Não Podíamos Ter Figos Sem Vespas. Descubra Como Funciona o Mutualismo.

O mutualismo, uma forma de simbiose, é uma interação entre dois indivíduos que beneficia ambos – e está disseminado por todo o reino animal.

Wednesday, September 30, 2020,
Por Liz Langley
Um beija-flor-roxo, nativo do norte da América do Sul, alimenta-se de uma flor.

 

Um beija-flor-roxo, nativo do norte da América do Sul, alimenta-se de uma flor.

 

Fotografia de Alex Saberi, Nat Geo Image Collection

É bem conhecido que os polinizadores fornecem os nossos alimentos favoritos, desde morangos a sementes de girassol. Mas menos familiar é o que impulsiona a polinização: o mutualismo.

Trata-se de uma interação entre dois indivíduos da mesma espécie, ou de espécies diferentes, que beneficia ambos. O mutualismo é uma forma de simbiose, que é uma relação próxima e persistente entre dois organismos de espécies diferentes, mas não é necessariamente uma relação em que se entreajudam. Os outros tipos de simbiose incluem parasitismo, comensalismo e amensalismo.

Quando os polinizadores, como abelhas, borboletas e beija-flores, bebem o néctar das flores, também apanham o pólen – os espermatozoides da planta – e espalham esta substância por outras flores, ajudando a planta a reproduzir-se. O polinizador obtém uma refeição e a planta procria.

É uma estratégia tão bem-sucedida que a polinização envolve 170 mil espécies de plantas e 200 mil animais, contribuindo para 35% da produção mundial de alimentos.

Algumas plantas e polinizadores até se adaptaram às necessidades específicas uns dos outros. Várias espécies de beija-flores, por exemplo, desenvolveram um bico que se ajusta perfeitamente ao formato de determinadas flores. O beija-flor-bico-de-espada da América do Sul usa um bico mais longo do que o seu próprio corpo para alcançar o néctar dentro das passifloráceas de caule longo.

As abelhas também são favorecidas por algumas flores. As flores da orquídea conhecida por erva-abelha, por exemplo, imitam a aparência das abelhas fêmea.

Quando uma abelha macho tenta acasalar com esta suposta fêmea, a orquídea  reage com cargas de pólen sobre a abelha. “A planta ataca com umas coisas enormes, chamadas polinias, diretamente nas abelhas”, diz Kayla Hale, doutoranda de ecologia e biologia evolutiva na Universidade do Michigan, em Ann Arbor.

Adornada com umas hastes salientes de pólen, a abelha parece “um pouco idiota e fofa”, diz Kayla, enquanto voa para a orquídea seguinte.

Mutualismo obrigatório e facultativo  
Como estas orquídeas também se conseguem autofertilizar, conseguem sobreviver sem o seu parceiro mutualista, sendo portanto um exemplo de mutualismo facultativo.

O Labroides dimidiatus, ou peixe-limpador, é famoso por conseguir as suas refeições através da limpeza de parasitas da boca e guelras de peixes maiores – peixes que visitam propositadamente as suas “estações de limpeza” – nos recifes de coral do Indo-Pacífico. Como os peixes-limpadores têm outras fontes de alimento para além dos parasitas, como crustáceos, esta também é uma relação de mutualismo facultativo.

Porém, no caso dos figos e das vespas-do-figo, ambos precisam um do outro para completar o seu ciclo de vida. A isto chama-se mutualismo obrigatório. Existem cerca de 750 espécies de figos, e cada uma tem uma vespa específica para a polinizar.

O ciclo de vida começa quando uma vespa fêmea perfura um figo, que não é uma fruta, mas sim um cacho de pequenas flores invertidas que estão envoltas numa casca dura. A vespa põe os seus ovos dentro do figo e morre. Quando as larvas eclodem, as larvas dos machos ainda sem asas fertilizam as fêmeas. As vespas fêmea crescem e visitam outros figos, levando consigo o pólen dos figos anteriores para completar o ciclo de vida.

Mutualismo difuso e especializado
Quando os animais comem frutas e cospem ou defecam as sementes, obtêm nutrição e as plantas têm a possibilidades de florescer.

As aves e os mamíferos são os dispersores mais comuns de sementes, mas os lagartos, grilos e até as lesmas-banana também dispersam sementes, diz Judith Bronstein, ecologista e bióloga evolucionista da Universidade do Arizona, em Tucson.

Como os dispersores de sementes comem e espalham uma variedade de plantas, são considerados mutualistas difusos.

O mutualismo especializado acontece quando um ou ambos os organismos têm uma relação mais exclusiva.

Só existe uma espécie de ave, a phainopepla do sudoeste dos EUA e do México, que dispersa as sementes de visco do deserto, uma planta parasita. As bagas desta planta são “muito pegajosas e, quando passam pelo intestino da ave, esta precisa de se limpar para tirar as sementes”, explica Judith, que estudou este mutualismo no Arizona.

VEJA SETE IMAGENS QUE REVELAM A BELEZA DAS ABELHAS

Estes pássaros geralmente limpam-se aos galhos da árvore hospedeira do visco, permitindo que as sementes se colem à planta e que esta se reproduza exatamente onde pertence.

“É um truque muito interessante, e aparentemente é um truque que só as phainopepla conseguem, ou estão dispostas, a fazer”, diz Judith.

Como evoluíram os mutualismos?
Muito antes de as abelhas zumbirem pelos céus, as plantas reproduziam-se através de um processo chamado anemofilia, no qual o pólen transportado pelo vento era por vezes colocado no lugar certo. Mas isto não era muito eficaz, e eventualmente deu-se a evolução para uma estratégia melhor: a polinização por outras espécies.

Os primeiros insetos polinizadores, como os besouros, provavelmente consumiam mais pólen do que transportavam, dificultando a reprodução das plantas. Foi por essa razão que as plantas desenvolveram o néctar: uma recompensa alimentar açucarada e energeticamente rica. (Relacionado: As flores conseguem ouvir o zumbido das abelhas – e isso torna o seu néctar mais doce.)

“Era uma atração para os animais se alimentarem de néctar, ficando cobertos de pólen, e depois seguiam em frente”, diz Judith – “e também garantia que se alimentavam de algo que não era parte da planta”.

Os organismos com relações mutualistas podem passar por uma coevolução onde duas espécies desenvolvem novos traços em resposta às necessidades uma da outra. As acácias da América Central, por exemplo, podem ter desenvolvido espinhos ocos para as formigas de acácia viverem.

As formigas, por sua vez, podem ter desenvolvido comportamentos defensivos – formam “enxames” e picam – para proteger a árvore dos herbívoros. As outras espécies de acácia que não abrigam colónias de formigas não têm espinhos ocos, mas produzem elas próprias uma substância química que as protege dos herbívoros.

É tentador antropomorfizar os mutualismos como favores entre amigos, mas trata-se apenas de duas espécies que tentam responder às suas necessidades. E também pode ser uma relação com um equilíbrio precário.

Por exemplo, Judith diz que, idealmente, as plantas deviam produzir apenas uma determinada quantidade de néctar de uma vez, de maneira a que os polinizadores se alimentassem desse suplemento limitado e voassem à procura de mais comida – polinizando outra planta no processo. Mas por vezes um polinizador fica numa flor e come o néctar todo.

“Existe um conflito de interesses entre o que o polinizador quer e o que a planta quer”, diz Judith. “Isto é realmente matéria-prima para algumas trocas evolutivas muito interessantes entre parceiros.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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