rico. Antes da colonização europeia em 1500, a população destes papagaios estava estimada em cerca de um milhão. Na década de 1970, só restavam 13 papagaios de Porto Rico na natureza, confinados a uma das únicas zonas florestadas da ilha, a floresta de El Yunque.

Num esforço de último recurso para resgatar a espécie da extinção, os conservacionistas começaram a criar os papagaios em cativeiro. Foi uma aposta bem-sucedida: embora as aves tagarelas de cor verde-esmeralda ainda sejam consideradas “em perigo crítico de extinção”, hoje existem mais de 600.

Mas os conservacionistas dizem que agora pode existir uma nova ameaça à sua sobrevivência. Os papagaios em cativeiro desenvolveram um dialeto completamente novo, um fenómeno que nunca foi observado noutras populações de aves em cativeiro, diz Tanya Martínez, líder do estudo e bióloga conservacionista do Projeto de Recuperação de Papagaios-de-porto-rico do Departamento de Recursos Naturais e Ambientais do país.

Em 2013, Tanya Martínez, então aluna de mestrado na Universidade de Porto Rico, começou a perceber que os papagaios-de-porto-rico não soavam todos iguais. “Se fossemos à floresta de El Yunque para trabalhar com a população selvagem, parecia quase uma espécie diferente”, diz Tanya, cujo artigo foi recentemente publicado na revista Animal Behavior.

Curiosa em descobrir mais, Tanya escutou as quatro populações de papagaios existentes – duas selvagens e duas em cativeiro – e gravou-as. E o que ouviu confirmou a sua suspeita: as vocalizações não eram as mesmas de uma população para outra.

A potencial barreira do dialeto é uma preocupação, diz Timothy Wright, biólogo da Universidade Estadual do Novo México que não participou na investigação. Para serem reintroduzidos com sucesso, diz Timothy, os papagaios devem conseguir comunicar com os seus pares, sobretudo para fortalecer as relações nas suas comunidades individuais.

Esquerda: Três ovos de papagaio-de-porto-rico dentro da cavidade oca de uma árvore.
Direita: Dois papagaios-de-porto-rico, com dispositivos de rastreio por rádio, espreitam pela cavidade do ninho. Os dispositivos ajudam os cientistas a acompanhar a localização das aves.

Fotografia de TANYA MARTINEZ

“Se não conseguimos transmitir aos outros que fazemos parte do grupo deles, podemos não conseguir os benefícios de pertencer a esse grupo”, como juntarem-se em bandos para fugirem de predadores e trabalhar em cooperação para encontrar comida, diz Timothy.

Aumento da população
O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA estabeleceu o primeiro bando de papagaios-de-porto-rico nascidos em cativeiro em 1973, não muito longe do território isolado dos papagaios que vivem na natureza, em El Yunque.

Com um declínio tão acentuado na população selvagem, os cientistas precisavam de uma abordagem criativa. Assim, levaram para Porto Rico papagaios-de-hispaniola, que são intimamente relacionados – e relativamente abundantes nos seus países nativos de origem, Haiti e República Dominicana – e colocaram-nos a desempenhar o papel de pais substitutos, cuidando das crias dos papagaios-de-porto-rico.

Esta abordagem foi um sucesso. Em 2006, havia quatro populações de papagaios-de-porto-rico: um bando em cativeiro em El Yunque, um bando em cativeiro e um reintroduzido na Floresta Estadual de Rio Abajo, e o bando selvagem original que restava em El Yunque.

Depois de gravar as quatro populações no terreno, Tanya converteu mais de 800 horas de gravações áudio em ondas de visualização, ou espectrogramas. Com a ajuda do seu orientador, David Logue, agora na Universidade de Lethbridge, no Canadá, agruparam as vocalizações consoante as semelhanças.

A equipa concentrou-se nas duas chamadas mais comuns, o caw e o chi, que os membros do bando trocam para se manterem em contacto uns com os outros. A investigação revelou que as aves em cativeiro emitem estes sons com pelo menos duas sílabas diferentes, enquanto que os pássaros selvagens de El Yunque vocalizam chamadas completamente diferentes, que basicamente são uma única sílaba que é sempre repetida.

A exposição desde tenra idade às chamadas dos papagaios-de-hispaniola, enquanto estavam separados dos papagaios mais velhos da sua própria espécie, pode ter preparado o terreno para as aves criadas em cativeiro desenvolverem novas vocalizações, diz Tanya.

Mas as diferenças não se ficavam por aí. O estudo também descobriu que, sempre que os conservacionistas dividiam as aves em novos grupos, surgiam pequenas inovações nas suas vocalizações. O bando em cativeiro de Rio Abajo começou a ter sons distintos dos do seu bando pai de El Yunque – e quando estas mesmas aves em cativeiro foram libertadas na floresta de Rio Abajo, as chamadas mudaram novamente.

Tanya Martínez concluiu a sua investigação mesmo a tempo. Em 2017, pouco depois de terminar as gravações, a floresta de El Yunque foi atingida por uma tragédia: o furacão Maria matou o bando inteiro, aproximadamente 50 papagaios selvagens.

“Aquele era o último refúgio para estes papagaios selvagens”, diz Tanya. “Se não fosse aquela floresta, a espécie já estaria extinta”, mas agora está preservada nos bandos em cativeiro e nos que foram reintroduzidos, e cujos antepassados vieram daquela mesma floresta há quase 50 anos.

Professores de línguas
As alterações nas vocalizações podem afetar o comportamento dos papagaios, diz Timothy Wright, que estuda papagaios-de-nuca-amarela da Costa Rica, outra espécie de papagaio. Quando Timothy experimentou levar vários papagaios para uma população com um dialeto desconhecido, as aves mais jovens aprenderam rapidamente o novo dialeto, mas os pássaros mais velhos não o conseguiram dominar, diz Timothy. “Parecia que os adultos não queriam aprender o novo dialeto; e só se davam com pássaros que tinham as mesmas vocalizações.”

Apesar de alguns papagaios-de-porto-rico terem adquirido um novo dialeto depois de serem transferidos para uma população diferente, nem todas as aves têm capacidades para isso, diz Thomas White, biólogo de vida selvagem que trabalhou com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA no programa de recuperação de papagaios-de-porto-rico há mais de 20 anos.

“Acontece o mesmo com os humanos que estão a aprender uma língua estrangeira – algumas pessoas aprendem muito mais depressa e facilmente do que outras”, diz Thomas.

Portanto, para ajudar as aves em cativeiro a aprender as vocalizações selvagens, o programa de recuperação virou-se para os papagaios reintroduzidos na natureza, para atuarem como professores.

As aves que vão ser libertadas na floresta de El Yunque passam primeiro por um período de adaptação num local onde podem observar, ouvir e aprender com os seus futuros pares. Os conservacionistas também pararam de usar os papagaios-de-hispaniola para substituir os pais, dado que agora há papagaios-de-porto-rico suficientes para cuidar das suas próprias proles.

E no início deste ano, para substituir a população que morreu durante o furacão, a equipa libertou 30 papagaios na floresta de El Yunque. Os seus dialetos, embora não sejam exatamente os mesmos, vão animar novamente a floresta com uma cacofonia de cantos de papagaios.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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